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Actualizado às 10:34 PM, Sep 15, 2019

Festival Córtex - 6ª Edição

O Córtex, Festival de Curtas Metragens de Sintra, chega à sua 6.º edição, uma idade simbólica e prolífica em significado, tal como os filmes que fazem parte da oferta deste ano. Aliás, faz parte da seleção «Everything Will Be Okay», de Patrick Vollrath, uma obra nomeada para o Óscar de Melhor Curta-Metragem. A Mostra realiza-se de 18 a 21 de fevereiro, no Centro Cultural Olga Cadaval, e promete surpresas, mas não só. A METROPOLIS entrevistou Michel Simeão, diretor do Córtex, sobre o que se pode esperar desta nova viagem pelas curtas-metragens.

AM STRAN

Quais são os destaques da 6.ª edição do Festival Córtex?
O principal destaque da 6ª edição do Festival Córtex vai para a sessão de abertura, dia em que vamos estrear pela primeira vez em Portugal os filmes que compõem a trilogia de curtas-metragens realizadas por Terence Davis, um dos mais originais realizadores ingleses do séc. XX. Os filmes foram enviados pelo British Film Institute, são autênticas obras de arte, raridades que serão projetadas em 35mm. Marcam o início da carreira de Terence Davis, que utiliza estas três curtas-metragens como uma espécie de autobiografia, em que, através da personagem central, vai espelhando episódios da sua própria vida como o bullying de que foi vítima em criança, a descoberta da sua homossexualidade, a violência doméstica, a repressão religiosa, estruturando em 3 pilares fundamentais a narrativa: Sexo, Religião e Morte. Nestes três filmes, encontram-se os maiores medos e os mais profundos desejos do realizador. Claire Barwell, produtora do terceiro filme, «Death and Transfiguration», estará presente no festival para apresentar os filmes e falar acerca da obra de Terence Davis, numa entrevista conduzida por Ricardo Vieira Lisboa, do blog À Pála de Walsh.
Este ano, a escolha da programação tem como tema a infância. Porquê?
Por dois motivos, em primeiro lugar, porque fazemos 6 anos, que é uma idade com forte simbolismo, é a altura de ir para a escola, é a primeira etapa de responsabilização séria. Em segundo lugar porque a trilogia de Terence Davis tem um enfoque muito grande na infância.

Children 02

É o 2.º ano consecutivo que se realiza o Mini Córtex. Como correu no ano passado e o que podemos esperar de novo nesta secção?
O primeiro ano de Mini Córtex não poderia ter corrido melhor. Fizemos 4 sessões cheias de crianças, 3 delas oferecidas às Escolas Públicas do Ensino Básico do concelho de Sintra. Ver a sala de cinema repleta de pequeninos é uma emoção muito forte, porque estamos a formar futuros públicos, o que tem um valor inestimável. A nossa parceria com o Festival Monstra é uma das melhores coisas que nos aconteceu, este tipo de sinergia entre festivais faz todo o sentido e, de certa forma, o Córtex e o Monstra são pioneiros neste tipo de parceria, em que a colaboração e a ajuda mútua têm sido, para além de extremamente gratificantes, uma aprendizagem valiosa.

Death and transfiguration 01

Este é mesmo o último ano do Córtex, como preconiza a carta do Diretor? Porquê?
Não digo na carta que é o último ano do Córtex, digo que todos os anos sou invadido por um sentimento de alguma revolta que me faz pensar que será o último ano. A carta serve exatamente como um desabafo, um grito contra a ineficácia dos mecanismos de apoio à cultura em Portugal. É inadmissível que não exista por parte da grande máquina que é o Estado uma estrutura que possa apoiar festivais de cinema de forma realista. Só os grandes festivais, as grandes companhias de teatro, as associações culturais com máquinas bem oleadas, é que conseguem ter os meios para sobreviver às pesadas e burocráticas candidaturas, que exigem o impossível. Para poder concorrer a apoios temos de ter um certo número de dias de festival e um certo número de público, mas como vamos conseguir esses números sem apoio? O Córtex é feito exclusivamente com o financiamento da Câmara Municipal de Sintra, nossos co-produtores e com o apoio da União de Freguesias de Sintra, mas estas verbas não permitem alcançar o patamar que o ICA pretende para nos poder apoiar financeiramente. No entanto, o Córtex é um festival com provas dadas, um muito importante veículo de divulgação do cinema feito em Portugal e além-fronteiras, com uma forte comunicação na imprensa, e que não consegue preencher ainda os requisitos para ter direito a apoios do Estado. E não é só no cinema que isto acontece, é assim em tudo no que diz respeito à cultura. Já repararam bem nas candidaturas da Dgartes? O absurdo que é tudo aquilo? Em Portugal só se apoia quem já é crescido, não se estimula o crescimento, não se aposta em novos valores na cultura. E na verdade o que nos fazia falta eram pequenos estímulos, algum dinheiro, não falamos de valores extravagantes, qualquer coisa que viesse era uma importante ajuda, acontece é que não existem esses pequenos apoios, ou se dá muito dinheiro, ou não se dá dinheiro nenhum. Sublinho ainda que sou completamente contra a subsidiodependência, o Reflexo, associação sem fins lucrativos que produz o Córtex, paga ordenado a mais de meia dúzia de pessoas, exclusivamente com o dinheiro que faz das actividades culturais que produz, mas o apoio à produção cultural por parte do Estado é um direito que todos os produtores de cultura sem fins lucrativos deveriam ter acesso.

Fora da Vida still1

Qual é o balanço do Festival ao longo dos anos?
O balanço do festival é totalmente positivo. Cresce todos os anos, tem mais público, mais impacto, mais força e tem-se tornado numa referência e num festival muito respeitado com uma seleção de cinema e um desenho de programação de exímia qualidade. Tem criado novos públicos e descoberto novos realizadores que hoje em dia já começam a dar cartas. O nosso trabalho, estamos a fazê-lo e a fazê-lo bem, cabe aos políticos conhecerem a realidade de quem faz cultura neste país. Não servirá de nada trazer de volta um Ministério da Cultura, se não houver uma profunda alteração na forma como se pensa e investe na cultura em Portugal.

O que pensa da produção de curtas-metragens em Portugal atualmente?
Tem uma força incrível. Nos últimos 6 anos, temos tido o privilégio de assistir a um crescimento na produção deste formato que é galopante. Jovens realizadores surgem todos os anos com tanto para oferecer. A curta-metragem tem conquistado o seu lugar, impondo-se como um formato que sobrevive por si mesmo. A ideia de que a curta serve apenas como rampa de lançamento para o formato da longa-metragem está cada vez mais distante, porque há toda uma vida que só faz sentido se for medida pela versão mais curta, há narrativas, visões e todo um espectro emocional que só cabe na curta-metragem.

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