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Actualizado às 10:22 PM, Nov 12, 2019

Scorsese, The Band & etc.

Grande concerto, notável filme: A Última Valsa, com Martin Scorsese a filmar a despedida de The Band, tem uma nova edição comemorativa.

Quando se estreou o filme A Última Valsa (1978), de Martin Scorsese, sobre o derradeiro concerto do grupo The Band, o cartão de abertura, conciso e desafiante, em austeras letras brancas sobre fundo negro, era capaz de provocar palmas imediatas — nele estava escrito apenas: “Este filme deve ser projectado com o som alto.”

Era o tempo em que o conceito de “filme-concerto” tinha um significado bem diferente e, sobretudo, mais apelativo. Na era pré-MTV, sem os infinitos canais da Internet que hoje utilizamos, o cinema podia ser a principal via de acesso global a um grande acontecimento da música rock — tal acontecera, aliás, poucos anos antes, com Woodstock (1970), o filme de Michael Wadleigh sobre os míticos concertos do Verão de 1969. Agora, podemos rever — ou, por certo, para muitos espectadores, ver pela primeira vez — A Última Valsa através de uma esplendorosa edição em Blu-ray.

Vale a pena, aliás, reconhecer o paradoxo em que passou a existir o Blu-ray: por um lado, e apesar das suas excepcionais qualidades, o formato não conquistou no mercado o lugar de evidência que muitos esperariam; por outro lado, a sua consolidação tem passado cada vez mais pelos clássicos em cópias restauradas.
Assim acontece neste caso, através de um edição comemorativa dos 40 anos do evento retratado — o concerto de despedida de The Band teve lugar no Winterland Ballroom, de São Francisco, a 25 de Novembro de 1976. A caixa, em formato de álbum (lembrando as clássicas dimensões dos discos de vinyl), inclui 4 CD com os sons integrais do concerto e vários ensaios, mais um livro de 74 páginas com preciosa informação escrita e magníficas ilustrações.

Os elementos de The Band — Rick Danko, Levon Helm, Garth Hudson, Richard Manuel e Robbie Robertson — emergem, assim, como polarizadores das virtudes clássicas do rock. E tanto mais quanto a sua despedida foi abençoada pela presença de uma impressionante galeria de notáveis, incluindo Bob Dylan, Eric Clapton, Joni Mitchell, Mavis Staples e Ringo Starr.

Filmando-os num palco revivalista, decorado com enormes candeeiros (do século XIX, dir-se-ia...), Scorsese celebra a energia das suas canções, observando-os como símbolos de um tempo em que a exposição ao público não obedecia à lógica das digressões actuais, preparadas como verdadeiras campanhas “eleitorais”. Cada concerto era vivido como um acontecimento total, um verdadeiro teste à verdade interior da música. Como diz um deles: “A estrada foi a nossa escola. Deu-nos um sentido de sobrevivência.”

[este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Fevereiro), com o título 'Para ver com o som bem alto']

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Silêncio + Scorsese (3/3)

A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

[ Parte 1 ] [ Parte 2 ]

3. Celebrar o corpo

No universo cinematográfico de Scorsese, o ponto de fuga de tudo isto é sempre, de forma intensamente física, o corpo. Será preciso recordar também que um filme como Touro Enraivecido se desenvolvia como uma epopeia intimista em que o pugilista Jake La Motta se define como alguém que protagoniza uma celebração religiosa do seu próprio corpo?
Justamente, em Silêncio, a questão do corpo contamina todos os elementos da mise en scène. Desde logo, porque o gesto que consagra a apostasia (pisar o “fumie”) implica a violentação de uma vontade que desafia os valores inerentes à linguagem corporal. Depois, porque os mais diversos elementos narrativos nos vão fazendo sentir a violência da tensão que se estabelece entre os corpos ocidentais e a organização dos espaços nipónicos.

Sublinhe-se, nesse aspecto, a fundamental importância da direcção fotográfica de Rodrigo Prieto e da montagem de Thelma Schoonmaker — no primeiro caso, tratando o espaço, mesmo nos seus lugares mais luminosos, como um labirinto de luzes e sombras que repele aqueles que chegam do exterior; no segundo, criando ritmos e conexões, continuidades e descontinuidades que exprimem a solidão do olhar dos padres jesuítas perante uma realidade que ignora os seus valores e códigos.

No limite, o trabalho de Scorsese escolhe também um espaço de expressão de fascinante ambiguidade. Assim, mesmo através das suas singularidades narrativas, deparamos em Silêncio com a memória simbólica das grandes superproduções “bíblicas” que marcaram, em particular, os anos 50/60 de Hollywood (Scorsese tinha 13 anos quando, em 1956, se estreou nos EUA o emblemático Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille). Ao mesmo tempo, na sua geométrica construção do espaço e gestão do tempo, este filme é também um herdeiro da sofisticação do mestre nipónico Kenji Mizoguchi (1898-1956), autor do lendário Contos da Lua Vaga (1953).

Talvez que o cinema seja “apenas” uma arte de questionar os nossos modos de ver e ouvir, de observar o mundo à nossa volta, inventariando as suas evidências, tanto quanto as suas máscaras. Eis um filme que conduz essa arte ao supremo desafio de enfrentar o silêncio com que Deus recobre as actividades dos humanos. Crentes ou descrentes, com Scorsese compreendemos que através de tal desafio podemos pressentir a possibilidade do sagrado.

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Silêncio + Scorsese (2/3)

A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

[ Parte 1 ]

2. "Porquê eu?"

Silêncio vem encerrar aquilo que, a partir de agora, poderemos designar como a “trilogia religiosa” do seu autor, sendo A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997) os dois primeiros momentos. O que os liga é o reconhecimento de uma trágica e comovente desproporção simbólica. Tal como os padres de Silêncio, Jesus e o Dalai Lama, figuras nucleares desses dois filmes, experimentam a vertigem de serem convocados para uma missão propriamente sagrada — a assunção de uma verdade que transcende os dados da existência comum — que lhes suscita uma dúvida radical: serão eles capazes de satisfazer os desígnios da divindade que servem?

Há uma outra maneira de dizer isto: o trabalho dos portadores das palavras da fé não pode deixar de lidar com a vida comum, regressando à terra, às tensões sociais, às convulsões da política. Ou ainda: os protagonistas da missão divina vão ter de reconhecer os limites inerentes à sua condição humana. Um pouco como o Jesus de A Última Tentação de Cristo que, a certa altura, se vira para o Céu, proclamando uma incontornável angústia: “Porquê eu?”.

Escusado será dizer que Scorsese não perde de vista o paradoxo formal e filosófico que assim se instala: por um lado, a expansão da fé remete sempre, por definição, para qualquer “coisa” que está para além do visível; por outro lado, o cinema é essa arte “primitiva” que ambiciona confrontar-se com o invisível, imaginando-o, ou melhor, revertendo-o para o mundo das imagens. Será preciso recordar que Georges Méliès, pioneiro absoluto do poder encantatório das imagens, era exuberantemente homenageado em A Invenção de Hugo?
Daí o peculiar suspense que se vai instalando no desenvolvimento de Silêncio. É verdade que a fé dos protagonistas está para além das imagens (“fumie”) que ilustram a sua crença. Mas não é menos verdade que aquilo que as autoridades japonesas lhes exigem envolve a negação do valor simbólico dessas imagens (literalmente espezinhadas). Mais do que isso: eles vão ter de escolher entre esse acto de conspurcação das imagens e a morte — a morte dos seus irmãos de fé ou a sua própria morte.

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Silêncio + Scorsese (1/3)

A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

1. Adaptando Shusaku Endo

Não é todos os dias que um filme consegue escapar às rotinas instaladas no mercado, sejam elas de natureza promocional, sejam induzidas pelo alarido mediático. Silêncio, de Martin Scorsese, é um desses filmes (estreia dia 19): um objecto obstinado e obsessivo, alheio a tendências, modas ou estilos ditados por factores exteriores ao seu próprio pensamento — aí residirá, afinal, o seu espantoso apelo universal.
Há em Silêncio uma dimensão genuinamente portuguesa que não pode deixar de nos tocar. Inspirado no romance homónimo do japonês Shushaku Endo, lançado em 1966 (editado entre nós pela Dom Quixote), o filme centra-se na odisseia de dois padres jesuítas portugueses. Enviados ao Japão na segunda metade do século XVII, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) têm por missão descobrir o paradeiro de Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) que, depois de torturado, terá renegado a sua fé. Essa sua apostasia — consumada através do pisar de uma “fumi-e” (imagem de Jesus Cristo ou de uma figura santificada) — envolve um desafio radical para a Igreja: como difundir a sua doutrina em território asiático? Mais do que isso, estamos perante uma questão subtilmente política: como lidar com o peculiar sistema de poderes e crenças da sociedade japonesa?

Para Scorsese, a adaptação do livro de Endo nunca foi uma banal tarefa de “reconstituição” histórica, muito menos a hipótese de fabricar um “blockbuster” habitado por heróis ou super-heróis. A sua relação com o romance foi mesmo vivida como uma saga introspectiva, inerente à reflexão sobre os caminhos da fé católica. De tal modo que a ideia de filmar Silêncio o acompanhou desde 1989, quando descobriu o romance, curiosamente em pleno Japão (onde se encontrava para interpretar a personagem de Vincent Van Gogh num dos episódios do filme Sonhos, de Akira Kurosawa).

A rodagem chegou a estar prevista para 2009, com os nomes de Daniel Day-Lews, Benicio Del Toro e Gael García Bernal a liderar o elenco. O certo é que Scorsese optou por concretizar Shutter Island (2010) e A Invenção de Hugo (2011), desse modo abrindo um conflito com os produtores italianos da Checci Gori Pictures, resolvido nos tribunais no começo de 2014 (através de um acordo cujos termos nunca foram divulgados). Pouco depois, foi decisiva a inclusão de Irwin Winkler na equipa de produção, ele que já estivera ligado a vários títulos de Scorsese, incluindo Touro Enraivecido (1980) e Tudo Bons Rapazes (1990). O essencial da rodagem viria a decorrer entre Janeiro e Maio de 2015, em Taiwan.

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O silêncio que se faz cinema

A propósito de «Silêncio», de Martin Scorsese, muito se tem falado da presença central de personagens portuguesas: na segunda metade do século XVII, dois padres jesuítas portugueses (Andrew Garfield e Adam Driver) são enviados ao Japão para verificar se, de facto, um outro jesuíta português (Liam Neeson) renegou a fé católica, submetendo-se à violência física e emocional das autoridades nipónicas.

Há, de facto, uma essencial dimensão portuguesa na saga dos protagonistas, mas importa não a reduzir a uma mera curiosidade histórica. Afinal de contas, aquilo que Scorsese coloca em cena é uma muito antiga interrogação, com uma perturbante dimensão interior: como assumir as exigências de uma missão divina (neste caso enraizada na fé) que supera os parcos recursos do ser humano?

«Silêncio» serve, assim, para completar uma trilogia de temas religiosos que começou com «A Última Tentação de Cristo» (1988), reinventando a epopeia bíblica de Jesus, e se prolongou através de «Kundun» (1997), um retrato do Dalai Lama. Aquilo que Scorsese coloca obsessivamente em cena é, afinal, a trágica desproporção que se manifesta entre a dimensão humana e o apelo da divindade.

Tal como no romance do japonês Shusaku Endo em que o filme se baseia (editado entre nós pela Dom Quixote), o silêncio que o título nomeia provém, se assim nos podemos exprimir, da própria divindade — os humanos tentam encontrar uma resposta que quebre tal silêncio mas, em boa verdade, é na mais radical introspecção que residirá o essencial do seu destino.

Escusado será sublinhar o desafio formal e narrativo que tal implica. Scorsese é um criador que sabe aplicar os meios específicos do cinema para sondar as regiões mais inacessíveis da experiência humana, suas dúvidas e perplexidades. Em última instância, «Silêncio» desafia também o espectador a superar os seus limites existenciais — uma experiência rara, fascinante.

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«Silêncio» - trailer oficial

Ver o nome de Martin Scorsese associado a um filme é suficiente para querermos saber mais sobre a obra. Afinal de contas, o cineasta norte-americano é um dos mais reconhecidos a nível mundial e desde 2000 que cinco dos seus seis filmes foram nomeados para o Óscar de Melhor Filme, tendo vencido na categoria de Melhor Realizador por «The Departed - Entre Inimigos» (2006). Desde 2013 que não vimos um filme assinado por Scorsese, quando nos encantou com o vibrante «O Lobo de Wall Street» e é já um regresso muito ansiado, sobretudo quando se trata de «Silêncio», um projeto que o cineasta tem vindo a lutar por concretizar há mais de 20 anos. Durante esse tempo, o elenco teve algumas alterações, sendo que, inicialmente, os atores pensados eram Daniel Day-Lewis, Gael García Bernal, Benicio Del Toro e Ken Watanabe.

«Silêncio» é a adaptação do romance escrito por Shûsaku Endô, em 1966, sobre a perseguição aos jesuítas portugueses no Japão, no século XVII. A mesma história já foi adaptada noutros dois filmes: «Silêncio» (1971), de Masahiro Shinoda, e «Os Olhos da Ásia» (1996), de João Mário Grilo. O filme teve gravações em Taiwan e terá mais de 3 horas de duração, contando com argumento de Jay Cocks, que repete a parceria com Scorsese após «Gangs de Nova Iorque» (2002).

A história do filme, que se baseia em factos verídicos, passa-se no século XVII e conta a viagem ao Japão do Padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), um missionário cristão que é obrigado a negar a sua fé. Entretanto, os padres Francisco Garrpe (Adam Driver) e Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) procuram-no e acabam por deparar-se com a mesma situação que o seu mentor. Assim, enquanto tentam propagar as ideias do Cristianismo, os três sofrem uma violenta perseguição.

REALIZADOR: MARTIN SCORSESE («O Touro Enraivecido», 1980; «Tudo Bons Rapazes», 1990; «The Departed - Entre Inimigos», 2006; «O Lobo de Wall Street», 2013)

ELENCO: LIAM NEESON, ADAM DRIVER, ANDREW GARFIELD

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«Silêncio» de Martin Scorsese apresentado em Roma

Após mais de vinte anos de desenvolvimento, o drama espiritual de Martin Scorsese, «Silêncio», chegará finalmente aos cinemas em Dezembro nos Estados Unidos (estreia a 21 de Janeiro em Portugal). Mas primeiro, 400 sacerdotes jesuítas terão a possibilidade de um visionamento do filme altamente antecipado numa sessão especial. A Paramount Pictures vai apresentar «Silêncio» em Roma no final de Novembro para os 400 sacerdotes jesuítas graças ao reverendo James J. Martin, um jesuíta norte-americano que foi conselheiro na rodagem do filme.

As estrelas de «Silêncio» Andrew Garfield e Adam Driver interpretam dois jovens sacerdotes jesuítas que viajam para o Japão no século 17 na procura do seu mentor (Liam Neeson). «Silêncio» é considerado um dos grandes favoritos à temporada de prémios.

«Taxi Driver» - NOVA IORQUE, 1976

A história de «Taxi Driver» envolve já várias gerações de espectadores, desde os que o descobriram, siderados, no seu lançamento, até os que o foram conhecendo através do DVD e formatos alternativos. É uma história que se condensa num hiato de 35 anos, entre a estreia, a 8 de Fevereiro de 1976, e o dia 17 de Fevereiro de 2011, quando a sua esplendorosa cópia restaurada foi estreada no Festival de Berlim.A sessão da Berlinale, realizada no imponente Friedrichstadt-Palast (com os seus quase dois mil lugares esgotados) deixou a certeza de que se tornou possível recuperar os grandes clássicos rodados em película de 35 mm para cópias digitais (com 4K de definição), preservando toda a riqueza das suas texturas cromáticas. O restauro, coordenado por Martin Scorsese e pelo director de fotografia, Michael Chapman, devolve-nos a densidade visual e dramática de um filme cujo apelo lendário o tempo consolidou – é essa cópia que agora, justamente, poderá ser vista pelos espectadores portugueses.

«Taxi Driver» emergiu, afinal, como símbolo de um cinema que não abdicava de olhar, de forma crítica e apaixonada, para uma América que já não se podia reconhecer nas suas mitologias clássicas (que pertencem também ao seu cinema clássico). No olhar perturbado e perturbante de Travis Bickle (Robert De Niro), Scorsese fazia ecoar a angústia de um tempo em que até mesmo a identidade da grande metrópole novaiorquina estava posta em causa. Vale a pena recordar que 1976 foi também o ano em que o cinema americano ajustou contas com os fantasmas do caso Watergate (Os Homens do Presidente, Alan J. Pakula) e fez o premonitório inventário da degradação populista de algumas formas de televisão (Network, Sidney Lumet). Por tudo isso, rever «Taxi Driver» será também reencontrar a energia de um cinema de invulgar ousadia temática e artística.

(Texto publicado na Metropolis nº7 e no programa de «Taxi Driver» integrado nas Sessões Clássicas Metropolis)

A MEDEIA FILMES associa-se às celebrações do 40º aniversário de TAXI DRIVER e exibe, em exclusivo no ESPAÇO NIMAS, o filme mítico de MARTIN SCORSESE, numa versão digital restaurada e remasterizada. TAXI DRIVER poderá ser visto a partir de 22 DE SETEMBRO.

 

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