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Actualizado às 12:37 PM, Feb 14, 2020

«Parasitas» - o grande vencedor dos Oscars

«Parasitas» venceu os Oscars de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Filme Internacional. É o primeiro filme em língua não inglesa a arrecadar o Oscar de Melhor Filme.

[O texto que se segue foi publicado na edição 73 - Janeiro 2020 - onde foi eleito pela nossa redação como o Melhor Filme 2019 da revista Metropolis]

A Palma de Ouro é o prémio de maior prestígio no cinema mundial, mas os filmes que triunfam no Festival de Cannes nem sempre geram um consenso global, seja junto do público ou dos espectadores. O que aconteceu com «Parasitas», a comédia sobre luta de classes filmada por Bon Joon Ho, foi diferente. O filme foi recebido com aclamação generalizada no festival francês, o júri liderado por Alejandro González Iñárritu premiou-o com a Palma de Ouro e o ruído não parou de aumentar desde maio, com jovens fãs no Twitter a utilizaram a hashtag #BongHive e replicarem ‘memes’. Até agora, o filme arrecadou receitas que rondam os €120 milhões em todo o mundo, o que é uma soma notável para um filme sul coreano obscuro, com violência gráfica e observações sociais mordazes e cortantes. O fenómeno explica-se porque esta alegoria perversa sobre os parasitas que de uma forma inteligente sugam os mais abastados encontra eco na raiva universal que as pessoas sentem em relação à distribuição global da riqueza. O filme é relevante em Seul e para qualquer família de classe média, remediada ou pobre. A primeira Palma de Ouro do cinema sul coreano é um prémio para os oprimidos do mundo.

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Jojo Rabbit

Durante a Segunda Guerra Mundial, Jojo (Roman Griffin Davis), um jovem nazi de 10 anos, tem Adolf Hitler (Taika Waititi) como amigo imaginário. O seu maior objetivo é participar um grupo pró-nazi composto por outras pessoas que concordam com os seus ideais. Até que, um dia, Jojo descobre que a sua mãe, Rosie Betzler (Scarlett Johansson), esconde uma judia, Elsa Korr (Thomasin McKenzie), no sótão da casa.

São muitas as produções de ficção sobre a II Guerra Mundial, tanto no Cinema como na televisão. Mas poucas serão como «Jojo Rabbit». Com uma base mais cómica, a obra mistura também um pouco “de drama, com muitos momentos leves”, explica Taika Waititi, o realizador do filme, que acumula também as funções de argumentista e ator. Waititi é um cineasta neozelandês que tem vindo a conquistar cada vez mais elogios tanto da crítica como do público, sobretudo depois de ter realizado as obras «O Que Fazemos nas Sombras» e «Thor: Ragnarok», que veio dar uma nova vida a um dos heróis mais famosos do Universo Cinematográfico Marvel. O cineasta é reconhecido pelas abordagens invulgares que aplica às suas obras e «Jojo Rabbit» não é exceção.

A obra venceu o Prémio do Público do Festival de Cinema de Toronto e tem por base o romance “Caging Skies”, de Christine Leunens, lançado em 2004. O foco da narrativa é uma criança de 10 anos que cresce rodeada de símbolos nazis e que tem como amigo imaginário Adolf Hitler, interpretado pelo próprio Waititi, que revela que não fez “qualquer pesquisa. Não o baseei em nada do que vi do Hitler. Fiz dele uma versão minha com um mau penteado, um bigodito e um sotaque alemão medíocre”. O ator considera que seria “muito estranho interpretar o verdadeiro Hitler e julgo que as pessoas não gostariam tanto do personagem”. Por isso, o ator optou por fazer uma espécie de “versão de 10 anos de Hitler”.

Além de Waititi, o restante elenco é feito de outros nomes sonantes, como Scarlett Johansson, Rebel Wilson, Sam Rockwell, Alfie Allen, além de ter também os jovens Roman Griffin Davis e Thomasin McKenzie nos papéis principais.

  • Publicado em Feature

Unbelievable

A história de Marie (Kaitlyn Dever, «Last Man Standing») é um desconforto constante em 60 minutos de piloto. Toni Collette e Merritt Wever podem ser as estrelas da companhia, mas o primeiro episódio é totalmente dedicado à vítima, real, que lança o mote de «Unbelievable». Na tradução, "inacreditável", numa alusão à desconfiança instalada perante a queixa de Marie.

Tudo começa com a denúncia de uma violação, mas as dúvidas amontoam-se de seguida, e o espectador é colocado ao lado de Marie. Sofre com ela em casa, nas salas de interrogatório, na desconfiança dos que a rodeiam.
Marie tem de contar o que lhe aconteceu a um polícia, depois a um detetive, no hospital, e finalmente por escrito. No espaço de poucas horas, sem descanso. Numa pressão desmesurada e maior do que qualquer pessoa conseguiria suportar, muito menos alguém fragilizado, Marie vai somando inconsistências. O núcleo que a devia suportar coloca-a em causa, a polícia alinha no discurso e, subitamente, a vítima fica num estado de tamanha tensão que a audiência sofre com ela.

Susannah Grant, Michael Chabon e Ayelet Waldman, os criadores, não se preocupam com o argumento ou com as fórmulas-cliché das séries do género. Eles vão demorar tanto tempo quanto precisarem, com a atenção que Marie merece. A série vem depois. E, quando finalmente chega, arrebata-nos.

Só um formato como a Netflix, com a temporada (de oito episódios) lançada de uma só vez, permite tamanha ousadia sem cansar o espectador, é certo. Ao primeiro episódio mais parado soma-se o segundo, onde Merritt Wever brilha como detetive e expõe, ainda que inadvertidamente (mas com toda a intenção do argumento), as falhas atrozes dos detetives que entrevistaram Marie.
Há novo caso de violação, os pormenores soam semelhantes e, no final do episódio, já Toni Collette é chamada à conversação. Pensar que estamos perante um caso real é gritante, assim como o foi «When They See Us».

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Um Oscar lotado de estrangeiros

De mãos dadas ao apogeu da Netflix, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fez de «Roma», produção de maior prestígio do serviço de streaming, o campeão de indicações ao Oscar 2019, empatado com a comédia de intriga palaciana «A Favorita»: ambos disputam dez categorias. Com estreia marcada para esta quinta-feira no Brasil e dia 7 de Fevereiro em Portugal, a trama sobre a corte do século XVIII de uma Inglaterra em guerra com a França é um projeto com tudo o que a Meca do cinema gosta: ambientação de época, cenografia sofisticada, grandes atrizes (Olivia Colman é uma rainha com crise de gota e as coadjuvantes Rachel Weisz e Emma Stone, suas cortesãs... e amantes). Já o drama mexicano escrito, fotografado (a preto e branco), montado e dirigido por Alfonso Cuarón vem de um formato de produção para a internet que a Academia nunca havia reconhecido antes.

E vale a pena destacar que, embora tenha apenas cinco nomeações, «Green Book», que entra em cartaz também nesta quinta-feira (Portugal e Brasil), pode virar o jogo para si (e para as reflexões sobre inclusão racial nos EUA) depois de ter conquistado o troféu do Sindicato de Produtores da América (o Producers Guild Awards – PGA) no último sábado. Historicamente, quem leva o prémio costuma conquistar o Oscar de melhor filme, dada a omnipresença do PGA na massa votante da Academia. Porém, há uma série de surpresas na lista de nomeados que foi divulgada na manhã de terça-feira, pelo comediante Kumail Nanjiani e pela atriz e diretora Tracee Ellis Ross, ligadas a uma mesma vertente: a valorização de talentos estrangeiros nas categorias técnicas de maior relevo da festa. A mais notável é a aclamação do cineasta polonês Paweł Aleksander Pawlikowski, pela love story «Guerra Fria», que estreia no Brasil no dia 7 de fevereiro.

Esperava-se ouvir o nome de Bradley Cooper, pelo seu desempenho no comando de «Assim Nasce Uma Estrela» (fenómeno de bilheteria coroado com oito nomeações), na seleção de indicados ao Oscar de melhor direção, mas Pawlikowski foi citado no seu lugar. Raras vezes um diretor que não seja americano, nem radicado lá, foi nomeado na categoria relativa aos cineastas: foi o caso do argentino (naturalizado brasileiro) Hector Babenco (por «O Beijo da Mulher-aranha»); de Fernando Meirelles («Cidade de Deus»), também do Brasil; e do austríaco Michael Haneke («Amor»). Desta vez, a disputa inclui ainda um grego, Yorgos Lanthimos, por “A Favorita», e Cuarón, do México, por «Roma». Mas estes dois já eram esperados; o atual artesão do P&B da Polônia, não. Laureado em 2015 por «Ida», Pawlikowski vem arrebatando corações com um drama romântico mediado por um impasse histórico, entre um músico e uma cantora no auge da Cortina de Ferro na Europa.

“Períodos governados pela brutalidade e pela intolerância favorecem grandes histórias de amor, pois eles não comportam distrações, não permitem encantamentos que se descolam do contexto político, ao contrário do que vivemos hoje, imersos num mar de imagens, presos aos telemóveis, entorpecidos por ruídos”, disse Pawlikowski à Metropolis, em Cannes, de onde saiu com o prémio de melhor diretor, por «Cold War», título internacional de uma produção indicada ainda aos Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor fotografia (assinada por Lukasz Zal). “A força maior aqui não é a virtuose técnica, é o querer”.

O seu visual em preto e branco, de um requinte plástico singular, é um passaporte sensorial para uma viagem aos anos 1940, 50 e 60 de uma Europa imersa num clima de paranóia seja no lado comunista, seja na porção capitalista. Orçado em €4,9 milhões, a longa é uma celebração da paixão como força incondicional. Sua trama se espalha por diferentes países, ao longo de duas décadas, saindo da Polônia e voltando a ela, atrás de um casal ligado pela música. Por quase 20 anos, o maestro e compositor Wiktor (Tomasz Kot, em sublime atuação) vai fazer de tudo para ficar ao lado de uma cantora, a jovem Zula (Joanna Kulig), que ajudou a revelar. Mas o Estado polaco vai atrapalhar os sonhos dos pombinhos. “Carrego esta história comigo há décadas, antes mesmo de «Ida», como um tributo aos meus pais e às dificuldades que os dois enfrentaram. O seu enredo parte da percepção fatalista de que quase tudo na vida acaba mal, menos a paixão. O amor é uma forma desafiar os obstáculos que nos atrapalham”, diz o cineasta, que usa uma depuradíssima engenharia de som nas cenas de canto e nos espetáculos de que o casal participa. “É um filme sobre a arte de ouvir o próximo”.

Nessa onda de empoderar profissionais estrangeiros na cerimónia da Academia, um filme alemão, de um diretor europeu outrora decadente, destronou concorrentes a nomeações cobiçadas: “Nunca Deixes de Olhar”, de Florian Henckel von Donnersmarck, oscarizado há uma década por «A Vida dos Outros». A história de um jovem pintor que luta para construir sua própria estética, assombrado por um fantasma do nazismo, foi indicado aos prémios de filme estrangeiro e de fotografia, assinada por Caleb Deschanel, de «A Paixão de Cristo» (2004). Há holofotes para produções vindas de outros continentes também entre as animações. De CEP asiático, «Mirai» põe a japanimation na rota do Oscar, coroando o cineasta Mamoru Hosoda numa seara antes dominada pela Disney. Quem deve ganhar é o sucesso «Homem-Aranha: No Universo Aranha». Mas só em ser nomeado, Hosoda já passa para o Panteão do cinema.

NOMEADOS

Melhor Filme
"Bohemian Rhapsody"
"BlacKkKlansman: O Infiltrado"
"A Favorita"
"Black Panther"
"Green Book"
"Roma"
"Assim Nasce uma estrela"
"Vice"

Melhor Realizador
Spike Lee ("BlacKkKlansman: O Infiltrado")
Yorgos Lanthimos ("A Favorita")
Alfonso Cuarón ("Roma")
Adam McKay ("Vice")
Pawel Pawlikowski ("Guerra fria")

Melhor Atriz
Lady Gaga ("Assim Nasce Uma Estrela")
Glenn Close ("A Mulher")
Yalitza Aparicio ("Roma")
Olivia Colman ("A Favorita")
Melissa McCarthy ("Can You Ever Forgive Me")



Melhor Ator
Christian Bale ("Vice")
Bradley Cooper ("Assim Nasce Uma Estrela")
Willem Dafoe ("À Porta da Eternidade")
Rami Malek ("Bohemian Rhapsody")
Viggo Mortensen ("Green Book")



Melhor Atriz Secundária

Amy Adams - "Vice"
Regina King - "Se Esta Rua Falasse"
Emma Stone - "A Favorita"
Rachel Weisz - "A Favorita"
Marina de Tavira - "Roma"



Melhor Ator Secundário
Adam Driver - "BlacKkKlansman: O Infiltrado"
Mahershala Ali – "Green Book"
Richard E. Grant – "Can You Ever Forgive Me?"
Sam Elliott - "Assim Nasce uma estrela"
Sam Rockwell – "Vice"



Melhor Argumento Adaptado
“BlacKkKlansman: O Infiltrado”
“A Balada de Buster Scruggs”
“Can You Ever Forgive Me?”
“Se Esta Rua Falasse”
“Assim Nasce uma estrela”



Melhor Argumento Original
“A Favorita”
“No Coração da Escuridão”
“Green Book”
“Roma”
“Vice”


Melhor Filme Estrangeiro
"Cafarnaum" (Líbano)
"Guerra fria" (Polónia)
" Nunca Deixes de Olhar" (Alemanha)
"Roma" (México)
"Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões" (Japão)

Melhor Montagem
"BlacKkKlansman: O Infiltrado"
"Bohemian Rhapsody"
"A Favorita"
"Green Book"
"Vice"

Melhor Fotografia
"Guerra fria"
"A Favorita"
"Nunca Deixes de Olhar"
"Roma"
"Assim Nasce uma estrela"

 

Melhor Guarda-Roupa
"A Balada de Buster Scruggs"
"Black Panther"
"A Favorita"
"O Regresso de Mary Poppins"
"Maria, Rainha dos Escoceses"


Melhores Efeitos Visuais
"Vingadores: Guerra do Infinito"
"Christopher Robin"
"O Primeiro Homem na Lua"
"Ready Player One: Jogador nº 1"
"Solo: Uma História Star Wars"

Melhor Caracterização
"Maria, Rainha dos Escoceses"
"Vice"
"Na Fronteira"


Melhor Direção Artística
"Black Panther”
"A Favorita"
"O Primeiro Homem na Lua"
"O Regresso de Mary Poppins"
"Roma"



Melhor Canção Original
"All The Stars", de "Black Panther"
"I’ll Fight", do documentário "RBG"
"The Place Where Lost Things Go", de "O Regresso de Mary Poppins"
"Shallow", de "Assim Nasce uma estrela"
"When A Cowboy Trades His Spurs for Wings", de "A Balada de Buster Scruggs"

Melhor Banda Sonora
"Black Panther"
"Se Esta Rua Falasse"
"O Regresso de Mary Poppins"
"BlacKkKlansman: O Infiltrado”
"Ilha dos Cães"



Melhores Efeitos Sonoros
“Black Panther”
“Bohemian Rhapsody”
“O Primeiro Homem na Lua”
“Um Lugar Silencioso”
“Roma”

Melhor Mistura de Som
"Black Panther"
"Bohemian Rhapsody"
"O Primeiro Homem na Lua"
"Roma"
"Assim Nasce Uma Estrela"


Melhor Curta-Metragem de Imagem Real
"Detainment"
"Fauve"
"Marguerite"
"Mother"
"Skin"

Melhor Curta-Metragem de Animação
"Animal Behavior"
"Bao"
"Late Afternoon"
"One Small Step"
"Weekends"

Melhor Documentário (Longa-Metragem)
"Free Solo"
"Hale County"
"Minding the Gap"
"Of Fathers and Sons"
"RBG"



Melhor Curta-Metragem de Imagem Real
"Black Sheep"
"End Game"
"Lifeboat"
"A Night at the Garden"
"Period. End Of Sentence"

Roma

Há uma forte consciência individual e coletiva do impacto das mudanças ocorridas num determinado momento neste nostálgico resgate que Alfonso Cuarón faz de todo um período da sua vida. O cineasta mexicano regressou ao país onde nasceu e cresceu para filmar, pela primeira vez, em 17 anos, desde o galardoado «E a Tua Mãe Também». Escolheu o bairro de Roma na cidade do México, para retratar uma vivência de uma família de classe média – a mãe, que cuida dos filhos, o pai, um médico que sustenta a família, a avó que vive em casa… e a empregada Cleo, personagem inspirada na mulher que trabalhava em casa da família de Cuarón.

Através da observação desse núcleo familiar, «Roma» diz-nos muito sobre relações entre pais e filhos, marido e mulher, patrões e empregados. Fala do abismo de classes, da insegurança das mulheres, de uma sociedade machista, e de uma época marcada por convulsões e lutas sociais em defesa de direitos civis.
O filme gravita em torno de Cleo (Yalitza Aparicio), uma mulher que optou por viver as rotinas de outra família para organizar a sua vida. Infância, adolescência, casamento, infedilidades e divórcio, amores e desamores, maternidade. Cuarón olha para aquela família através desta mulher e esse é o seu testemunho, a sua perspetiva e memória.
Progressivamente, vai saindo do espaço da casa e sentindo a rua, as relações e costumes, o mal estar social que é dramatizado na cena nuclear do filme sobre o El Halconazo, como ficou conhecida a repressão violenta de jovens mexicanos que protestavam contra as mudanças na educação, em 1971.

Os planos longos, cuidadosamente iluminados através de um fotografia cheia de textura, profundidade e contraste, definem quadros sequência onde as personagens se movimentam (vivem o seu quotidiano…). Cada quadro é uma composição, ora singular, ora grandiosa, mas sempre carregada de poesia. E o filme avança adquirindo, com essa respiração temporal, a dimensão narrativa de um épico.

Nunca tínhamos visto um filme de Cuarón assim tão belo, sentido, contemplativo, inesperado e melancólico. Num certo sentido tão latino e mexicano. Os seus valores de produção, que serão amplamente premiados com diversos Óscares, consolidam a estratégia da Netflix de obter um reconhecimento cinematográfico através do seu modelo de produção destinado a janela pequena. Mas «Roma» fica encolhido no ecrã da Netflix. Em Portugal, ao contrário do que sucede noutros países, temos a oportunidade e o privilégio de ver o filme em sala e esse continua a ser o lugar onde cabe o grande cinema. 

«Roma» está nomeado para 10 Oscars.

Crítica publicada na Metropolis nº65

OSCARS: "A Forma da Água" x 4

Quase quatro meses depois da abertura da temporada de prémios, com os Governor Awards, a Academia de Hollywood atribuíu os seus Oscars pela 90ª vez. Com o ambiente necessariamente marcado pelos temas transversais que têm abalado Hollywood — em particular a defesa da identidade feminina e a figuração dos afro-americanos —, a cerimónia conteve muitos discursos empenhados em celebrar os valores da diversidade e da integração. A apresentação de Jimmy Kimmel teve o mérito de sustentar tal dinâmica num registo entre a seriedade e a ironia que, em última instância, preservou o essencial: tratava-se, não de um comício, mas de uma festa para celebrar o cinema e a cinefilia.
A Forma da Água foi o principal vencedor da noite, com quatro estatuetas douradas, incluindo melhor filme e melhor realizador. Todas as previsões para os prémios principais foram confirmadas, de alguma maneira agravando um problema comercial e mediático: o afunilamento dos candidatos (quase todos estreados no último trimestre) transforma os Oscars numa "repetição" dos muitos prémios já atribuídos por organizações profissionais e associações de críticos.
Eis os seis filmes que obtiveram duas ou mais estatuetas douradas:

* A FORMA DA ÁGUA [4]
— filme
— realizador, Guillermo del Toro
— música, Alexandre Desplat
— cenografia, Paul Denham Austerberry, Shane Vieau e Jeff Melvin

* DUNKIRK [3]
— montagem de som, Richard King e Alex Gibson
— mistura de som, Mark Weingarten, Gregg Landaker e Gary A. Rizzo
— montagem, Lee Smith

* BLADE RUNNER 2049 [2]
— fotografia, Roger Deakins
— efeitos visuais, John Nelson, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Richard R. Hoover

* COCO [2]
— filme de animação
— canção, "Remember Me", Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez

* A HORA MAIS NEGRA [2]
— actor, Gary Oldman
— caracterização, Kazuhiro Tsuji, David Malinowski e Lucy Sibbick

* TRÊS CARTAZES À BEIRA DA ESTRADA [2]
— actriz, Frances McDormand
— actor secundário, Sam Rockwell

Com um só Oscar, destacaram-se:

* EU, TONYA
— actriz secundária, Allison Janney

* FOGE
— argumento original, Jordan Peele

* CHAMA-ME PELO TEU NOME
— argumento adaptado, James Ivory

A Forma de Água

“O Monstro Precisa de Amigos” anunciaram e cantaram os Ornatos Violeta. E durante vários anos filmou Guillermo del Toro este mote, crendo sempre, como afirmou no seu discurso nos Golden Globe, que os monstros são os padroeiros das nossas ditosas imperfeições.

Sendo del Toro o realizador desta película, já esperávamos um monstro, uma abordagem na qual estas criaturas de pesadelos não são malignas, porém, e apesar dos trailers do filme, não esperávamos uma tão tocante e mágica história de amor.

Elisa (Sally Hawkins) e Zelda (Octavia Spencer) são meras empregadas de limpeza num complexo secreto do governo do Estados Unidos que vivem a sua rotina de cada dia, picando o cartão, limpando e conversando sobre as pequenas coisas da vida. Até que, pelas mãos do hostil Richard Strickland (Michael Shannon), chega ao complexo uma estranha criatura aquática (Doug Jones) vinda da América do Sul. Ora a curiosa e amável Elisa enceta não só uma relação com a criatura, como também, mais tarde, uma missão de salvamento.

forma da agua foto

Ao lermos a sinopse cremos ser um filme B, no entanto não nos devemos enganar. O que nos parece mais estranho, acaba por nos encantar. Ou seja, a relação entre Elisa e a Criatura. O realizador mais uma vez dá-nos um novo conto de fadas. Reenche a nossa fantasia, as nossas esperanças e os nossos olhos. Tudo funciona em perfeita harmonia: o argumento, a representação dos atores, o cenário, os efeitos especiais, a música. Diante da tela somos crianças outra vez, mas agora sabemos ler nas entrelinhas. Ou pelo menos questionamo-nos: O porquê das cores? A razão pela qual Elisa é muda? Porque razão o filme se passa em plena Guerra Fria? E a água? E etc. De facto, Sally Hawkins e Doug Jones brilham sem nunca trocarem uma palavra. Os movimentos, os olhares, as expressões são magníficas. Mas todo o elenco os acompanha: os olhos rancorosos de Richard, a firmeza de Zelda, a gentileza triste dos gestos de Giles (Richard Jenkins). Tanto a banda sonora a cargo de Alexandre Desplat, como a fotografia de Dan Laustsen são elementos fundamentais para esta fábula cinematográfica, pois, se formos sinceros, efabulamo-nos, e é maravilhoso.

Guillermo del Toro continuou fiel aos seus monstros e de certa forma ofereceu a outro monstro, o do filme «Creature from the Black Lagoon» (Jack Arnold, 1954), uma possibilidade de amar e ser amado. As semelhanças entre as duas criaturas são grandes. Ao longo da filme podemos encontrar outras influências de outros filmes, como se também «A Forma da Água» fosse uma pequena homenagem à magia do cinema. Mas por enquanto é um novo conto de fadas, com ensinamentos para a Humanidade, encantamentos e poesia. Ora, comecemos de novo: Era uma vez, uma empregada de limpeza chamada Elisa e...

Título Nacional A Forma da Água Título Original The Shape of Water REALIZADOR Guillermo del Toro Actores Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon ORIGEM EUA
DURAÇÃO 123’ ANO 2017

cinco estrelas

Os Oscars são apenas uma repetição dos outros prémios?...

De vez em quando, tentando ver para além do barulho das luzes mediáticas, vale a pena perguntar o mais básico. Por exemplo: para que servem os Oscars? Não é, entenda-se, a pergunta do jornalista que se considera ofendido por não encontrar os "seus" filmes entre os nomeados... Nem se trata de pretender conhecer os labirínticos bastidores de Hollywood para "explicar" o que quer que seja. Acontece que os Oscars são, basicamente, um ritual cinéfilo, quer dizer, uma celebração do amor pelo cinema — e isso, com filmes melhores ou piores, continua a ser um factor de cumplicidade e união.

Mas importa questionar para que servem, ou podem servir, os Oscars num contexto em que a sua especificidade surge ameaçada por um perverso efeito de repetição. E a palavra repetição não tem nada de retórico. Não é verdade que, depois dos prémios já atribuídos pelas associações de críticos, dos Globos de Ouro e até das nomeações para os BAFTA (a entregar no dia 18 de Fevereiro), ficamos com a sensação que tudo se resume a um lote de uma quinzena de títulos que todos repetem e, de alguma maneira, consagram?

A Academia de Hollywood não pode ser unilateralmente responsabilizada por tal estado das coisas. As forças dominantes da grande indústria, privilegiando mecanismos impostos pela acelerada rentabilização dos "blockbusters”, formataram o mercado (americano e global) de modo a que esmagadora maioria dos candidatos aos Oscars saia apenas dos títulos estreados no derradeiro trimestre de cada ano, como se não valesse a pena atentar no cinema que se viu no resto do ano (este ano, Dunkirk surge como uma excepção que confirma a regra). Fica um exemplo sintomático: o admirável «Detroit», filme marcante na abordagem de temas afro-americanos, desapareceu... Realizado por uma mulher, Kathryn Bigelow, também não consta na agenda de qualquer militância feminista. O que pode suscitar outro tipo de perguntas, neste caso sobre o entendimento político do mundo do cinema.

 

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