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Actualizado às 11:16 PM, Oct 20, 2019

Julianne Moore - perfil

Julianne Moore em «Meu Nome É Alice» Julianne Moore em «Meu Nome É Alice»

Nomeada pela quinta vez para os Oscars com «O Meu Nome É Alice», Julianne Moore é um caso exemplar de uma actriz que tem sabido prosseguir sem ficar presa a nenhum registo dramático ou a um qualquer modelo de produção.

É bem verdade que a história dos Oscars está cheia de empolamentos mais ou menos grosseiros e também de esquecimentos quase sempre chocantes. Em todo o caso, evitemos o moralismo fácil. Por vezes, é mesmo verdade que a simples capacidade de chegar às nomeações corresponde a um indicativo que não tem nada de acidental. E que dizer de quem chega a essas nomeações através de filmes como «Boogie Nights/Jogos de Prazer» (1997), de Paul Thomas Anderson, «O Fim da Aventura» (1999), de Neil Jordan, «As Horas» (2002), de Stephen Daldry, «Longe do Paraíso» (2002), de Todd Haynes, e «O Meu Nome É Alice» (2014), de Richard Glatzer e Wash Westmoreland?
Pois bem, Julianne Moore (n. 1960) é essa actriz que acumulou cinco nomeações com os filmes citados, a primeira e a terceira na categoria de actriz secundária, sendo a última aquela que quase todos acreditam lhe irá dar, finalmente, um Oscar. O certo é que, com ou sem estatueta dourada, tanto bastará para que a reconheçamos como uma das mais talentosas do actual cinema. Americano? Não: do actual cinema. Ponto final.
E, no entanto, a sua história parece ser apenas uma variação sobre um velho cliché profissional: tudo começa com uma apurada formação teatral, primeiro na Alemanha (onde, ainda adolescente, viveu com os pais), depois na Universidade de Boston; a seguir, vieram os papéis mais ou menos secundários, mais ou menos “decorativos”, em produções televisivas e cinematográficas; enfim, surge um filme que lhe traz uma visibilidade diferente. Esse filme, de 1993, foi «O Fugitivo», em que contracenava com Harrison Ford numa reinvenção de uma série televisiva de sucesso da década de 60. No mesmo ano, integrava o elenco “coral” de «Short Cuts», de Robert Altman, surgindo em 1995 como protagonista de «Safe/Seguro», de Todd Haynes, uma parábola sobre um mundo obsessivamente securitário que é, por certo, uma das maiores proezas da produção americana da década de 90. Com tudo isso, rezam as crónicas que Steven Spielberg a convidou para «O Mundo Perdido: Parque Jurássico» (1997) dispensando qualquer tipo de audiência.
O que distingue Moore não é, por certo, a mera gestão de uma técnica de invulgar excelência. Nas suas grandes composições, ela consegue essa proeza invulgar que consiste em expor, não apenas a identidade das suas personagens, mas as próprias vacilações que elas experimentam nas suas relações com os outros. Observe-se, justamente, o exemplo próximo de «O Meu Nome É Alice»: ao interpretar uma mulher a quem são detectados os primeiros sintomas de Alzheimer, Moore está muito para além de qualquer maniqueísmo físico ou psicológico, dando-nos a ver os momentos em que Alice começa a... não ver o que tem à frente dos olhos.
Além do mais, estamos perante uma actriz que, mesmo através dos naturais desequilíbrios entre os filmes que vai interpretando, tem sabido construir uma imagem singular, singularmente independente, que não a cola a nenhum modelo de espectáculo ou de produção. E isso é válido mesmo trabalhando em modelos de espectáculo que estão longe de rentabilizar todo o seu potencial artístico — convenhamos, por exemplo, que a sua presença em «The Hunger Games: A Revolta – Parte 1» (2014) é pouco mais do que instrumental. Sem esquecermos que há títulos na sua trajectória que, para a maior parte dos espectadores, continuam por descobrir — lembremos o caso dessas magníficas comédias dramáticas que são «As Vidas Privadas de Pippa Lee» (2009), de Rebecca Miller, e «Os Miúdos Estão Bem» (2010), de Lisa Cholodenko.

Seja como for, com ou sem Oscar, 2014 ficará como um ano especial para Julianne Moore. Além de «O Meu Nome É Alice», vimo-la em «Mapas para as Estrelas», sob a direcção de David Cronenberg, filme de génio, reduzido a um chocante zero nas nomeações da Academia de Hollywood. Digamos apenas que isso é outra história...

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

 

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:58

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