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Actualizado às 8:37 AM, Jun 18, 2019

«Dear son» leva angústias morais da Tunísia às telas mundo

Destaque «Dear son» leva angústias morais da Tunísia às telas mundo

Estamos em dias de Abdelatiff Kechiche nas telas de Portugal, com «Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro», em cartaz, o que traz a estética da Tunísia em primeiro plano para a conversa da cinefilia. Algo parecido se passa hoje no Brasil, mas com outro filme. Não é por acaso, o primeiro filme da África a chegar às telas brasileiras em 2019, abrindo espaço para um continente pouquíssimo presente no nosso circuito: «Meu querido filho» (“Weldi”). Trata-se de um dos achados do último Festival de Cannes, aclamado na Quinzena dos Realizadores pela força da atuação de Mohamed Dhrif como um pai desesperado. A produção, que lá fora recebeu o título de «My dear son», é uma vitrine para a produção audiovisual da Tunísia, que tem em seu realizador, Mohamed Ben Attia («A Amante»), um trunfo, já que seu nome vem ganhando respeito entre cinéfilos das mais variadas línguas.

“Cada filme feito numa pátria não hegemónica nas telas é um exercício de afirmação de identidade de nação. Há uma história neste meu filme que fala sobre afetos, com base na observação dos ritos familiares. Mas há nele uma marca do que a Tunísia tem de valores morais, incluindo aqueles que precisamos derrubar”, disse Ben Attia à Metropolis, em Cannes. “Filmamos no meu país poucas longas e ainda dependemos do apoio de coproduções com a Europa. Mas temos uma voz própria”.

Orçado em €1,2 milhão, «Meu Querido Filho» foi classificado com elogios como “magistral” e “perturbador” na sua passagem pela Quinzena de Cannes ao abrir um debate sobre uma nova juventude africana. A trama começa com foco na relação de amor quase doentia entre o jovem Sami (Ben Ayed), tímido e alvo de recorrentes dores de cabeça, e seus pais. Preocupado com a situação de saúde do filho, Riadh (Mohamed Dhrif, em interpretação magistral) decide se aposentar, deixando o seu trabalho nas docas para aproveitar mais a companhia do garoto. Mas a meio à peleja para se aposentar, Riadh é avisado de que Sami desapareceu. Uma tragédia se instaura no seu lar a partir daí: ele precisa encontrar o seu menino e salvá-lo dos males da vida fora do ninho paterno – um gesto de carinho, mas com um fundo de egoísmo.

“Não julgo os atos de Riadh, mas eles revelam que a ideia de ‘família’ é um mal comum a todas as culturas. Existe uma eterna nódoa de incomunicabilidade entre as gerações que parte, no caso familiar, de uma certa imposição da felicidade como norma. Mas esse mal, um dia, pode acabar, tornando a gente mais livre, porém menos humano", disse Ben Attia. "Não sei se a recorrência do meu interesse em dilemas familiares faz de mim um autor. E talvez a questão mais recorrente nas histórias que eu tenho esteja no papel dos jovens no seio familiar. O tempo passa, mas a inquietação e a inadequação dos jovens não muda de cultura pra cultura”.

"E. O facto de um pai alimentar, vestir e dar um teto a um filho não dá a ele o direito de cobrar da criança uma alegria que pode não fazer parte de seu quotidiano. «Dear son» é uma forma de expor essa dificuldade de conexão entre pais e filhos sem passar por questões religiosas tão inerentes à representação da África nas telas", disse Ben Attia, que em "A Amante" já abordara o tema da opressão familiar.

Acerca do “Mektoub” do Kechiche, de que falamos no começo....: Ganhador da Palma de Ouro em 2013 com «A Vida de Adèle», o polémico cineasta tunisiano aposta na sensualidade uma vez mais, nesta crónica geracional sobre a vida sexual e afetiva de um grupo de universitários na França Mediterrânea dos anos 1990, tendo como foco as angústias de um jovem de origem árabe que faz faculdade de cinema, as suas fartas doses de erotismo e de nudez explícita criaram novas inimizades para Kechiche, consagrado por sua singular direção de atores.

Modificado emquinta, 31 janeiro 2019 12:42

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