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Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

Guilherme Coelho - Órfãos do Eldorado

Órfãos do Eldorado Órfãos do Eldorado

Entre todos os festivais de cinema do Brasil, o que melhor representa hoje a aposta na radicalidade autoral é a Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, que, este ano, começa seus trabalhos com um mergulho na alma amazônica. Primeiro longa-metragem de ficção do documentarista carioca Guilherme Coelho («Fala Tu», «PQD»), «Órfãos do Eldorado» abriu a mostra mineira deste ano, no dia 23, dando passagem a uma leva de quase 120 filmes que desfilarão pelo festival até o dia 31 de janeiro. A produção é baseada em romance homônimo de Milton Hatoum (Dois irmãos) e integra o programa de homenagens à atriz Dira Paes por seus 30 anos de carreira. Daniel de Oliveira assume o papel central: ele é Arminto Cordovil, um homem atormentado que volta para casa depois de muitos anos ausente. Surpreendido pela inesperada morte de seu pai, Arminto se vê obrigado a assumir os negócios da família, que no passado fez fortuna com o transporte de mercadorias pelo rio Amazonas. Aos poucos, no entanto, ele é consumido pelos fantasmas do passado e por suas grandes paixões: Florita, a mulher que o criou, e Dinaura, uma misteriosa cantora cuja aparição na cidade fulmina sua vida como um relâmpago. Nesta entrevista, Guilherme Coelho explica o diálogo que travou com a prosa de Hatoum e com os talentos de Dira e Daniel em busca de novos veios fluviais para o audiovisual brasileiro.

Que Brasil você encontrou na Belém de Órfãos do Eldorado? O que esse o Brasil literário, com aroma amazônico de Milton Hatoum, acena sobre a Região Norte de nosso país?

Durante os cinco anos de pesquisa o que encontrámos foi um novo Norte, diferente do que eu imaginava, e até mesmo da literatura do Milton. Uma nova cartografia social, cultural e econômica. Nos últimos anos temos visto a Amazônia como parte essencial e estratégica do futuro energético (mineral e hídrico), biológico e agrícola do Brasil. Mas vivenciar isso foi bem interessante. São questões comuns ao acelerado processo de transformação que as cidades médias brasileiras vêm sofrendo nos últimos anos. No caso da Amazônia, tem a floresta infinita (e nem tanto), e os rios, vastos. Em meio a isso, as grandes empresas de mineração que impuseram sua própria infraestrutura, desmobilizando empreendimentos regionais. Mas o que sempre nos interessou (e não por acaso o filme é inspirado num livro do Milton), é o imaginário dos personagens e do local. Este imaginário é fortemente marcado pela tradição oral, que corre o risco de se perder com tantas transformações urbanas. O mundo do Milton é o da memória, da experiência. No entanto, e cada vez mais – na Amazônia e no mundo – vemos (e fotografamos tanto) a paisagem, mas sem vivencia-la.

De que maneira a sua vasta experiência documental - focada sobretudo em biografar acidentadas histórias de vida e de luta - serve como ferramenta para recriar, nas telas, o mundo amazônico de Hatoum?

É uma boa pergunta. Acho que o Arminto e a Florita são pessoas acidentadas, e talvez por aí eu tenha me apaixonado por elas. Não tinha pensado nisso. Acho que acima de tudo, ser documentarista me ajudou a dirigir atores. O documentarista “de encontro”, que é o que eu imagino ter feito até aqui, tem que ficar toda hora num olho-no-olho com o seu personagem, refletindo atentamente sobre representação. No documentário eu sempre me perguntei, “eu estou apaixonado por esse personagem?”; “outras pessoas sentirão o que eu estou sentindo”; “aliás, o que eu estou sentindo mesmo?”. E essas perguntas são também as perguntas quando se está criando com atores. E trabalhar com os atores foi a maior recompensa que eu encontrei na ficção. Coitados, eles têm que se expor tanto. É a pior profissão do mundo – mas é também a mais importante. O melhor ator é aquele que faz do seu trabalho um verdadeiro laboratório da vida.

Que tipo de anti-herói é o personagem de Daniel de Oliveira em relação à tradição do macho brasileiro explorada por nosso cinema?

Acho que ele é um anti-herói Buckneriano, passivo. Mas o Arminto tem uma loucura que nos permitiu investir num mis-en-scène mais subjetivo, que tenta entrar na cabeça do personagem e experimentar através dele toda a paisagem e história do filme. Mas o Arminto também tem doçura, que era importante para gostarmos dele. E o Daniel soube nos dar tudo isso. Tanto a loucura quanto a doçura.


Pergunta óbvia, mas válida e digna: qual é a responsabilidade de abrir a Mostra de Tiradentes?

É uma grande e maravilhosa responsabilidade. Tiradentes é um festival dedicado à investigação de narrativa e linguagem cinematográfica, num momento em que pouco discutimos isso. A seleção do festival tá ótima! O cinema hoje tem que se aprofundar, testar limites, explorar diferentes maneiras de contar e de fazer sentir. Ser cada vez mais um laboratório. Indo sempre adiante, tentando, ensaiando. Esse filme me mostrou o cinema que eu quero fazer: narrativas sugestivas, completadas pela experiência do espectador, filmadas de maneira a sentirmos o filme através da subjetividade dos personagens.

RODRIGO FONSECA
CRÍTICO DE CINEMA DO JORNAL O GLOBO E ROTEIRISTA DA TV GLOBO

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 23:00

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