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Actualizado às 10:22 PM, Nov 12, 2019

Florence, Uma Diva Fora de Tom

«Florence, Uma Diva Fora de Tom» pode não acertar nas notas todas, mas apresenta-nos uma atriz que nos agarra do início ao fim. A obra baseia-se na história real de Florence Foster Jenkins (Meryl Streep), uma dama de sociedade que adorava cantar e tinha o sonho de pisar o palco do Carnegie Hall, apesar de não ter muito talento para tal. Protegida pelo marido, St Clair Bayfield (Hugh Grant), Florence não desconfia da sua falta de aptidão vocal... mas até quando?

Stephen Frears é já muito experiente na realização de biopics, numa carreira que teve como expoente «A Rainha» (2006), protagonizado pela Dama Helen Mirren. Tal como no retrato biográfico da Rainha de Inglaterra, Frears deixa brilhar a sua musa, no caso, Meryl Streep – e é o melhor que faz. O filme vive sobretudo dos atores, do fantástico trio formado por Streep, Hugh Grant (um galã que já estava há demasiado tempo afastado do grande ecrã e que tem aqui um papel fulgente) e Simon Helberg, o pianista de Florence, que nos faz esquecer por completo o Howard de «A Teoria de Big Bang», mostrando-nos um potencial pouco explorado. A química entre os três é o melhor do filme, mas a atriz norte-americana reina em toda a linha. Versátil, incrivelmente expressiva, magistral... as palavras escasseiam quando se fala de Meryl Streep e esta é uma das interpretações em que se prova isso mesmo, em que a atriz humaniza a personagem e lhe dá uma maior dimensão dramática.

Nem sempre inspirado, «Florence, Uma Diva Fora de Tom» joga sempre pelo seguro. A banda-sonora de Alexandre Desplat envolve-nos, bem como a irrepreensível produção cénica e de guarda-roupa, que nos transporta incrivelmente para a Nova Iorque dos anos 1940. A obra não figurará como um dos melhores biopics da filmografia recente, mas decerto nos lembraremos de Meryl Streep e de como só ela conseguiria acertar ao desacertar.

tres estrelas

Título Nacional Florence, Uma Diva Fora de Tom Título Original Florence Foster Jenkins Realizador Stephen Frears Actores Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg Origem Reino Unido Duração 111’ Ano 2016

«Vencer a Qualquer Preço» - A saga de Lance Armstrong

A ascensão e queda do ciclista Lance Armstrong são revisitadas num notável filme de Stephen Frears — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Julho), com o título 'Os sete pecados mortais de Lance Armstrong'.

A saga do ciclista americano Lance Armstrong envolve uma das mais dramáticas histórias modernas de ascensão e queda, glória e decadência. O cinema já a tinha contado no documentário A Mentira de Armstrong (2013), de Alex Gibney. Agora, podemos descobrir Vencer a Qualquer Preço, uma realização do inglês Stephen Frears, estreada há cerca de um ano no Festival de Toronto. O filme baseia-se no trabalho do jornalista irlandês David Walsh que, como repórter de The Sunday Times, investigou e denunciou as práticas de doping de Armstrong e da sua equipa (U.S. Postal Service Cycling Team).

A investigação de Walsh (interpretado no filme por Chris O’Dowd) acabou por dar origem ao livro Seven Deadly Sins: My Pursuit of Lance Armstrong, publicado em 2012. A ironia do título, referindo os “sete pecados mortais” de Armstrong é clara: foi também em 2012 que lhe foram retirados os seus sete triunfos no “Tour de France”, sendo, além disso, banido para a vida de qualquer actividade no mundo do ciclismo.

Escusado será dizer que Armstrong está longe de ser uma personagem simples de retratar. E se é verdade que a sua célebre admissão de culpa no programa de Oprah Winfrey (Janeiro 2013) condensa o essencial da sua imagem pública, não é menos verdade que o filme de Frears procura expor tudo aquilo que, mesmo num invulgar momento confessional como esse, não cabe na vertigem do mundo mediático.

Do ponto de vista desportivo, o esquema montado por Armstrong, com a cumplicidade do médico italiano Michele Ferrari (Guillaume Canet), decorria, afinal, de um contexto em que, como também se veio a provar, o uso de substâncias ilícitas era uma prática corrente da maioria dos ciclistas que participavam na prova máxima do ciclismo mundial. Escusado será dizer que nada disso esbate a impostura que Armstrong protagonizou, envolvendo um programa (é esse, aliás, o título original do filme: The Program) que incluía, entre outros aspectos, a manipulação de amostras sanguíneas e análises de urina. Em todo o caso, muito mais do que um mero relatório “factual”, Vencer a Qualquer Preço é um filme sobre a tensão cruel, potencialmente trágica, entre o delírio individual do sucesso e as expectativas de um contexto social e simbólico sempre apostado em endeusar novos heróis.

A personagem de Armstrong adquire uma dimensão ainda mais perturbante decorrente do facto de os seus momentos de apoteose no “Tour” terem sido precedidos de uma desesperada batalha contra o cancro —a experiência levou-o, aliás, à criação de uma fundação com o seu nome (hoje, Livestrong Foundation), vocacionada para o acompanhamento de pessoas afectadas por doenças cancerígenas. Há nele, afinal, a dimensão visceralmente trágica de um ser que testou os limites das proezas humanas a par da convivência com os sinais da morte.

Fiel à sensibilidade realista em que se formou, Frears faz um filme em que a acumulação da mais detalhada informação sobre a cadeia de acções que sustentava (e ocultava) o doping vai a par da construção de uma personagem que, de facto, à boa maneira das tragédias clássicas, é “maior que a vida”. Nesse processo, o trabalho do actor americano Ben Foster revela-se absolutamente essencial. Acima de tudo, ele consegue interpretar Armstrong como protagonista de uma aventura em que as fronteiras entre a regra e a excepção parecem diluir-se na fruição sem limites das vitórias. Num mundo ideal, Foster teria sido um sério candidato a uma nomeação para o Oscar de melhor actor... Mas, como Armstrong nos ensina, não há mundos ideais.

  • Publicado em Feature

Vencer a Qualquer Preço

Em «Vencer a Qualquer Preço» existe, para além da vontade de vencer, a vontade de enganar e de corromper. «The Program» (utilizando o título original) é um heist movie que fala sobre um desportista desonesto e sobre o desejo diabólico de ganhar a todo custo naquele que é o maior e mais doloroso evento desportivo do mundo: o Tour de France. A tramoia foi tão bem realizada que Lance Armstrong (Ben Foster), o ciclista/batoteiro, iludiu por sete vezes o Tour, os fãs e a esmagadora maioria da imprensa. Aqueles que se atreveram a levantar suspeitas sobre a hipótese de doping por parte de Armstrong foram sistematicamente marginalizados. Este filme baseia-se no relato de um destes jornalistas, David Walsh (Chris O'Dowd), ele que investigou e publicou essas acusações no The Sunday Times e no livro Seven Deadly Sins que serviu de base para o argumento adaptado por John Hodge.
Realizado por Stephen Frears como se tratasse de um “grand tour”, temos várias etapas na trama que envolvem os principais momentos do golpe, os personagens entram em cena, actuam e desaparecem para deixar entrar outros protagonistas criando assim uma panorâmica completa da ascensão e queda de um ídolo.

Lance Armstrong foi interpretado por Ben Foster num desempenho bem executado e extremamente complicado por estar tão próximo dos acontecimentos (1993-2012). Houve transformação física e a performance emocional que revela a psicologia de um mentiroso. Prevalece no filme o lado de bully e sociopata que sempre disse aquilo que as pessoas queriam ouvir, uma figura real que pode ter inspirado milhões na luta contra o cancro assente em princípios que provaram ser uma grande falácia. É um relato que confirma que vivemos num mundo corrompido onde a ganância e a ambição ultrapassam todos os outros valores.

É visível que Stephen Frears despreza justamente o comportamento de Armstrong e que tem pouco interesse pelo ciclismo, embora as sequências na estrada e a direcção de fotografia estejam fantásticas. A verdadeira motivação do realizador britânico foi registar e desconstruir o mito, sem olhar a outro tipo de facetas que pudessem justificar o impossível. Esta é a história maligna e irreal de uma figura maldita. A qualidade de Stephen Frears como contador de histórias aliada à performance maníaca de Ben Foster resultam num filme vencedor.

tres estrelas

Título Nacional Vencer a Qualquer Preço Título Original The Program Realizador Stephen Frears Actores Ben Foster, Chris O'Dowd, Guillaume Canet Origem Reino Unido/França Duração 103’ Ano 2016

 

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