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Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

2001: Uma Odisseia no Espaço

Uma equipa de astronautas parte rumo a Júpiter a bordo da enorme nave espacial Discovery em busca de respostas para o enigma surgidoquando se descobriu na Lua um estranho monólito negro, cuja origem parece estar algures na órbita do maior dos planetas do sistema solar.

Sem dúvida um dos maiores clássicos do cinema de ficção-científica, 2001 é também um dos filmes mais revolucionários e influentes dos últimos 50 anos. Sem a visão pioneira de Stanley Kubrick e o modo como ele imaginou as viagens espaciais, como fruto da eterna sede de conhecimento do homem, o aparecimento de filmes como Guerra das Estrelas e os seus descendentes teria sido muito mais difícil.

Kubrick explorou aqui ao máximo as possibilidades da época em termos de tecnologia de efeitos especiais criando uma obra que transcende os limites do seu género sugerindo-nos ainda uma reflexão profunda sobre a espécie humana e os seus limites.

Uma obra admirável que não perdeu nada da sua força, frescura e fascínio ao longo destes últimos 45 anos.

quatro estrelas

Título Nacional 2001: Odisseia no Espaço Título Original 2001: A Space Odyssey Realizador Stanley Kubrick Actores Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester Origem Estados Unidos/Reino Unido Duração 149’ Ano 1968

 

Barry Lyndon - As paisagens de Kubrick

É bem verdade que o mercado cinematográfico de Verão vive dominado (e, não poucas vezes, afogado) pelas campanhas mais ou menos ruidosas em torno dos filmes de super-heróis. Mas não é menos verdade que isso não tem impedido que este seja um período em que, em anos recentes, a oferta voltou a ser muito diversificada, na prática convocando os espectadores para uma relação com o cinema que não seja preguiçosamente consumista e esvaziada de qualquer gosto de descoberta.

Em 2016, um dos acontecimentos incontornáveis do Verão dá pelo nome de «Barry Lyndon», de Stanley Kubrick (1928-1999). Datado de 1975, narrando as aventuras e desventuras de um irlandês que, em meados do séc. XVIII, ascende na aristocracia britânica, o filme adapta o romance de William Makepeace Thackeray (datado de 1844) através de um fulgor visual que ficou como uma imagem de marca do grau de exigência que Kubrick colocava na concretização de cada cena, imagem a imagem — isto sem esquecer, claro, que tais proezas são indissociáveis da colaboração do seu genial director de fotografia, John Alcott (1931-1986).

Trata-se, aliás, de um filme que assume a pintura de William Hogarth (1697-1764) como uma das suas principais referências iconográficas, e tanto mais quanto Hogarth era o pintor preferido de Thackeray — as paisagens são, aqui, um esplendor visível e uma promessa de relação com o invisível.

Em todo o caso, importa contrariar o cliché (no fundo, profundamente preconceituoso) segundo o qual o cinema se consagra como coisa “séria” quando “copia” a pintura. Não é nada disso que está em jogo: para Kubrick, a convocação de referências de outras artes — lembremos o exemplo do Danúbio Azul na banda sonora de «2001: Odisseia no Espaço» (1968) — não é uma caução, antes um instrumento de trabalho, criação e recriação.

Que acontece, então, em «Barry Lyndon»? Uma prova de fogo do próprio conceito de identidade humana. Em boa verdade, para além das muitas diferenças temáticas e estilísticas dos seus filmes, Kubrick foi sempre alguém que interrogou essa identidade, tentando compreender o que nos faz (ou impede de ser) humanos. Lembremos o primado da violência na Primeira Guerra Mundial, retratada em «Horizontes de Glória» (1957); ou, no já citado 2001, a emergência de uma solidão radical no infinito do cosmos; ou ainda, no título derradeiro, «De Olhos Bem Fechados» (1999), esse labirinto assombrado em que racionalismo e sexualidade parecem querer inventar um diálogo que, em boa verdade, ninguém sabe como começar.

São razões mais que suficientes para lembrar também que uma certa visão “tecnicista” da obra kubrickiana passa ao lado da sua fascinante riqueza e complexidade. Ele foi, afinal, alguém que soube aplicar os recursos mais sofisticados para criar acontecimentos narrativos que, no limite, nos levam a (re)pensar o nossos estatuto de espectadores. Por isso também, a reposição de «Barry Lyndon» é uma maneira de lembrar que o cinema pode ser, literal ou simbolicamente, um fenómeno maior que a vida — e não duvido que muitos espectadores que nunca tinham visto este filme numa sala escura saberão reconhecer e valorizar tal fenómeno.

  • Publicado em Feature

Nos bastidores de «Barry Lyndon»

Ainda em exibição no cinema Ideal, a reposição de Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick, é um dos grandes acontecimentos, não apenas do Verão, mas de todo o ano cinematográfico. Acompanhando o seu relançamento no mercado do Reino Unido, o British Film Institute divulgou algumas imagens preciosas dos bastidores da respectiva rodagem — um portfolio que vale a pena descobrir.

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«Barry Lyndon» - Kubrick — à luz das velas

É um acontecimento central no mercado de Verão: a reposição de Barry Lyndon permite-nos (re)descobrir o génio de Stanley Kubrick e, em particular, a sua obsessiva criação de imagens — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Julho), com o título 'O séc. XVIII filmado com lentes da NASA'.

Ao lançar-se no projecto de Barry Lyndon, Stanley Kubrick quis que o seu século XVIII fosse tão realista quanto possível. Tal desejo criativo não tinha nada de óbvio — afinal, numa adaptação do romance picaresco de William Makepeace Thackeray, de que realismo cinematográfico se poderia tratar?

O realizador estabeleceu duas regras de trabalho com o director de fotografia John Alcott (1931-1986): por um lado, recriar modos de composição e iluminação da pintura da época, em particular de William Hogarth (profundamente admirado por Thackeray); por outro lado, forçar até ao limite a não utilização de luz artificial para “compensar” os problemas decorrentes dos espaços menos iluminados.

Alcott conhecia bem o grau de exigência de Kubrick, tendo trabalhado na qualidade de operador em 2001: Odisseia no Espaço (1968), fotografado pelo mestre britânico Geoffrey Unsworth (1914-1978), e assinando depois a fotografia de Laranja Mecânica (1971); a sua derradeira colaboração ocorreria em Shining (1980). Em qualquer caso, a rodagem de Barry Lyndon envolveu um dos desafios mais extremos (para não dizer extremistas) com que Alcott alguma vez deparou. Assim, nas cenas de interiores, em particular os jogos de cartas, Kubrick insistiu em filmar apenas com a luz das velas, evitando a iluminação global e uniformizante das tradicionais “reconstituições” de época.

A solução encontrada entrou para a história da fotografia em cinema — e é bem reveladora da atenção com que o realizador sempre acompanhou a evolução das técnicas de imagem. Kubrick sabia que a companhia alemã Zeiss tinha desenvolvido lentes especiais para a NASA, visando as condições específicas em que os astronautas iriam fotografar a Lua: a sua grande abertura de diafragma permitia obter uma excelente definição sem perda de profundidade de campo. Graças a algumas adaptações, tais lentes foram decisivas para o inconfundível look de Barry Lyndon (valendo a Alcott o Oscar de melhor fotografia referente a 1975).

Não será exagerado considerar que, de uma maneira ou de outra, os filmes de Kubrick envolveram sempre singulares desafios fotográficos, desde o retrato a preto e branco dos combates da Primeira Guerra Mundial em Paths of Glory (1957), até à reconstrução de algumas ruas de Nova Iorque nos estúdios de Pinewood, nos arredores de Londres, para o filme final De Olhos Bem Fechados (1999). Se é verdade que, como sugeria Hitchcock, o cinema é a arte de construir uma visão do mundo, poucos foram tão radicais como Kubrick na concretização dessa tarefa.

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