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Actualizado às 10:58 PM, May 15, 2019

João Salaviza - Realizador de Ouro

Recebeu os prémios mais importantes dos festivais de Cannes e de Berlim. Filmou a paisagem urbana, distanciou-se e cresceu como realizador no interior do Brasil onde filmou «Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos.

[artigo originalmente publicado na revista Metropolis nº67]

Pela primeira vez, uma produção inteiramente portuguesa, trouxe uma Palma de Ouro do festival Cannes para Portugal. Aconteceu há dez anos, em 2009, com a curta-metragem «Arena», de João Salaviza. O júri era presidido pelo cineasta John Boorman, que revelou o prémio anunciando o “nascimento de um talento” de 21 anos! Enganou-se, não era tão jovem. João Salaviza tinha feito 25 anos e recebeu a Palma salientando que "o prémio é uma honra enorme.” O jovem realizador, que na infância tentou ser captado para jogar nas escolas de futebol do Sporting, acrescentou: “é bom perceber que não somos só bons no futebol. Espero que isto ajude, de alguma maneira, aqueles que fazem cinema em Portugal e que dê um pouco mais de atenção sobre o cinema português."

Foi ali que descobrimos o realizador – João Salaviza já tinha rodado «Duas Pessoas» (2004) na Escola Superior de Teatro de Cinema e «Cães de Caça» (2008)– mas aqueles 15 minutos de «Arena» (2009), a terceria curta-metragem, revelaram-no perante a crítica e o público em geral. No filme, Mauro, interpretado por Carloto Cotta, encontra-se em prisão domiciliária, com uma pulseira electrónica. Quando três miúdos do bairro o provocam, Mauro decide saltar cá para fora...

Salaviza trabalhou com os atores, "pedindo-lhes para serem verdadeiros”. Escolheu jovens de bairros em redor de Lisboa que “compreendem o que estão a fazer, percebem a ideia de violência que está no filme.”

salaviza arena

João Salaviza foi o primeiro português a ganhar a Palma de Ouro para o cinema português (em contexto de competição, porque Manoel de Oliveira tinha recebido o prémio a título honorário) e não ficou por ali. Regressou à competição de um grande festival em Berlim, com «Rafa» (2012) e ganhou o primeiro Urso de Ouro para o cinema português. Poucos serão os realizadores que levaram para casa uma Palma e um Urso, mas no jeito elegante que o carateriza dirá que os prémios são menos importantes do que os filmes. E já agora do que as personagens. «Rafa» é a curta que conta a história de um rapaz da margem sul de Lisboa que atravessa a ponte 25 de abril para ir procurar a mãe que tarda em chegar porque está detida numa esquadra. A criança-adolescente viaja da periferia para cidade e perde-se nesta jornada em busca de uma mãe que nunca aparece no filme. No processo, ele cresce, amadurece, é um processo de transição para uma idade quase adulta que acontece durante um dia, e e esse crescimento está bem visível no desempenho de Rodrigo Perdigão.

«Rafa» um filme contado na margem, uma das carateristicas do cinema de João Salaviza, como sucedia em «Cerro Negro», drama sobre um casal de brasileiros em Portugal e onde acompanhamos uma mulher durante a visita ao marido que está preso a cumprir uma pena. «Cerro Negro» é o filme do meio, entre «Arena» e «Rafa», o que não teve o reconhecimento nos grandes festivais, a obra menos conhecida, que completa a ‘trilogia acidental’, no sentido em que não foi planeada.

Durante os anos em que rodou estas três ficções, Salaviza filmou outras três curtas-metragens artísticas: «Strokkur» (2011), na Islândia, cumprindo a regra de que o som não deve ilustrar a imagem e a imagem não pode absorver o som; «Hotel Müller» (2010), um documentário que presta homenagem à coreógrafa Pina Bausch; e «Casa na Comporta» (2011), uma encomenda para a bienal de arquitetura de Veneza.

salaviza Montanha 8

Encerrado o percurso de curtas-metragens, o realizador assumiu o desafio da primeira longa, filmando «Montanha» (2015), onde prolongou a sua narrativa em torno da adolescência, contando os dias de David, 14 anos, no bairro lisboeta dos Olivais. Salaviza escolheu um lugar que não cumpriu a função a que estava destinado, uma utopia arquitetónica e social, um bairro pensado para famílias de diferentes classes, uma espécie de país falhado nos anos da crise, um espaço que expande a angústia e a solidão próprias da adolescência.

Ruturas. No ato seguinte João Salaviza afastou-se da cidade onde cresceu, da paisagem urbana dominante em «Arena», «Rafa» e «Montanha», mas não foi muito longe. Saiu para a periferia do bairro da Pedreira dos Húngaros para onde Karlon, pioneiro do rapper crioulo, foi deslocado e filmou-o numa inquisição ao passado. A curta-metragem «Altas Cidades de Ossadas» (2017) é a primeira etapa deste percurso de fuga da cidade e que o levou até ao Brasil para filmar a sua longa-metragem «Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos». Um caminho onde encontra quem está indevidamente representado – os cabo-verdianos na sociedade portuguesa e os índios krahô no Brasil.
Nesta viagem-processo, Salaviza passou pelo Porto e registou a memória de quem vive no Bairro do Aleixo, espaço urbano agredido pelo poder político – em «Russa» (2018), uma encomenda da Câmara Municipal do Porto para o projeto cultura em expansão, ouviu os moradores e deu-lhes a oportunidade de derrubarem o preconceito sobre o lugar onde habitam.

salaviza chuva

Em «Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos» (2018) juntou-se à mulher, a brasileira Renée Nader Messora (que tinha sido sua assistente em «Montanha») na Aldeia da Pedra Branca, em Tocatins no Brasil. Renée inteirou-se da vivência do krahô acompanhando-os durante vários anos. Os dois filmaram demoradamente, ao longo de nove meses, num registo documental e ficcional, construindo uma narrativa, a história do jovem Ihjãc, no contexto da sua tribo.

Salaviza afirma que após tantos anos aconteceu “a construção de uma identidade e intimidade partilhada entre todos, o que faz com que a filmagem não seja totalmente exótica nem intrusiva para eles, e que por outro lado existam muitas coisas que já interiorizámos durante o tempo passado na aldeia.” Renée e João desapareceram enquanto realizadores brancos. Depois das curtas e da longa-metragem urbana, Salaviza superou “uma sensação de esgotamento” que o poderia ter levado a deixar de filmar, como confidenciou. “Se as rodagens têm de facto que ser uma bolha e um parêntesis na minha vida, não quero continuar a fazer filmes para sempre. Tentar arranjar financiamento, esperar três anos para filmar, e, finalmente, quando se consegue um apoio paramos para filmar durante dois ou três meses.” Com isto, prossegue, “os processos vitais do quotidiano desligam-se de um filme”.

Aqui a vida aconteceu com o cinema. Durante o tempo do filme o casal teve o primeiro filho e o realizador encontrou a essência do seu cinema: devolver a voz a quem não a tem, num filme sobre a importância da demarcação do território dos índios no Brasil.

  • Publicado em Feature
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