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Actualizado às 11:18 PM, Aug 21, 2019

D. W. Griffith - O Nascimento de uma Nação

A estreia do clássico de David W. Griffith, “O Nascimento de uma Nação”, ocorreu há um século — importa revisitá-lo para além de qualquer visão pitoresca, reconhecendo a sua importância fulcral na afirmação do cinema como uma linguagem específica.

Foi no dia 8 de Fevereiro de 1915 que «O Nascimento de uma Nação» (título original: «The Birth of a Nation»), de David W. Griffith, teve a sua estreia no Clune’s Auditorium, em Los Angeles. Dada a sua importância na filmografia de Griffith, o “pai” da gramática clássica do cinema, faz sentido que celebremos, aqui e agora, o seu centenário.
Em todo o caso, importa não cedermos aos mecanismos de banalização que, por influência do imaginário televisivo, tendem a recobrir muitas efemérides (em particular do cinema). Não de trata, de facto, de resumir a importância de «O Nascimento de uma Nação» numa qualquer noção “pitoresca”, alheada da sua fundamental contextualização histórica. Como importa não ficarmos pelo historicismo mais vingativo — há, evidentemente, componentes ideológicas na visão de brancos e negros segundo Griffith que podem e devem ser discutidas —, correndo o risco de deitar fora a complexidade artística com a água da ideologia.

Acontece que, com as suas cerca de três horas de duração, «O Nascimento de uma Nação» era, em 1915, mais do que uma raridade, uma excepção absoluta. A ideia segundo a qual o cinema podia ser o lugar de uma epopeia grandiosa, mobilizando os espectadores para um evento que estava longe de ser uma breve curiosidade de feira, envolvia um desafio revolucionário. E não apenas porque, até aí, o cinema (mudo) tinha sido construído, no essencial, através de obras de duração muito mais breve — sobretudo porque, desse modo, o objecto-filme afirmava-se como uma narrativa específica, capaz de possuir a abrangência de um romance ou o dramatismo de uma peça teatral.

«O Nascimento de uma Nação» baseia-se no romance “The Clansman”, de Thomas Dixon Jr. (transformado pelo próprio autor em peça de teatro). A sua acção, centrada nas relações entre duas famílias, uma do Norte, outra do Sul dos EUA, desenvolve-se como um imenso fresco sobre a Guerra Civil e o período de reconstrução que se seguiu, integrando uma referência ao assassinato do Presidente Abraham Lincoln (ocorrido a 14 de Abril de 1865). Griffith encena esse imenso novelo de personagens e eventos, não exactamente como uma acumulação de episódios autónomos, mas através de uma textura de elementos ligados pelos mais diversos laços sociais e históricos, emocionais e simbólicos.

A exploração da montagem como um instrumento de articulação de acções em diferentes cenários ou a combinação de várias escalas de enquadramento (desde as imagens gerais de multidão até aos grandes planos) são produto de um entendimento do cinema que, definitivamente, se libertava de qualquer servilismo em relação a outras artes narrativas. Aliás, a música (composta para o filme) faz também parte de tal dinâmica criativa, lembrando-nos que o cinema mudo quase nunca foi silencioso...

Logo em 1916, em parte reagindo contra os conflitos ideológicos gerados por «O Nascimento de uma Nação», Griffith produziu e realizou «Intolerância», outra referência incontornável na evolução das formas cinematográficas. Obviamente, ele não estava só. Para nos ficarmos por alguns títulos mais emblemáticos, lembremos que 1915 é também o ano de «The Cheat», de Cecil B. DeMille, e «Der Golem», de Paul Wegener (Alemanha), tendo surgido em 1916 coisas como «Judex», de Louis Feuillade (França), ou «The Rink», uma das muitas preciosidades na altura criadas por Charles Chaplin. Seja como for, por alguma razão continuamos a reconhecer o nome de Griffith como o de um pioneiro cuja influência transcende modelos de espectáculo e fronteiras culturais.

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

 

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:58

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