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Actualizado às 11:54 AM, Oct 8, 2019

Viúvas

Baseado na série inglesa «Widows», de Lynda LaPlante, o novo filme de Steve McQueen é um thriller no feminino com manchetes #metoo. «Viúvas» é também uma visão acutilante de uma América violenta e corrupta, onde surgem tópicos a atropelarem-se uns aos outros: das questões raciais às denúncias sobre nepotismo na política. É como se o elemento do suspense tivesse que ter um requerimento de “tema”.

Filme de golpe? Claro que sim, uma espécie de «Ocean's Eight» sem brincadeiras e carrancudo. Mas já não é o Steve McQueen livre dos tempos de «Fome» ou das ousadias de «Vergonha». O cineasta (que cada vez é menos artista plástico) quer fazer um cinema “total”, assumidamente “mainstream”. O que é curioso é que mesmo sendo o seu pior filme não deixa de ser uma obra bem recomendável, uma envolvente experiência de linguagem coral, onde se consegue dar espaço a duas mãos cheias de personagens complexas e desenvolvidas com tempo e moderação. No dispersar...pode estar o ganho.

O filme é a história de um grupo de viúvas de um grupo de assaltantes que morreram num golpe fatal. As viúvas são obrigadas a reunirem-se pois os seus maridos terão deixado uma dívida à máfia local. Resta-lhes então um golpe em conjunto para conseguirem seguir as suas vidas numa cidade manchada pela corrupção e pela aproximação de umas disputadas eleições municipais.

Claro que a tal fartura de personagens e tons sufoca um pouco todo o conceito, mas «Viúvas» funciona exemplarmente como filme de atores. E aí é impossível não colocar num pedestal uma incrível Viola Davis, um discreto Liam Neeson, um incrível Daniel Kaluuya e um poderoso Robert Duvall. E ainda me estou a esquecer de Elizabeth Debicki, de Colin Farrel e de uma estimulante Michelle Rodriguez.

Em suma, «Viúvas» é um filme que nos entra na pele pela calada, embora também nos deixe água na boca, sobretudo quando quer ser filosófico na sua vertente de conto de ganância.

tres estrelas

O Óscar de Viola

Viola Davis deverá ser anunciada amanhã no Dolby Theatre, sem surpresas, a Melhor Atriz Secundária pela sua prestação em «Vedações» (2016).

Fazer história é com ela. Em 2015, depois de a sua Annalise Keating, de «Como Defender um Assassino», ser premiada com o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática, Viola Davis tornou-se a primeira afro-americana a conquistar a estatueta nesta categoria, que existe desde 1953. Já em janeiro, quando foram anunciados os nomeados aos Óscares, tornou-se a primeira atriz afro-americana a atingir o patamar das três nomeações, na sequência da brilhante atuação em «Vedações» (2016).

Embora celebre este ano 21 anos de carreira, entre televisão e cinema, Viola Davis, de 51 anos, só se tornou um caso sério mais recentemente. Na nossa memória fílmica estará ainda aquela célebre cena de «Dúvida» (2008) onde, contracenando por breves instantes com Meryl Streep, conseguiu algo ao alcance de muito poucos: centrou as atenções em si. O feito garantiu-lhe uma nomeação aos Óscares do ano seguinte, onde a vencedora seria Penélope Cruz («Vicky Cristina Barcelona»). Voltaria ao Dolby Theatre três anos depois para competir na principal categoria de representação, depois de um desempenho excecional em «As Serviçais» (2011), mas aquela era a noite de Meryl Streep, que somaria o terceiro Óscar por «A Dama de Ferro» (2011).

Contudo, os argumentos com que Viola nos convencia pareciam, apesar de tudo, insuficientes. Foi surgindo, a espaços, no cinema, com maior ou menor protagonismo, mas atingiria a ribalta na televisão, onde não regressava desde uma breve participação «As Taras de Tara». Shonda Rhimes seria a grande responsável, tornando Viola – ainda que discutivelmente – a estrela maior de “ShondaLand”. Se há dois anos alguns ainda duvidavam, atualmente Viola Davis é uma clara favorita em todos os prémios em que participe. Annalise Keating, a implacável advogada de «Como Defender um Assassino», pode até ser uma das personagens mais imprevisíveis e calculistas hoje em televisão, mas a atriz que lhe dá vida tem pautado o ritmo desta série pela sua consistência. Da mesma forma, a capacidade de nos surpreender (e até chocar) parece não ter limites.

vedacoes
“Deixem-me que vos diga algo: a única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é oportunidade. Não podemos vencer um Emmy por papéis que, simplesmente, não existem”. As palavras de Viola, imediatamente após receber o Emmy, em setembro de 2015, ainda ressoam nos dias de hoje, balanceadas até pelos Óscares de 2016, que não tiveram qualquer ator negro nomeado nas quatro principais categorias. Por sua vez, em sentido contrário, a televisão tem visto brilhar atores como Anthony Anderson («Black-ish»), Kerry Washington («Scandal), Andre Braugher («Brooklyn Nine-Nine») ou Niecy Nash («Getting On»).

Não foi só Tatiana Maslany («Orphan Black») que teve de ultrapassar uma “maldição” – ganhou finalmente o Emmy em 2016. Viola Davis tinhas duas “maldições” a quebrar em 2017, os Globos de Ouro e os Óscares, mas já falhou a primeira. Nomeada duas vezes por «Como Defender um Assassino», a atriz nunca conseguiu vencer, sobretudo por uma questão de timing, uma vez que os prémios acontecem sempre a meio da temporada da sua série. Este ano, por incrível que pareça, nem figurou entre as nomeadas a Melhor Atriz em Série Dramática, onde Claire Foy («The Crown») foi a grande vencedora. Mas nos Óscares a conversa é outra. Desde o início que Viola foi vista como uma potencial candidata (e premiada) aos Óscares de 2017 por «Vedações» (2016). Das salas de teatro para as de cinema, «Vedações» (2016), realizado e coprotagonizado por Denzen Washington, prometia uma Viola ao seu melhor nível, e cumpriu. Até porque a dupla de atores conseguiu, em 2010, o Tony pela interpretação da peça, que teve a sua estreia na Broadway em 1985. Amanhã, deverá valer a Viola o primeiro Óscar da carreira: estava-lhe destinado, mas demorou a chegar.

Texto adaptado do artigo “Tatiana vs. Viola: um duelo sobre-humano”, publicado na Revista Metropolis número 41 (agosto de 2016).

  • Publicado em Feature

«Fences» com Denzel Washington e Viola Davis

Com a segregação racial nos EUA como tema de fundo, «Fences» toca numa ferida ainda aberta e fá-lo sem titubear. A obra é a adaptação cinematográfica da peça assinada por August Wilson, obra de 1987 que venceu um prémio Pulitzer, e aborda a história de Troy, um jogador de basebol reformado que trabalha como coletor de lixo para sobreviver, além de ter de enfrentar algumas complicações no relacionamento com a sua esposa Rose (Viola Davis) e filhos.

A peça teve estreia na Broadway, em 1987, com James Earl Jones e Mary Alice nos papéis principais. Ambos venceram o Tony pelas suas interpretações e Fences recebeu o Tony de Melhor Peça. Em 2010, a peça foi novamente levada a palco na Broadway, desta vez com Denzel Washington e Viola Davis como protagonistas, que também venceram prémios Tony, tal como a própria peça.

August Wilson insistiu que, se houvesse uma adaptação cinematográfica, o realizador teria de ser negro. Denzel Washington assume a tarefa, naquele que é o terceiro filme que assina, após «Antwone Fisher» (2002) e «Debate Pela Liberdade» (2007). Enquanto ator, Washington é já um valor seguro e insofismável – venceu o Óscar de Melhor Ator Secundário por «Tempo de Glória» (1989) e Melhor Ator Principal por «Dia de Treino» (2001) – mas ainda restam algumas dúvidas quanto à sua vertente de realizador. Todavia, com um texto e uma história tão fortes como «Fences» incorpora, espera-se um filme à altura.

Washington e Viola Davis repetem o par na Broadway, sendo este um dos grandes trunfos da obra. A atriz já fez História ao ser a primeira mulher negra a ganhar um Emmy de Melhor Atriz, por «Como Defender um Assassino», mas o Óscar teima em fugir-lhe, após as nomeações na categoria de Melhor Atriz Secundária por «Dúvida» (2008) e Melhor Atriz Principal por «As Serviçais» (2011). Decerto, «Fences» contará com mais uma interpretação inesquecível da atriz.

HISTÓRIA
Troy (Denzel Washington) é um afro-americano que luta por melhorar as condições de vida da sua família, enfrentando a discriminação racial nos Estados Unidos, na década de 1950.

Realizador:
Denzel Washington
(«Debate Pela Liberdade», 2007)

Elenco:
Denzel Washington, Viola Davis

Data de estreia prevista:
25 de dezembro (EUA)

Extremamente Alto, Incrivelmente Perto

O realizador britânico Stephen Daldry (O Leitor, As Horas) aborda o vazio na memória provocado pela perda abrupta de um ente querido. Neste caso a ferida aberta do 11 de Setembro é revista através de uma criança (especial) que vê o mundo de uma perspectiva única. Oskar (Thomas Horn) perdeu o pai nos atentados do World Trade Center (Hanks interpreta o pai de Oskar, e está igual a si mesmo). A manhã do pior dia da sua vida atormenta a existência de Oskar a cada instante, a forte relação com o pai impede-o de viver sem respostas para acções que não fazem sentido. O protagonista é uma criança com necessidades especiais que a parte das “fobias” do mundo real também possui dons de observação e inteligência que o diferem de alguém da sua idade. A descoberta de uma “pista”, um ano após a morte do pai, leva-o a palmilhar Nova Iorque à procura de um sinal. Uma expedição que o torna mais próximo do falecido pai e cada vez mais distante da mãe (Sandra Bullock) que lida igualmente com a tragédia, e o distanciamento do filho. Uma interpretação pequena mas bem acentuada por parte de Bullock. A segunda metade do filme é marcada pela masterclass de Max Von Sydow, no desempenho paradoxal do misterioso inquilino da sua avó que é um homem mudo que representa alguém com quem Oskar pode expressar livremente os seus sentimentos. Uma nota também para o pequeno mas não menos belo papel de Viola Davis.

O destaque interpretativo vai para Thomas Horn, uma criança sem experiência de representação e que teve entre mãos um papel complicado. Horn demonstrou coragem, dedicação e tenacidade, espera-se que continue a explorar a arte da representação. A realização de Stephen Daldry não se perde no enigma narrativo preferindo desenvolver a vertente profundamente humana da tragédia através de várias cenas a solo onde a observação da dor profunda dilui-se na poesia da imagem. Mais uma vez, após Billy Elliot (2011), Daldry revela o seu dom para trabalhar com jovens actores.

A edição em DVD da Warner/ZON Lusomundo contém um extra - Finding Oskar (7´), revela-nos Thomas Horn, e como ele se tornou actor após ter sido descoberto num concurso televisivo pela produção do filme. Segundo o elenco, Horn é uma fonte de informação e estimulação. O realizador recorda, “Horn sabia o que estava a fazer e tinha uma metodologia”, ele não era um actor mas tinha os instintos correctos, não ficou intimidado nem teve dificuldade em encontrar o “momento”.

tres estrelas

Título Nacional Extremamente Alto, Incrivelmente Perto Título Original Extremely Loud & Incredibly Close Realizador Stephen Daldry Actores Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock Origem Estados Unidos Duração 129’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº0.5)

 

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