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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

A Ilusão de Cannes o Último Refúgio do Cinema de Outrora

 Sem rodeios, sempre associamos o Festival de Cannes ao seu tapete vermelho, o que por si só representa um estado glamouroso que paraleliza com as artes, a feira das vaidades, as fantasiosas vidas destas estrelas e os filmes que vivem das suas promessas. E por um lado, é isso mesmo, um vórtice de tudo aquilo que resume a existência de Cannes, mas dentro desse cinismo, possivelmente, queremos acreditar que exista uma certa ingenuidade, se não inocência, perante o sonho da Sétima Arte nesses recantos.

Como tal encontraremos esse discurso nas intervenções de Thierry Frémaux, o diretor artístico, que tem sido alvo de crítica após as suas constantes avessas com a Netflix. Em jeito de defesa, repetidamente proferiu pela preservação do Cinema enquanto imagens de grande ecrã e sobretudo a experiência coletiva pelo marcou essa invenção dos Lumiére, e é através dessa persuasão, que apela à nossa necessidade de nostalgia, que queremos realmente acreditar em Frémaux e literalmente “cuspir” em todas propostas oriundas dos cantos da Netflix e dos congêneres de streaming.

Contudo, enquanto jornalistas, mas acima de tudo cinéfilos, é nas suas crenças partilhadas que desejamos rever Festival de Cannes como o último reduto do espectáculo em projeção. Nesse aspecto, Cannes é um circo, que vangloria os seus 73 anos de existência (em 72 edições) pela passadeira e tal como pais que percebem a sua negligência para com os seus filhos, compensam-nos brindando com tudo aquilo que nos transporta diretamente pela carruagem do saudosismo, desde a homenagem a Agnès Varda na sua Gala, o tributo a Buñuel ou o último filme de Lelouch em Fora de Competição, guloseimas contra um acelerado vento de mudança.

Sendo assim, até eu prefiro render à prolongada mentira do que viver no questionável progresso da verdade, porém, o oásis que Cannes se tornou não corresponde ao atual estado da indústria do audiovisual no resto do Mundo. E como tal é preciso acordar e apurar o porquê dessas mudanças e principalmente, conscientizar a importância na mentira que Cannes se tornou.

* Crónica publicada na revista Metropolis nº69 (Junho/Julho 2019)

 

  • Publicado em Feature

Planos que se colaram, imagens que marcaram - opinião

Um festival como Cannes vive de um conjunto de fluxos de sensações. Mas vive ainda mais de equações do destino. Acaso a violência pop de «Era uma vez...em Hollywood», de Tarantino, tivesse sido visionada antes da doideira cinzenta de «The Lighthouse», de Robert Eggers, provocaria o mesmo baque?

Ou se estivermos no meio do histerismo da aclamação de «Hors Normes», o novo de Toledano & Nakache, em pleno Grand Palais Lumiére, as emoções do filme ressoam de forma diferente? Podíamos continuar e o sim seria sempre a resposta.

A agenda pessoal de cada “festivaleiro” muda as perceções, é humano – não há volta a dar. Tem a ver com os fatores e contextos. É da ordem do aleatório: ver um filme de manhã e ainda ter na cabeça a Françoise Hardy da festa de encerramento da Quinzaine des Realizateurs. Acontece aos melhores...

Nessa torrencial questão de como estamos quando vemos um filme numa maratona de cinema onde as imagens se cruzam, o cansaço espreita e os estímulos descarrilam em excesso, importa sermos fiéis a uma coisa: acreditar que devemos sempre ir por onde o cinema nos leva. Nessa corrente, é bom deixarmo-nos seguir através dos momentos que marcam. Em «Mektoub- My Love: Intermezzo», em vez de ficar com a famosa cena de sexo oral, o que não me sai da cabeça é o transe das imagens das raparigas em cima da coluna, em especial Orphélie Bau, atriz-musa de Kechiche capaz de vibrar perante a música aos berros numa discoteca de praia nos anos 90. O seu corpo é um átomo que nos contagia para lá de qualquer lógica. Kechiche não faz cortes e deixa a sua câmara aproximar-se. É tudo em excesso, é tudo como nunca vimos ou sentimos.

Mas voltando a Tarantino, há um momento em «Era uma vez...em Hollywood» que ainda não dá para esquecer. A cena do telhado quando Brad Pitt fica de tronco nu, momento que provocou exaltação na plateia do Debussy a abarrotar. A calma e tranquilidade de Pitt e o seu corpo em forma funcionam como um discurso sobre uma espécie de bandeira de saudade perante uma masculinidade que Hollywood não soube voltar a recuperar. O filme passa-se no final dos anos 1960 e o final da velha Hollywood estava logo ali. Os homens não voltaram a ser os mesmos e Tarantino tem humor a brincar com essa perceção.

Na Quinzena, o dente do protagonista de «Dogs Don´t Wear Pants», de J.-K. Valkeapaa, é usado como utensílio de política de troca de favores sexuais. Um momento de cinema extremo que não importa aqui ser mais explícito sob o risco de “spoilor”. Apenas dizer que é mais do que “frisson” ou provocação. É tão-só cinema livre com uma coragem de chocar sem ser gratuito.

Mas alguns dias depois do ritmo insano da rotina da Croisette, levo na minha angústia a recordação recorrente de dois finais: o de «Sorry We Missed You», de Ken Loach e Le Jeune Ahmed, dos irmãos Dardenne. Sem revelar nada, apenas enfatizo que são conclusões que nos põem ainda mais desamparados perante a fragilidade do mundo.

Mas se estou destinado a glorificar Bong Joon-Ho e o seu «Parasite» [foto], impossível não eleger uma sanita numa certa inundação como uma das sequências para levar para sempre na memória. Foi o meu penúltimo filme visto do festival e há um efeito dilacerante que esse momento provoca. Será que se o visse antes dos zombies de «Os Mortos Não Morrem», de Jim Jarmuch, ainda estaria a pensar e a cheirar aquela descarga?

* Crónica publicada na revista Metropolis nº69 (Junho/Julho 2019)

  • Publicado em Feature

Oscars 2016 - Elogio da diversidade

Bem sabemos que os Oscars (e, de um modo geral, a chamada temporada de prémios) passaram a ser condicionados pelas campanhas de estreias do último trimestre. Na prática, casos como a vitória de um filme como O Silêncio dos Inocentes parecem hoje impossíveis: ganhou na 64ª cerimónia, realizada no dia 30 de Março de 1992, tendo estreado nas salas dos EUA mais de um ano antes, a 14 de Fevereiro de 1991...

É pena, quanto mais não seja porque aquilo que assim se perde é, de facto, a perspectiva global de um ano de cinema, com todas as atenções focadas (apenas) naquilo que aconteceu no mercado sensivelmente a partir de Setembro.
Seja como for, convém não favorecer formas de hipocrisia há muito instaladas: os prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood voltam a conseguir, através das suas nomeações, gerar um sedutor panorama de diversidade. Podemos sentir-nos desconsolados com algumas ausências (The Walk/O Desafio ficou a zero...), mas encontramos um panorama em que as produções mais sofisticadas (a começar por The Revenant) não excluem os objectos mais ou menos independentes, com actualíssimas ressonâncias sociais e políticas (incluindo A Queda de Wall Street e O Caso Spotlight).


A sublinhar: a presença de um filme de animação para adultos (Anomalisa) na lista de nomeados na respectiva categoria. Essa pode ser, afinal, uma nova fronteira temática e de produção: animações que apostam para além do tradicional mercado infantil e juvenil. Será possível que Anomalisa contrarie o claro favoritismo de Divertida-Mente?

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