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Actualizado às 12:37 PM, Feb 14, 2020

«Parasitas» - o grande vencedor dos Oscars

«Parasitas» venceu os Oscars de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Filme Internacional. É o primeiro filme em língua não inglesa a arrecadar o Oscar de Melhor Filme.

[O texto que se segue foi publicado na edição 73 - Janeiro 2020 - onde foi eleito pela nossa redação como o Melhor Filme 2019 da revista Metropolis]

A Palma de Ouro é o prémio de maior prestígio no cinema mundial, mas os filmes que triunfam no Festival de Cannes nem sempre geram um consenso global, seja junto do público ou dos espectadores. O que aconteceu com «Parasitas», a comédia sobre luta de classes filmada por Bon Joon Ho, foi diferente. O filme foi recebido com aclamação generalizada no festival francês, o júri liderado por Alejandro González Iñárritu premiou-o com a Palma de Ouro e o ruído não parou de aumentar desde maio, com jovens fãs no Twitter a utilizaram a hashtag #BongHive e replicarem ‘memes’. Até agora, o filme arrecadou receitas que rondam os €120 milhões em todo o mundo, o que é uma soma notável para um filme sul coreano obscuro, com violência gráfica e observações sociais mordazes e cortantes. O fenómeno explica-se porque esta alegoria perversa sobre os parasitas que de uma forma inteligente sugam os mais abastados encontra eco na raiva universal que as pessoas sentem em relação à distribuição global da riqueza. O filme é relevante em Seul e para qualquer família de classe média, remediada ou pobre. A primeira Palma de Ouro do cinema sul coreano é um prémio para os oprimidos do mundo.

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Parasitas

Bong Joon-ho, um dos principais cineastas sul-coreanos da atualidade, apresenta agora a obra que muitos consideram como a melhor da sua carreira, «Parasitas», que tem muito de crítica social, sendo uma comédia com traços de drama. A obra venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, tornando-se no primeiro filme coreano a consegui-lo. Depois desta conquista, a obra é também uma grande aposta nesta temporada de prémios, contando com presença garantida nos Festivais de Toronto e Nova Iorque.
«Parasitas» acompanha a história de duas famílias: uma rica e com tudo a seu dispor, e outra que passa por bastantes dificuldades. A relação entre estes dois polos é a base da obra, que contém também muito mistério envolvido. Tal fez com que o realizador pedisse aos que já visionaram a obra para não revelarem os seus segredos, lançando uma carta aberta durante o Festival de Cinema de Cannes.

Nesta dissecação sobre a condição humana, Bong Joo-ho arrisca-se num filme multi-género, difícil de categorizar, depois de já ter surpreendido o mundo do Cinema com obras como «Expresso do Amanhã» e «Okja». O realizador revela que “«Parasitas» lida com a polarização, uma questão universal. Mesmo se não houver um vilão, coisas más podem acontecer. É por isso que se trata de uma tragicomédia imprevisível”. “Acho que uma maneira de retratar a contínua polarização e desigualdade da nossa sociedade é como uma comédia triste. Vivemos numa época em que o capitalismo é a ordem reinante e não temos outra alternativa. Não é apenas na Coreia, o mundo inteiro enfrenta uma situação em que os princípios do capitalismo não podem ser ignorados. No mundo real, é improvável que os caminhos de famílias como os nossos quatro protagonistas desempregados e a família Park se cruzem. A única instância é em questões de emprego entre classes, como quando alguém é contratado como tutor ou trabalhador doméstico. Nesses casos, há momentos em que as duas classes se aproximam o suficiente para sentir a respiração uma da outra. Neste filme, embora não haja intenção maléfica de ambos os lados, as duas classes são levadas a uma situação em que o menor deslize pode levar a fissuras e erupções”, referiu o cineasta.

História: Todos os elementos da família de Ki-taek estão desempregados. Por acaso, o filho adolescente começa a dar aulas de inglês a uma jovem de uma família rica. Fascinados pela vida luxuosa dessa família, os Ki-taek tentam infiltrar-se neste modo de vida burguesa. Contudo, a ascensão social vai obrigar a família a enfrentar vários segredos e mentiras.

Realizador: Bong Joon-ho («Mother - Uma Força Única», 2009; «Expresso do Amanhã», 2013; «Okja», 2017)
Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo

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«Parasitas» - crítica

À primeira vista, «Parasitas» (Palma d’Ouro em Cannes’19) parece ser “só uma comédia negra” em torno de uma família de pequenos vigaristas pintada com elementos de sátira social. Mas este é um filme de Bong Joon-ho – o mesmo realizador de «The Host - A Criatura» (2006) e «Snowpiercer - Expresso do Amanhã» (2013) –, podemos por isso esperar sempre mais. Em «Parasitas», Bong abandona os elementos de ficção-científica que vinham fazendo parte dos seus últimos filmes e cai mais fundo no realismo social. Os efeitos do capitalismo tardio reflectem-se nas relações de assimetria entre aqueles que vivem e trabalham na mais absoluta miséria e aqueles que acumulam fortunas colossais.

O filme começa com o plano de uma janela gradeada e suja. Lentamente, o movimento descendente da câmara revela-nos a cave que serve de abrigo para a família Kim, que vive, literalmente, um nível abaixo do chão. Enquanto o filho mais novo, Ki-woo (Choi Woo-shik), anda pela casa de telemóvel em riste à procura de uma rede wi-fi aberta, o pai, Ki-taek (Song Kang-ho) aproveita para deixar entrar os gases tóxicos da fumigação da rua para se tentar livrar de uma praga de insectos em casa. Não creio que se possa ser mais explícito que isto. Os Kim são, por certo, os parasitas a que o título se refere. Ou será que não?

De repente, surge uma oportunidade de melhorar de vida quando Ki-woo arranja trabalho como tutor de inglês para uma adolescente mimada de uma família rica, os Park, que vivem numa residência de luxo no topo de uma colina. Ki-woo, que agora se chama “Kevin”, vai engendrar o plano para empregar toda a família. A irmã, Ki-jung (Park So-dam), passa a chamar-se “Jessica” e será promovida a arte-terapeuta do filho mais novo dos Park. Um pouco mais de esforço, algumas mentiras e manipulação, e Ki-woo faz do pai motorista e da mãe criada na mesma casa. Tudo isto, claro, sem que se saiba que eles são parentes. Todos adoptam novas identidades e, juntos, como observa o pai, quase conseguiriam sair do patamar da indigência.

Apesar da minha descrição sombria (meio involuntária), a verdade é que até aqui o filme mantém um tom bastante leve e divertido. Mas, quase sem nos darmos conta, o filme vai-se metamorfoseando. Fica mais triste, mais estranho, mais violento, delirante. O argumento de «Parasitas» não se constrói sobre twists baratos, mas as revelações e reveses, apoiados em actuações brilhantes dos actores, são de facto surpreendentes. Não devo por isso revelar demasiados pormenores do restante enredo. Sugiro apenas que se agarre bem à cadeira, a descida será no mínimo vertiginosa.

cinco estrelas

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