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Actualizado às 9:31 PM, Aug 22, 2019

O Lobo de Wall Street

Em 1987, no «Wall Street» de Oliver Stone, Gordon Gekko gritava à sociedade que a ganância era algo de bom, ou não fosse ele um dos mais implacáveis tubarões de Wall Street, um predador sem escrúpulos cujo único objectivo era o lucro. Jordan Belfort é alguém que comparativamente faz parecer Gekko quase respeitável, pois enquanto Gekko explorava as fraquezas de empresas para as depois liquidar, Belfort descobriu uma fórmula quase infalível para separar os cidadãos comuns das suas esforçadas poupanças. E há mais uma pequena diferença entre o protagonista de «Wall Street» e Jordan Belfort, o primeiro era uma figura fictícia embora inspirada nas acções de muitos bandoleiros da meca da alta finança, Belfort é alguém de muito real que durante alguns anos viveu no mais bizantino luxo e excesso graças aos milhões extorquidos a milhares de vítimas incautas.

Cronista ímpar da vida nova-iorquina e especialmente do seu lado mais obscuro, o mundo do crime, Martin Scorsese parecia com o seu filme anterior, o fascinante «A Invenção de Hugo», ter abraçado uma veia mais terna criando uma fábula luminosa passada em Paris onde homenageava um dos pioneiros do cinema. Mas desenganem-se aqueles que julgaram que o realizador tinha perdido a garra e o fascínio pelo lado menos publicitado do sonho americano. «O Lobo de Wall Street» é uma das suas mais fascinantes e arrebatadoras viagens ao mundo do crime, só que desta feita os criminosos têm colarinho branco. Baseado na auto-biografia de Jordan Belfort, o filme apresenta-se-nos como uma hilariante e excessiva comédia negra, onde acompanhamos a ascenção, triunfo e inevitável queda de um dos auto-denominados ‘senhores do universo’ que com regularidade são notícia no mundo da finança. Algumas das sequências, as mais incríveis, podem parecer saídas da mente de um argumentista, mas a verdade é que tudo que está no filme aconteceu. O argumento de Terence Winter ganha uma dimensão superior no modo como Scorsese compôe a jornada de Belfort, de jovem aprendiz a mandarim do dinheiro fácil. Pelo meio há o fascínio pelo abismo, o excesso do álcool, do sexo e das drogas, e o resvalar para a criminalidade mais descarada que acabam por levar Belfort e os seus associados a cairem nas malhas da justiça.

Com quase 3 horas o filme tem no entanto um ritmo frenético, que ecoa o tipo de vida do seu protagonista, é também um filme que bate o recorde de profanidades - 506 palavrões de classe A. A outro nível «O Lobo de Wall Street» sugere-nos uma meditação aprofundada sobre os perigos do capitalismo selvagem e o seu impacte nas vidas de milhões de pessoas.

Magnificamente dirigido, fotografado e montado, «O Lobo de Wall Street» ganha uma dimensão superior no a todos os níveis magnífico desempenho do seu elenco, com natural destaque para o brilhante Leonardo DiCaprio que uma vez mais cria algo de mágico ao lado de Scorsese. Se DiCaprio não ganhar o óscar de melhor actor será uma das grandes injustiças do século. Destaque ainda para o cada vez melhor Johah Hill que compôe aqui uma personagem tão alucinada quanto patética. Nos óscares deste ano, «O Lobo de Wall Street» será sem dúvida um dos grandes candidatos aos homenzinhos dourados. Uma obra arrebatadora e fascinante que também nos horroriza, faz rir e convida à meditação.

quatro estrelas

Título Nacional O Lobo de Wall Street Título Original The Wolf of Wall Street Realizador Martin Scorsese Actores Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie Origem Estados Unidos Duração 180’ Ano 2013

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº16)

Vinyl

O mínimo que se pode dizer de uma série como «Vinyl» (HBO), sobre a cena musical novaiorquina na década de 1970, é que nasceu com a chancela de alguns nomes exemplares. Desde logo, Terence Winter, produtor de «Os Sopranos» (1999-2007) ou «Boardwalk Empire» (2010-2014), argumentista de «O Lobo de Wall Street» (2013), para Martin Scorsese. Depois, Mick Jagger que, escusado será sublinhá-lo, possui um conhecimento directo e essencial da época retratada. Enfim, o próprio Scorsese, cineasta sempre fascinado pelas convulsões do rock que, além de já ter filmado os Rolling Stones, em «Shine a Light» (2008), tem também na sua filmografia «A Última Valsa» (1978), sobre o concreto final de The Band.

Todos os criadores envolvidos — com Scorsese a assumir a direcção do episódio piloto, com cerca de duas horas de duração — apostaram em muito mais do que uma mera acumulação de sinais “decorativos” das convulsões dos anos 70. A série, entenda-se, é admirável em todos os detalhes, desde o guarda-roupa até ao ambiente nas ruas. Em todo o caso, não estamos perante uma “reconstituição” que se baste a si mesma — «Vinyl» é um fresco sobre uma conjuntura de transfiguração de muitos padrões sociais e artísticos.

Em termos esquemáticos, digamos que se trata de fazer o retrato de um tempo em que as ilusões mais ou menos anarquizantes da década anterior desembocaram em diversos impasses: um consumo brutal das mais variadas drogas; o impasse comercial dos modelos musicais dos anos 60; enfim, a emergência do punk como sintoma de uma conjuntura em que a juventude já não se assume como portadora de qualquer ilusão utópica (“No future”).

A personagem fulcral de Richie Finestra (Bobby Cannavale), desesperado por consolidar um papel influente na dinâmica das edições musicais, congrega as euforias e tragédias desse tempo. Mais do que isso: a proliferação de secundários que resistem a qualquer redução caricatural — veja-se, por exemplo, o cantor Kip Stevens, interpretado por James Jagger (filho de Mick) — confere a «Vinyl» a vibração de um invulgar fresco humano que, apetece dizê-lo, poderia servir para um filme de Scorsese... Em qualquer caso, ele já disse que quer dirigir mais alguns episódios. 

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