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Actualizado às 11:43 AM, Jul 21, 2019

Silêncio + Scorsese (3/3)

A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

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3. Celebrar o corpo

No universo cinematográfico de Scorsese, o ponto de fuga de tudo isto é sempre, de forma intensamente física, o corpo. Será preciso recordar também que um filme como Touro Enraivecido se desenvolvia como uma epopeia intimista em que o pugilista Jake La Motta se define como alguém que protagoniza uma celebração religiosa do seu próprio corpo?
Justamente, em Silêncio, a questão do corpo contamina todos os elementos da mise en scène. Desde logo, porque o gesto que consagra a apostasia (pisar o “fumie”) implica a violentação de uma vontade que desafia os valores inerentes à linguagem corporal. Depois, porque os mais diversos elementos narrativos nos vão fazendo sentir a violência da tensão que se estabelece entre os corpos ocidentais e a organização dos espaços nipónicos.

Sublinhe-se, nesse aspecto, a fundamental importância da direcção fotográfica de Rodrigo Prieto e da montagem de Thelma Schoonmaker — no primeiro caso, tratando o espaço, mesmo nos seus lugares mais luminosos, como um labirinto de luzes e sombras que repele aqueles que chegam do exterior; no segundo, criando ritmos e conexões, continuidades e descontinuidades que exprimem a solidão do olhar dos padres jesuítas perante uma realidade que ignora os seus valores e códigos.

No limite, o trabalho de Scorsese escolhe também um espaço de expressão de fascinante ambiguidade. Assim, mesmo através das suas singularidades narrativas, deparamos em Silêncio com a memória simbólica das grandes superproduções “bíblicas” que marcaram, em particular, os anos 50/60 de Hollywood (Scorsese tinha 13 anos quando, em 1956, se estreou nos EUA o emblemático Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille). Ao mesmo tempo, na sua geométrica construção do espaço e gestão do tempo, este filme é também um herdeiro da sofisticação do mestre nipónico Kenji Mizoguchi (1898-1956), autor do lendário Contos da Lua Vaga (1953).

Talvez que o cinema seja “apenas” uma arte de questionar os nossos modos de ver e ouvir, de observar o mundo à nossa volta, inventariando as suas evidências, tanto quanto as suas máscaras. Eis um filme que conduz essa arte ao supremo desafio de enfrentar o silêncio com que Deus recobre as actividades dos humanos. Crentes ou descrentes, com Scorsese compreendemos que através de tal desafio podemos pressentir a possibilidade do sagrado.

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Silêncio + Scorsese (2/3)

A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

[ Parte 1 ]

2. "Porquê eu?"

Silêncio vem encerrar aquilo que, a partir de agora, poderemos designar como a “trilogia religiosa” do seu autor, sendo A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997) os dois primeiros momentos. O que os liga é o reconhecimento de uma trágica e comovente desproporção simbólica. Tal como os padres de Silêncio, Jesus e o Dalai Lama, figuras nucleares desses dois filmes, experimentam a vertigem de serem convocados para uma missão propriamente sagrada — a assunção de uma verdade que transcende os dados da existência comum — que lhes suscita uma dúvida radical: serão eles capazes de satisfazer os desígnios da divindade que servem?

Há uma outra maneira de dizer isto: o trabalho dos portadores das palavras da fé não pode deixar de lidar com a vida comum, regressando à terra, às tensões sociais, às convulsões da política. Ou ainda: os protagonistas da missão divina vão ter de reconhecer os limites inerentes à sua condição humana. Um pouco como o Jesus de A Última Tentação de Cristo que, a certa altura, se vira para o Céu, proclamando uma incontornável angústia: “Porquê eu?”.

Escusado será dizer que Scorsese não perde de vista o paradoxo formal e filosófico que assim se instala: por um lado, a expansão da fé remete sempre, por definição, para qualquer “coisa” que está para além do visível; por outro lado, o cinema é essa arte “primitiva” que ambiciona confrontar-se com o invisível, imaginando-o, ou melhor, revertendo-o para o mundo das imagens. Será preciso recordar que Georges Méliès, pioneiro absoluto do poder encantatório das imagens, era exuberantemente homenageado em A Invenção de Hugo?
Daí o peculiar suspense que se vai instalando no desenvolvimento de Silêncio. É verdade que a fé dos protagonistas está para além das imagens (“fumie”) que ilustram a sua crença. Mas não é menos verdade que aquilo que as autoridades japonesas lhes exigem envolve a negação do valor simbólico dessas imagens (literalmente espezinhadas). Mais do que isso: eles vão ter de escolher entre esse acto de conspurcação das imagens e a morte — a morte dos seus irmãos de fé ou a sua própria morte.

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O silêncio que se faz cinema

A propósito de «Silêncio», de Martin Scorsese, muito se tem falado da presença central de personagens portuguesas: na segunda metade do século XVII, dois padres jesuítas portugueses (Andrew Garfield e Adam Driver) são enviados ao Japão para verificar se, de facto, um outro jesuíta português (Liam Neeson) renegou a fé católica, submetendo-se à violência física e emocional das autoridades nipónicas.

Há, de facto, uma essencial dimensão portuguesa na saga dos protagonistas, mas importa não a reduzir a uma mera curiosidade histórica. Afinal de contas, aquilo que Scorsese coloca em cena é uma muito antiga interrogação, com uma perturbante dimensão interior: como assumir as exigências de uma missão divina (neste caso enraizada na fé) que supera os parcos recursos do ser humano?

«Silêncio» serve, assim, para completar uma trilogia de temas religiosos que começou com «A Última Tentação de Cristo» (1988), reinventando a epopeia bíblica de Jesus, e se prolongou através de «Kundun» (1997), um retrato do Dalai Lama. Aquilo que Scorsese coloca obsessivamente em cena é, afinal, a trágica desproporção que se manifesta entre a dimensão humana e o apelo da divindade.

Tal como no romance do japonês Shusaku Endo em que o filme se baseia (editado entre nós pela Dom Quixote), o silêncio que o título nomeia provém, se assim nos podemos exprimir, da própria divindade — os humanos tentam encontrar uma resposta que quebre tal silêncio mas, em boa verdade, é na mais radical introspecção que residirá o essencial do seu destino.

Escusado será sublinhar o desafio formal e narrativo que tal implica. Scorsese é um criador que sabe aplicar os meios específicos do cinema para sondar as regiões mais inacessíveis da experiência humana, suas dúvidas e perplexidades. Em última instância, «Silêncio» desafia também o espectador a superar os seus limites existenciais — uma experiência rara, fascinante.

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«O Herói de Hacksaw Ridge» - O herói de Mel Gibson

Digamos, para simplificar, que a subtileza não é o forte de Mel Gibson... — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (14 Novembro).

Enquanto cineasta, Mel Gibson não é exactamente alguém de quem possamos esperar uma apoteose de subtileza. Que o seu muito esforçado e bem intencionado Braveheart (1995) tenha ganho o Oscar de melhor filme no ano em que Casino, de Martin Scorsese, era um dos potenciais candidatos, eis uma ironia amarga com que a cinefilia convive com inevitável desencanto...

Desta vez, com O Herói de Hacksaw Ridge, ele tem mesmo a seu favor o fascínio de uma espantosa personagem: Desmond Doss (Andrew Garfield), objector de consciência do exército americano que, na Segunda Guerra Mundial, nos combates em Okinawa, enquanto elemento das equipas médicas, deu mostras de excepcional dedicação e coragem. Infelizmente, para Gibson, Doss não passa de uma espécie de marioneta angelical que se “destaca” de uma representação obscena da violência das explosões e da decomposição dos corpos (nada a ver com o sentido dramatúrgico de O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, lançado em 1998). Além do mais, as cenas de infância, de tão demonstrativas e “psicológicas”, não superam um involuntário ridículo.

«Silêncio» de Martin Scorsese apresentado em Roma

Após mais de vinte anos de desenvolvimento, o drama espiritual de Martin Scorsese, «Silêncio», chegará finalmente aos cinemas em Dezembro nos Estados Unidos (estreia a 21 de Janeiro em Portugal). Mas primeiro, 400 sacerdotes jesuítas terão a possibilidade de um visionamento do filme altamente antecipado numa sessão especial. A Paramount Pictures vai apresentar «Silêncio» em Roma no final de Novembro para os 400 sacerdotes jesuítas graças ao reverendo James J. Martin, um jesuíta norte-americano que foi conselheiro na rodagem do filme.

As estrelas de «Silêncio» Andrew Garfield e Adam Driver interpretam dois jovens sacerdotes jesuítas que viajam para o Japão no século 17 na procura do seu mentor (Liam Neeson). «Silêncio» é considerado um dos grandes favoritos à temporada de prémios.

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