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Actualizado às 11:18 PM, Aug 21, 2019

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Várias tradições da Ilha de Sal são servidas sob um sol inclemente e desconcertante neste documentário denso e colorido de 38min. Paola Zerman, realizadora italiana, é uma professora de arte radicada em Cabo Verde há mais de uma década, que convence aqui pelo conteúdo e pelo modo de mostrar. Rodou este documentário localmente, quase sem meios técnicos e “orçamento zero”, com a coordenação jornalística de Albertina Rodrigues e a colaboração de amigos e conhecidos, para além da sua própria determinação. Não é a primeira vez que a receita funciona, nem é a primeira vez que o método me impressiona.

Mas passemos aos factos: para quem não conhece Cabo Verde, vale a pena tentar perceber que tipo de emoções movem esta nação crioula que passa para o exterior uma imagem de alegria e musicalidade latente, sensual, intrínseca. É uma cultura eclética, feita de símbolos e de fusões, de cores, brilho e cheiros penetrantes, e as manifestações actuais são tão importantes como as suas origens nos primórdios da história do arquipélago. O que esperar de um povo que resulta da intersecção genética e cultural ao logo de séculos? O crioulo olha através do mar, destino de ilhéus, pois o mar tem essa influência e esse poder incomparável para este povo de emigrantes; o mar é Mãe, alimenta e embala, está sempre presente no imaginário de Cabo Verde e é fonte de inspiração inesgotável. Ele afasta e aproxima, é separação e saudade, é reencontro, é azul, transparência e profundidade, e confunde-se com o céu imenso que o documentário nos oferece como uma tela de fundo. La mar, como dizem os hispano-falantes, é um desses substantivos de género camaleónico, que se torna feminino na boca dos poetas, porque «mar» é mais intenso e exprime maior afectividade no feminino. (Dizia Eduardo Galeano, no seu El libro de los abrazos, que “[...]Diego no conocía la mar[...]”).

Cabo Verde incendeia-se por dentro e oferece generosamente essa fogueira de emoções a quem aporta a estas paragens. (Continuamos a assistir com desassossego e inquietação à erupção vulcânica de Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo, que desalojou já milhares de habitantes – mas testemunhamos também a resiliência e a solidariedade deste povo que renasce das suas próprias entranhas).
São gentes que integram, inclusivas, que fazem suas as outras culturas; um povo que faz a simbiose entre o local e o longínquo e contamina todos os que irrompem neste espaço.

Nesta curta-metragem percebemos a relação dos ilhéus com a natureza, os vários ritmos que por aqui coabitam: a coladeira, a cadência mais festiva e dançante, o funaná e o batuk, estilos muito populares na Ilha de Santiago, e a morna, traço de união e marca identitária do povo cabo-verdiano, que atravessa todas as ilhas num sentimento nostálgico através de notas e letras que cantam sobretudo o amor e a saudade. Nomes imortais do passado e outros sonantes do presente (Cesária Évora, Bana e Luís Morais, Maira Andrade, Lura, Sara Tavares ou Nancy Vieira) ajudam a perceber até que ponto a música do arquipélago é exportável e imprescindível muito para além do espaço lusófono.
Nesta curta-metragem passam historiadores como Evel Rocha, que nos detalha a influência da cultura Mandinga no carnaval de São Vicente e todos os adereços indispensáveis às personagens que percorrem as ruas dançando, com o corpo besuntado de carvão e sainhas de sarapilheira. E músicos estrangeiros como o italiano Ettore Ferro ou o mexicano Ricardo Castell, que o país absorveu e reinventou com outras roupagens. Magui Spencer, uma voz de uma suavidade estonteante, canta em português temas festivos e ilustra a multiculturalidade e o plurilinguismo da sociedade local.
Morabeza, sodade, crioulidade. Palavras que fazem sentido nas terras que atravessamos com Paola, na interacção com a natureza, nas danças festivas e de carácter mais alegre, onde reina a euforia. Alguns artistas locais sublinham a importância de exaltar o seu próprio carnaval, com uma identidade cada vez mais vincada e autónoma, ancorado fortemente no funaná, na coladeira e no batuk, respeitosamente distante do carnaval brasileiro, conhecido e aclamado mundialmente, que chegou a ter, no país, um enorme ascendente nas coreografias carnavalescas (Quem não se lembra de uma das estrofes do conhecido tema Carnaval de São Vicente, no qual Cesária Évora cantava “São Vicente é um Brasilinho”?).

Cabo Verde é um país aberto a outras latitudes mas que se afirma por uma cultura que faz sua a cada passo, com olhos de ver mas também mãos de moldar o futuro e uma palavra a dizer ao mundo. Entre brilho, cor e sofisticação, lantejoulas e plumas, alegria e divertimento, ou “passa sab”, como esclarece a esplêndida cantora Silvia Medina.
Impossível ficar indiferente ao que estas ilhas têm de sonho próximo, de palpável, de real e de vital. Terão todos os ilhéus esta magia? Nada como visitar o arquipélago e ajuizar por si mesmo, numa terra de perder o juízo, com o coração no mar, e um povo com o coração na boca.

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:59

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