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Actualizado às 11:43 AM, Jul 21, 2019

«Os Mortos não Morrem» - crítica

Há muito que um trailer não prejudicava tanto um filme. Quem viu o trailer de «The Dead Don´t Die» viu quase o filme todo, apanhou as melhores cenas de humor e ficou sem o chamado efeito surpresa.

Ainda assim, é injusto trucidar esta comédia de zombies que erradamente foi lançada em competição. O seu conceito de humor político para falar da América de Trump, injuriar os “hipsters” e pura e simplesmente brincar com a ideia de ver Iggy Pop a comer tripas e Selena Gomez esventrada acaba por funcionar. Funciona, mas, claro, não explode.

Tal como em «Só os Amantes Sobrevivem», o desencanto, a “malaise” da câmara de Jarmuch está lá, ainda o que salte mais à vista seja algum do “flow” orgânico que tanto atraía em «Ghost Dog- O Método do Samurai». Pena é mesmo a homenagem ao cinema de mortos-vivos ser sempre preguiçosa.

*crítica publicada na Metropolis nº 69

BlacKkKlansman: O Infiltrado

Spike Lee regressa em ótima forma com um filme onde consegue transmitir as suas frustrações e preocupações de uma forma construtiva, como uma espécie de saga anti-racial onde tudo faz sentido e pode ser considerado positivo.

A história de «BlacKkKlansman: Infiltrado» é ambientada nos anos 70 e protagonizada por Ron Stallworth (John David Washington) o primeiro policia negro do departamento de Colorado Springs. A sua missão inicial é infiltrar-se numa manifestação pública com um líder afro-americano para avaliar o comportamento das pessoas e o grau de mobilização. Ron conhece Patrice (Laura Harrier), a organizadora do evento, com quem desenvolve uma relação de confiança. Essa proximidade entre ambos levará Ron a questionar-se sobre a sua atividade enquanto policia e o compromisso com a comunidade afro-americana à qual pertence e com a qual se identifica.

A sua missão seguinte é bem mais complexa. Apesar do seu estatuto de novato, Ron convence o departamento policial a deixá-lo liderar uma investigação sobre o KKK – Ku Klux Klan, também conhecido como A Organização. Colocando uma voz de homem branco, ele consegue entrar em contato com um membro do Klan, desenvolvendo um discurso extremamente racista que é música para os ouvidos do seu interlocutor. Ron recebe um convite para um encontro pessoal e aí reside o problema. Para superar a questão da cor, Flip Zimmerman (Adam Driver), um colega de Ron assume-se como um duplo que passa a desempenhar a missão junto dos elementos do KKK.

Policia branco, policia negro. O plano do infiltrado funciona ao ponto dele participar no planeamento de uma série de linchamentos e ações terroristas organizadas pelos racistas e travar conhecimento com David Duke, um dos grandes feiticeiros da organização na década de 70.

Spike Lee encontrou na biografia de Ron Stallworth a matéria adequada para realizar um filme esteticamente marcado pela cultura ‘blaxploitation’ e que valoriza o papel dos afro americanos no cinema – seja através uma excelente personagem heroica como Ron, ou da revisão de cenas de clássicos como «E Tudo o Vento Levou» ou «O Nascimento de Uma Nação» onde é evidente que Hollywood filmou por diversas vezes a história na perspetiva da supremacia banca.

Os diálogos são extremamente contemporâneos de forma a acentuar os preconceitos raciais mais viçosos e que perduraram no tempo. A atualidade do filme é sublinhada através de imagens da tragédia de Charlottesville, em 2017, e de uma dedicatória final a Heather Heyer, a jovem ativista dos direitos civis que morreu nas manifestações. Uma opção que pode ser entendida como desnecessária mas é adequada ao tom do filme.

«BlacKkKlansman: O Infiltrado» está nomeado para 6 Oscars.

Crítica publicada na Metropolis nº62

Silêncio + Scorsese (3/3)

A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

[ Parte 1 ] [ Parte 2 ]

3. Celebrar o corpo

No universo cinematográfico de Scorsese, o ponto de fuga de tudo isto é sempre, de forma intensamente física, o corpo. Será preciso recordar também que um filme como Touro Enraivecido se desenvolvia como uma epopeia intimista em que o pugilista Jake La Motta se define como alguém que protagoniza uma celebração religiosa do seu próprio corpo?
Justamente, em Silêncio, a questão do corpo contamina todos os elementos da mise en scène. Desde logo, porque o gesto que consagra a apostasia (pisar o “fumie”) implica a violentação de uma vontade que desafia os valores inerentes à linguagem corporal. Depois, porque os mais diversos elementos narrativos nos vão fazendo sentir a violência da tensão que se estabelece entre os corpos ocidentais e a organização dos espaços nipónicos.

Sublinhe-se, nesse aspecto, a fundamental importância da direcção fotográfica de Rodrigo Prieto e da montagem de Thelma Schoonmaker — no primeiro caso, tratando o espaço, mesmo nos seus lugares mais luminosos, como um labirinto de luzes e sombras que repele aqueles que chegam do exterior; no segundo, criando ritmos e conexões, continuidades e descontinuidades que exprimem a solidão do olhar dos padres jesuítas perante uma realidade que ignora os seus valores e códigos.

No limite, o trabalho de Scorsese escolhe também um espaço de expressão de fascinante ambiguidade. Assim, mesmo através das suas singularidades narrativas, deparamos em Silêncio com a memória simbólica das grandes superproduções “bíblicas” que marcaram, em particular, os anos 50/60 de Hollywood (Scorsese tinha 13 anos quando, em 1956, se estreou nos EUA o emblemático Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille). Ao mesmo tempo, na sua geométrica construção do espaço e gestão do tempo, este filme é também um herdeiro da sofisticação do mestre nipónico Kenji Mizoguchi (1898-1956), autor do lendário Contos da Lua Vaga (1953).

Talvez que o cinema seja “apenas” uma arte de questionar os nossos modos de ver e ouvir, de observar o mundo à nossa volta, inventariando as suas evidências, tanto quanto as suas máscaras. Eis um filme que conduz essa arte ao supremo desafio de enfrentar o silêncio com que Deus recobre as actividades dos humanos. Crentes ou descrentes, com Scorsese compreendemos que através de tal desafio podemos pressentir a possibilidade do sagrado.

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Silêncio + Scorsese (2/3)

A estreia de Silêncio, de Martin Scorsese, a 19 de Janeiro, constitui, desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'Martin Scorsese à escuta do silêncio de Deus'.

[ Parte 1 ]

2. "Porquê eu?"

Silêncio vem encerrar aquilo que, a partir de agora, poderemos designar como a “trilogia religiosa” do seu autor, sendo A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997) os dois primeiros momentos. O que os liga é o reconhecimento de uma trágica e comovente desproporção simbólica. Tal como os padres de Silêncio, Jesus e o Dalai Lama, figuras nucleares desses dois filmes, experimentam a vertigem de serem convocados para uma missão propriamente sagrada — a assunção de uma verdade que transcende os dados da existência comum — que lhes suscita uma dúvida radical: serão eles capazes de satisfazer os desígnios da divindade que servem?

Há uma outra maneira de dizer isto: o trabalho dos portadores das palavras da fé não pode deixar de lidar com a vida comum, regressando à terra, às tensões sociais, às convulsões da política. Ou ainda: os protagonistas da missão divina vão ter de reconhecer os limites inerentes à sua condição humana. Um pouco como o Jesus de A Última Tentação de Cristo que, a certa altura, se vira para o Céu, proclamando uma incontornável angústia: “Porquê eu?”.

Escusado será dizer que Scorsese não perde de vista o paradoxo formal e filosófico que assim se instala: por um lado, a expansão da fé remete sempre, por definição, para qualquer “coisa” que está para além do visível; por outro lado, o cinema é essa arte “primitiva” que ambiciona confrontar-se com o invisível, imaginando-o, ou melhor, revertendo-o para o mundo das imagens. Será preciso recordar que Georges Méliès, pioneiro absoluto do poder encantatório das imagens, era exuberantemente homenageado em A Invenção de Hugo?
Daí o peculiar suspense que se vai instalando no desenvolvimento de Silêncio. É verdade que a fé dos protagonistas está para além das imagens (“fumie”) que ilustram a sua crença. Mas não é menos verdade que aquilo que as autoridades japonesas lhes exigem envolve a negação do valor simbólico dessas imagens (literalmente espezinhadas). Mais do que isso: eles vão ter de escolher entre esse acto de conspurcação das imagens e a morte — a morte dos seus irmãos de fé ou a sua própria morte.

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O silêncio que se faz cinema

A propósito de «Silêncio», de Martin Scorsese, muito se tem falado da presença central de personagens portuguesas: na segunda metade do século XVII, dois padres jesuítas portugueses (Andrew Garfield e Adam Driver) são enviados ao Japão para verificar se, de facto, um outro jesuíta português (Liam Neeson) renegou a fé católica, submetendo-se à violência física e emocional das autoridades nipónicas.

Há, de facto, uma essencial dimensão portuguesa na saga dos protagonistas, mas importa não a reduzir a uma mera curiosidade histórica. Afinal de contas, aquilo que Scorsese coloca em cena é uma muito antiga interrogação, com uma perturbante dimensão interior: como assumir as exigências de uma missão divina (neste caso enraizada na fé) que supera os parcos recursos do ser humano?

«Silêncio» serve, assim, para completar uma trilogia de temas religiosos que começou com «A Última Tentação de Cristo» (1988), reinventando a epopeia bíblica de Jesus, e se prolongou através de «Kundun» (1997), um retrato do Dalai Lama. Aquilo que Scorsese coloca obsessivamente em cena é, afinal, a trágica desproporção que se manifesta entre a dimensão humana e o apelo da divindade.

Tal como no romance do japonês Shusaku Endo em que o filme se baseia (editado entre nós pela Dom Quixote), o silêncio que o título nomeia provém, se assim nos podemos exprimir, da própria divindade — os humanos tentam encontrar uma resposta que quebre tal silêncio mas, em boa verdade, é na mais radical introspecção que residirá o essencial do seu destino.

Escusado será sublinhar o desafio formal e narrativo que tal implica. Scorsese é um criador que sabe aplicar os meios específicos do cinema para sondar as regiões mais inacessíveis da experiência humana, suas dúvidas e perplexidades. Em última instância, «Silêncio» desafia também o espectador a superar os seus limites existenciais — uma experiência rara, fascinante.

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«Patterson» de Jim Jarmusch c/ Adam Driver

O título do novo filme de Jim Jarmusch exige alguns esclarecimentos prévios: «Paterson» é o primeiro apelido da personagem principal, interpretada por Adam Driver, é o nome de uma cidade do estado de New Jersey, a cerca de 30 quilómetros de Nova York, e, finalmente, é o título da mais famosa coleção de poesia do autor americano William Carlos Williams (1883-1963). Em «Paterson» (filme), Paterson (a personagem) ama Paterson (o livro). E Paterson, motorista de autocarro, também é poeta, autor de uma escrita prosaica inspirada na banalidade do quotidiano e nos momentos vividos com a sua companheira. Jim Jarmusch torna esta crónica de um dia a dia vivido sem sobressaltos, ritualizado, num poema sentido sobre a simplicidade.

quatro estrelas

Realizador
Jim Jarmusch
Elenco
Adam Driver, Golshifteh Farahani, Helen-Jean Arthur

ESTADOS UNIDOS, 2016

113 min

Momentos CANNES 2016 — Jarmusch (1)

Adam Driver em motorista de autocarro, filmado por Jim Jarmusch: «Paterson» é a história de um homem chamado Paterson que vive na cidade de Paterson, escrevendo poesia e tendo como referência o livro Paterson, de William Carlos Williams. Jarmusch continua a experimentar as variações do seu realismo mágico, seduzido pela insólita transparência do quotidiano e pelas promessas de outros mundos que por ele circulam. Simples e directo. Complexo e metafórico.

Steven Soderbergh - regresso às longas-metragens

Steven Soderbergh que há muito tempo anda a prometer a sua reforma antecipada vai felizmente desiludir os fãs para dirigir Riley Keough em «Logan Lucky», a actriz tem uma performance de sonho em «The Girlfriend Experience» [destaque da edição 38 da Metropolis], uma série produzida por Soderbergh.

O elenco de «Logan Lucky» inclui ainda Adam Driver e Channing Tatum com quem Riley Keough já contracenou em «Magic Mike». Julga-se que Seth MacFarlane também possa estar envolvido no projecto após a saída de Michael Shannon devido a conflitos de agenda. 

O enredo de «Logan Lucky» relata a história de dois irmãos que decidem arquitectar um assalto durante uma popular corrida de automóveis da NASCAR

A última longa-metragem de Steven Soderbergh estreada em Portugal foi «Efeitos Secundários» (2013), um magnifico thriller com Rooney Mara, Channing Tatum e Jude Law, um filme que passou despercebido um pouco por todo mundo.

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