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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

Aaron Sorkin e Jessica Chastain, o casamento perfeito?

A história verídica da polémica ‘Princesa do Póquer’ Molly Bloom é levada ao cinema por Aaron Sorkin, que surge pela primeira vez como realizador. Já Jessica Chastain, que está habituada a interpretar mulheres de personalidade forte e motivações questionáveis, aponta ao Óscar que ainda lhe falta na estante.

A sorte, ou o acaso, é algo que não se resume à Sétima Arte, embora neste caso ocupe um lugar privilegiado, e é responsável por parte do sarcasmo que ocupa os nossos dias. Há quem prefira chamar-lhe destino, mas neste jogo não há espaço para jogadas em falso. Essa inevitabilidade assume contornos irónicos se pensarmos que foi uma conjugação de factores, não relacionados directamente com o filme, que levou o «Jogo da Alta Roda» (2017) – «Molly’s Game» no seu título original – a fechar, no dia 16, o Festival do American Film Institute (AFI). A biografia de Molly Bloom ocupou o lugar antes destinado a «All the Money in the World» (2017), de Ridley Scott, que voltou a gravar diversas cenas para colocar Christopher Plummer no lugar de Kevin Spacey, envolvido recentemente num escândalo sexual, a tempo da estreia no final de dezembro.

A história obscura de Molly Bloom assume contornos de um drama familiar épico, mas é movida pelo submundo do crime, a que só alguns têm acesso. Depois de uma lesão por fim à sua carreira de esquiadora de alta competição, Molly viu os seus sonhos desabarem com estrondo. No entanto, condenada a fracassar, conseguiu contrariar o azar e reclamar a sua sorte num esquema de jogos milionários nas sombras do glamour norte-americano. As aventuras da ‘Princesa do Póquer’ foram retratadas nos tabloides, com o outro lado a chegar na voz de Molly, que publicou pouco tempo depois do desenlace, em 2014, um livro que desmontava a sua conquista e ruína no mundo do jogo underground, populado por estrelas de Hollywood, bilionários de Wall Street e até pela Máfia russa. No entanto, os inimigos de Molly não estavam apenas no mundo do jogo ilegal; ao mesmo tempo que a vida clandestina lhe enchia os bolsos, e a tornava um caso raro e sério de sucesso entre as mulheres da sua geração, despertava também a atenção do FBI.

Aaron Sorkin já provou que sabe escrever biografias, evidência atestada, por exemplo, pelo Óscar de Melhor Argumento Adaptado que recebeu por «A Rede Social» (2011), mas é um ‘caloiro’ no que à realização diz respeito. Criador de algumas das melhores séries dos últimos 20 anos, como «Os Homens do Presidente» e «The Newsroom», Sorkin notabilizou-se pelo seu estilo mais literário, e com discursos longos capazes de transformarem as suas personagens em verdadeiros gigantes, capazes de roubar qualquer cena. Os seus monólogos beneficiam, há décadas, atores e realizadores, contrariando a tendência de que o poder do cinema está sobretudo na imagem, o que contribuiu, também, para que chegue à estreia na realização com um leque considerável de fãs do seu estilo. Acostumado a quebrar limites e ideias feitas, quer fazê-lo outra vez.

R molly sgame 01

Se o seu legado fala por si, a verdade é que ao leme das câmaras ainda tem muito a provar. Sobretudo se tivermos em conta que, contrariamente ao que talvez fosse expectável, coloca uma mulher no centro do seu primeiro filme como ‘agente duplo’, argumentista e realizador. É que, embora seja um nome incontornável no pequeno e grande ecrã, Sorkin está habituado a receber críticas pela construção das suas personagens femininas, muitas vezes utilizadas como ‘acessório’ em narrativas lideradas por homens fortes. Em filmes e séries do autor, as mulheres chegam a ser apenas mais uma ferramenta para o núcleo principal brilhar, ainda que, a espaços, tenham alguma oportunidade para crescer – veja-se o caso de Maggie Jordan (Alison Pill) e Sloan Sabbith (Olivia Munn) na série «The Newsroom». Na hora da verdade, será Sorkin capaz de provar, de uma só vez, a sua qualidade como realizador e escritor de personagens femininas, ou deu um passo maior do que a perna?

Outra das opções inusitadas do realizador foi a escolha de Jessica Chastain para interpretar Molly Bloom, dos 20 e poucos anos a meados dos 30. A atriz norte-americana – que, curiosamente, sempre optou por não revelar a sua idade publicamente, por achar que poderia ser prejudicada – fez 40 anos em março. Não sendo uma questão determinante do filme, e muito menos um aspeto negativo, a verdade é que a contratação de Jessica Chastain contribui para uma nova perspetiva sobre uma velha questão: se as atrizes na casa dos 30 e mais anos se queixam que as personagens da sua faixa etária são interpretadas por atrizes bem mais novas, podem as atrizes jovens queixar-se agora do contrário? Ou, em vez disso, trata-se de uma lufada de ar fresco num estigma nem sempre debatido publicamente? Por sua vez, o papel de Molly adolescente cabe a Samantha Isler, que há um ano brilhou em «Capitão Fantástico» (2016).

O duo de principais ‘trunfos’ de Aaron Sorkin, como é reconhecido pelo próprio, fica completo com Idris Elba. Jessica e Idris já tinham partilhado o palco do Teatro Dolby nos Óscares 2015, altura em que entregaram a estatueta de Melhor Fotografia a «Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)» (2014), mas nunca se tinham cruzado no grande ecrã. Sorkin gaba-se desse feito e apoia nestes dois atores o essencial da história que quer contar. Idris será Charlie Jaffey, o advogado de defesa de Molly e o seu único aliado, parte absolutamente fulcral de toda a trama que se vai desenvolver. Entre o restante elenco, destacam-se Kevin Costner como Larry Bloom, Michael Cera como o ‘Jogador X’ e Brian d'Arcy James como o ‘Mau Brad’. Joe Keery, o Steve de «Stranger Things», e Bill Camp também marcam presença. É caso para dizer que, tal como Molly Bloom, Jessica Chastain é uma mulher determinada a vencer num mundo de homens.

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O outro lado do glamour: a queda da lenda (ou quase)
Tudo corria bem a Molly Bloom, ou assim parecia. Esquiadora olímpica e bastante promissora, viu o seu mundo desabar e reconstruiu-o a partir dos destroços. Fazia carreira nas sombras, consolidando-se como nome a ter em conta no que ao póquer de classe alta – e alto risco – dizia respeito, contrariando todas as jogadas que a visavam colocar ‘fora de jogo’. Os primeiros jogos de póquer tiveram lugar em 2004, numa altura em que Molly servia cocktails e amealhava, por noite, 3 mil dólares em gorjetas.
O negócio cresceu de forma imparável e, quatro anos depois, já ocupava diferentes espaços e Molly liderava um império construído a pulso, onde algumas jogadas chegavam à casa dos milhões. Entre os seus clientes contavam-se, por exemplo, estrelas de Hollywood, como Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Ben Affleck e Matt Damon. Molly chegou a arrecadar quatro milhões por ano pela organização destes jogos ilegais, sendo que, a certa altura, Toby Maguire terá oferecido 1000 dólares para ela imitar uma foca, algo que a jovem magnata recusou.

Em 2011, todavia, a história não teve um final feliz. O FBI invadiu um dos jogos e, apesar de Molly estar nessa altura fora da cidade, tornou-se o centro de uma polémica investigação, desenhada no mundo do crime mas também no dos tablóides. A queda da lenda e do império anunciava-se e, em sucessivos golpes e contragolpes, adensava-se a teia de intrigas e ilegalidades que Molly construíra ao longo de quase uma década. No entanto, e apesar de a jovem ter optado por contar o que passou na primeira pessoa, Sorkin não depende exclusivamente do livro, abordando, nomeadamente, o abuso de drogas de Molly, que ela não abordou em 2014.
Num autêntico ‘colapso’ de estrelas, Kevin Costner e Idris Elba são os dois homens fortes da história que Jessica Chastain protagoniza. Por um lado, a relação de Molly Bloom com o pai, Larry, assume contornos densos e, com um desenvolvimento sobretudo apoiado nas palavras, humaniza uma personagem marcada pela sua desumanização. Já a relação com o advogado Charlie Jaffey surge como o outro prato da balança, uma vez que ele se torna o único aliado de Molly, colocada no centro para ‘pagar’ as contas de um negócio rechado de magnatas do crime. Condenada a cair, quer pelos pares quer pela imprensa, Molly tinha mais um desafio à sua alta: mostrar que, contra todas as expectativas, ainda tinha uma palavra a dizer.

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Vencer o estereótipo
Da mesma forma que Aaron Sorkin quer derrotar as ideias pré-concebidas a seu respeito, também a imagem de Molly Bloom assume novos contornos, mais profundos e pormenorizados, à medida que é explorada pelos diálogos de Sorkin e reimaginada por Jessica Chastain. A atriz está habituada à ambivalência das suas personagens, como é o caso de «Miss Sloane - Uma Mulher de Armas» (2016), e as biografias não a assustam – ainda este ano protagonizou «O Jardim da Esperança» (2017).
“É uma história das Kardashian”. A comparação, feita por Jessica Chastain à Deadline, estabelece um paralelismo improvável entre a primeira impressão de Jessica quando pesquisou Molly Bloom e a personagem que foi construindo ao longo de vários meses. “Estava a julgá-la pelas roupas dela, pela maquilhagem; mas, em muitos casos, as mulheres têm de se apresentar de determinada forma, para encontrar sucesso numa indústria onde os homens ditam as regras”, desenvolveu a atriz. Para se inspirar, Jessica confessou à Deadline ter colocado imagens das Kardashian no seu camarim, de modo a interiorizar essa ideia. No entanto, quando conheceu Molly, percebeu que ela era o oposto do estereótipo.

A vida de Molly pode ter melhorado por um (quase) golpe de sorte, mas não foi por acaso que ela se conseguiu manter no topo. Contrariando a ideia de uma jovem mimada que consegue, às custas do crime, manter um determinado modo de vida, Molly é uma figura surpreendentemente densa e... ética. Assim como noutras obras de Sorkin, a personagem principal é movida por um forte sentido de ética e responsabilidade, pelo que é incapaz de aceitar a saída fácil. Tal como aconteceu com o livro publicado em 2014, Sorkin também desmonta a ideia fácil e imediata passada pelos tabloides, desenvolvendo a individualidade de Molly tanto quanto possível, seja através do discurso, seja através do poder agora concedido pela câmara. Com a curiosidade em alta, ficaremos a saber em breve se o “Sorkin, o realizador” está à altura da reputação que construiu ao longo de décadas. E se Jessica Chastain e Idris Elba são capazes de fazer ‘mossa’ na época de prémios.

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº55 - Dezembro 2017]

  • Publicado em Feature

Aaron Sorkin e Jessica Chastain, o casamento perfeito?

A história verídica da polémica ‘Princesa do Póquer’ Molly Bloom é levada ao cinema por Aaron Sorkin, que surge pela primeira vez como realizador. Já Jessica Chastain, que está habituada a interpretar mulheres de personalidade forte e motivações questionáveis, aponta ao Óscar que ainda lhe falta na estante.

A sorte, ou o acaso, é algo que não se resume à Sétima Arte, embora neste caso ocupe um lugar privilegiado, e é responsável por parte do sarcasmo que ocupa os nossos dias. Há quem prefira chamar-lhe destino, mas neste jogo não há espaço para jogadas em falso. Essa inevitabilidade assume contornos irónicos se pensarmos que foi uma conjugação de factores, não relacionados directamente com o filme, que levou o «Jogo da Alta Roda» (2017) – «Molly’s Game» no seu título original – a fechar, no dia 16, o Festival do American Film Institute (AFI). A biografia de Molly Bloom ocupou o lugar antes destinado a «All the Money in the World» (2017), de Ridley Scott, que voltou a gravar diversas cenas para colocar Christopher Plummer no lugar de Kevin Spacey, envolvido recentemente num escândalo sexual, a tempo da estreia no final de dezembro.

A história obscura de Molly Bloom assume contornos de um drama familiar épico, mas é movida pelo submundo do crime, a que só alguns têm acesso. Depois de uma lesão por fim à sua carreira de esquiadora de alta competição, Molly viu os seus sonhos desabarem com estrondo. No entanto, condenada a fracassar, conseguiu contrariar o azar e reclamar a sua sorte num esquema de jogos milionários nas sombras do glamour norte-americano. As aventuras da ‘Princesa do Póquer’ foram retratadas nos tabloides, com o outro lado a chegar na voz de Molly, que publicou pouco tempo depois do desenlace, em 2014, um livro que desmontava a sua conquista e ruína no mundo do jogo underground, populado por estrelas de Hollywood, bilionários de Wall Street e até pela Máfia russa. No entanto, os inimigos de Molly não estavam apenas no mundo do jogo ilegal; ao mesmo tempo que a vida clandestina lhe enchia os bolsos, e a tornava um caso raro e sério de sucesso entre as mulheres da sua geração, despertava também a atenção do FBI.

Aaron Sorkin já provou que sabe escrever biografias, evidência atestada, por exemplo, pelo Óscar de Melhor Argumento Adaptado que recebeu por «A Rede Social» (2011), mas é um ‘caloiro’ no que à realização diz respeito. Criador de algumas das melhores séries dos últimos 20 anos, como «Os Homens do Presidente» e «The Newsroom», Sorkin notabilizou-se pelo seu estilo mais literário, e com discursos longos capazes de transformarem as suas personagens em verdadeiros gigantes, capazes de roubar qualquer cena. Os seus monólogos beneficiam, há décadas, atores e realizadores, contrariando a tendência de que o poder do cinema está sobretudo na imagem, o que contribuiu, também, para que chegue à estreia na realização com um leque considerável de fãs do seu estilo. Acostumado a quebrar limites e ideias feitas, quer fazê-lo outra vez.

R molly sgame 01

Se o seu legado fala por si, a verdade é que ao leme das câmaras ainda tem muito a provar. Sobretudo se tivermos em conta que, contrariamente ao que talvez fosse expectável, coloca uma mulher no centro do seu primeiro filme como ‘agente duplo’, argumentista e realizador. É que, embora seja um nome incontornável no pequeno e grande ecrã, Sorkin está habituado a receber críticas pela construção das suas personagens femininas, muitas vezes utilizadas como ‘acessório’ em narrativas lideradas por homens fortes. Em filmes e séries do autor, as mulheres chegam a ser apenas mais uma ferramenta para o núcleo principal brilhar, ainda que, a espaços, tenham alguma oportunidade para crescer – veja-se o caso de Maggie Jordan (Alison Pill) e Sloan Sabbith (Olivia Munn) na série «The Newsroom». Na hora da verdade, será Sorkin capaz de provar, de uma só vez, a sua qualidade como realizador e escritor de personagens femininas, ou deu um passo maior do que a perna?

Outra das opções inusitadas do realizador foi a escolha de Jessica Chastain para interpretar Molly Bloom, dos 20 e poucos anos a meados dos 30. A atriz norte-americana – que, curiosamente, sempre optou por não revelar a sua idade publicamente, por achar que poderia ser prejudicada – fez 40 anos em março. Não sendo uma questão determinante do filme, e muito menos um aspeto negativo, a verdade é que a contratação de Jessica Chastain contribui para uma nova perspetiva sobre uma velha questão: se as atrizes na casa dos 30 e mais anos se queixam que as personagens da sua faixa etária são interpretadas por atrizes bem mais novas, podem as atrizes jovens queixar-se agora do contrário? Ou, em vez disso, trata-se de uma lufada de ar fresco num estigma nem sempre debatido publicamente? Por sua vez, o papel de Molly adolescente cabe a Samantha Isler, que há um ano brilhou em «Capitão Fantástico» (2016).

O duo de principais ‘trunfos’ de Aaron Sorkin, como é reconhecido pelo próprio, fica completo com Idris Elba. Jessica e Idris já tinham partilhado o palco do Teatro Dolby nos Óscares 2015, altura em que entregaram a estatueta de Melhor Fotografia a «Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)» (2014), mas nunca se tinham cruzado no grande ecrã. Sorkin gaba-se desse feito e apoia nestes dois atores o essencial da história que quer contar. Idris será Charlie Jaffey, o advogado de defesa de Molly e o seu único aliado, parte absolutamente fulcral de toda a trama que se vai desenvolver. Entre o restante elenco, destacam-se Kevin Costner como Larry Bloom, Michael Cera como o ‘Jogador X’ e Brian d'Arcy James como o ‘Mau Brad’. Joe Keery, o Steve de «Stranger Things», e Bill Camp também marcam presença. É caso para dizer que, tal como Molly Bloom, Jessica Chastain é uma mulher determinada a vencer num mundo de homens.

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O outro lado do glamour: a queda da lenda (ou quase)
Tudo corria bem a Molly Bloom, ou assim parecia. Esquiadora olímpica e bastante promissora, viu o seu mundo desabar e reconstruiu-o a partir dos destroços. Fazia carreira nas sombras, consolidando-se como nome a ter em conta no que ao póquer de classe alta – e alto risco – dizia respeito, contrariando todas as jogadas que a visavam colocar ‘fora de jogo’. Os primeiros jogos de póquer tiveram lugar em 2004, numa altura em que Molly servia cocktails e amealhava, por noite, 3 mil dólares em gorjetas.
O negócio cresceu de forma imparável e, quatro anos depois, já ocupava diferentes espaços e Molly liderava um império construído a pulso, onde algumas jogadas chegavam à casa dos milhões. Entre os seus clientes contavam-se, por exemplo, estrelas de Hollywood, como Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Ben Affleck e Matt Damon. Molly chegou a arrecadar quatro milhões por ano pela organização destes jogos ilegais, sendo que, a certa altura, Toby Maguire terá oferecido 1000 dólares para ela imitar uma foca, algo que a jovem magnata recusou.

Em 2011, todavia, a história não teve um final feliz. O FBI invadiu um dos jogos e, apesar de Molly estar nessa altura fora da cidade, tornou-se o centro de uma polémica investigação, desenhada no mundo do crime mas também no dos tablóides. A queda da lenda e do império anunciava-se e, em sucessivos golpes e contragolpes, adensava-se a teia de intrigas e ilegalidades que Molly construíra ao longo de quase uma década. No entanto, e apesar de a jovem ter optado por contar o que passou na primeira pessoa, Sorkin não depende exclusivamente do livro, abordando, nomeadamente, o abuso de drogas de Molly, que ela não abordou em 2014.
Num autêntico ‘colapso’ de estrelas, Kevin Costner e Idris Elba são os dois homens fortes da história que Jessica Chastain protagoniza. Por um lado, a relação de Molly Bloom com o pai, Larry, assume contornos densos e, com um desenvolvimento sobretudo apoiado nas palavras, humaniza uma personagem marcada pela sua desumanização. Já a relação com o advogado Charlie Jaffey surge como o outro prato da balança, uma vez que ele se torna o único aliado de Molly, colocada no centro para ‘pagar’ as contas de um negócio rechado de magnatas do crime. Condenada a cair, quer pelos pares quer pela imprensa, Molly tinha mais um desafio à sua alta: mostrar que, contra todas as expectativas, ainda tinha uma palavra a dizer.

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Vencer o estereótipo
Da mesma forma que Aaron Sorkin quer derrotar as ideias pré-concebidas a seu respeito, também a imagem de Molly Bloom assume novos contornos, mais profundos e pormenorizados, à medida que é explorada pelos diálogos de Sorkin e reimaginada por Jessica Chastain. A atriz está habituada à ambivalência das suas personagens, como é o caso de «Miss Sloane - Uma Mulher de Armas» (2016), e as biografias não a assustam – ainda este ano protagonizou «O Jardim da Esperança» (2017).
“É uma história das Kardashian”. A comparação, feita por Jessica Chastain à Deadline, estabelece um paralelismo improvável entre a primeira impressão de Jessica quando pesquisou Molly Bloom e a personagem que foi construindo ao longo de vários meses. “Estava a julgá-la pelas roupas dela, pela maquilhagem; mas, em muitos casos, as mulheres têm de se apresentar de determinada forma, para encontrar sucesso numa indústria onde os homens ditam as regras”, desenvolveu a atriz. Para se inspirar, Jessica confessou à Deadline ter colocado imagens das Kardashian no seu camarim, de modo a interiorizar essa ideia. No entanto, quando conheceu Molly, percebeu que ela era o oposto do estereótipo.

A vida de Molly pode ter melhorado por um (quase) golpe de sorte, mas não foi por acaso que ela se conseguiu manter no topo. Contrariando a ideia de uma jovem mimada que consegue, às custas do crime, manter um determinado modo de vida, Molly é uma figura surpreendentemente densa e... ética. Assim como noutras obras de Sorkin, a personagem principal é movida por um forte sentido de ética e responsabilidade, pelo que é incapaz de aceitar a saída fácil. Tal como aconteceu com o livro publicado em 2014, Sorkin também desmonta a ideia fácil e imediata passada pelos tabloides, desenvolvendo a individualidade de Molly tanto quanto possível, seja através do discurso, seja através do poder agora concedido pela câmara. Com a curiosidade em alta, ficaremos a saber em breve se o “Sorkin, o realizador” está à altura da reputação que construiu ao longo de décadas. E se Jessica Chastain e Idris Elba são capazes de fazer ‘mossa’ na época de prémios.

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº55 - Dezembro 2017]

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Molly´s Game

Molly Bloom passou de uma esquiadora de classe olímpica para organizadora de jogos de poker altamente exclusivos, acabando por ser presa a meio da noite por 17 agentes armados do FBI. Uma personagem complexa e ambiciosa, à medida de uma atriz recheada de talento, Jessica Chastain. A norte-americana continua a lutar pelo seu primeiro Óscar, após ter sido nomeada na categoria de Melhor Atriz Secundária por «As Serviçais» (2011) e na de Melhor Atriz Principal por «00:30 A Hora Negra» (2012). «Molly’s Game» apresenta-se como uma oportunidade audaciosa para, pelo menos, mais uma indicação. A acompanhá-la está um seguro grupo de atores, composto por nomes como Idris Elba, Kevin Costner e Bill Camp mas, é claro, Chastain é a rainha e senhora, numa escolha feita pela própria Molly Bloom, considerada a “Princesa de Póquer de Hollywood”.

O reconhecido argumentista Aaron Sorkin – vencedor do Óscar de Melhor Argumento Adaptado por «Moneyball - Jogada de Risco» (2011) – dá o salto para trás das câmaras e realiza a sua primeira obra. Para este desafio, adaptou o livro de memórias de Molly Bloom, numa história real e surpreendente. Esta é a total estreia enquanto realizador para Sorkin, já que não chegou a dirigir qualquer outra produção, nem mesmo de alguma das séries que criou, como «The Newsroom». Sorkin atingiu o sucesso tanto no cinema como na televisão: «Os Homens do Presidente» venceu 26 Emmys nas suas sete temporadas e os filmes em que assinou o argumento arrecadaram mais de 800 milhões de dólares nas bilheteiras.

Para o cineasta, «Molly’s Game» é cinema de super-heróis, tendo-se encantado pela história após ler o livro de memórias de Bloom e de uma hora a falar com ela, tomando a decisão de, pela primeira vez, também realizar. «Molly’s Game teve estreia no Festival de Cinema de Toronto e é um dos biopics mais aguardados da temporada.

HISTÓRIA
A história real da esquiadora Molly Bloom que, após ter perdido a oportunidade de participar nos Jogos Olímpicos, resolve trabalhar como empregada de mesa em Los Angeles mas acaba, algum tempo depois, por se tornar milionária ao organizar os mais exclusivos jogos de póquer da região.

Data de estreia prevista: 4 de janeiro de 2018

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«Molly's Game» - Aaron Sorkin + Jessica Chastain

Aaron Sorkin, argumentista das séries «Os Homens do Presidente» (1999-2006) e «The Newsroom» (2012-2014), e de filmes como «A Rede Social» (David Fincher, 2010) e «Steve Jobs» (Danny Boyle, 2015), estreia-se na realização com «Molly's Game» — trata-se da adaptação do livro homónimo de Molly Bloom que, durante alguns anos, dirigiu um clube privado de poker frequentado por algumas das figuras mais poderosas de Hollywood.

Para além da expectativa suscitada pelo novo trabalho daquele que é um dos mais notáveis argumentistas da actualidade, não será arriscado supor que, no papel de Molly, Jessica Chastain surgirá, no mínimo, na linha da frente para uma nova nomeação para o Oscar. Seja como for, registe-se que Molly's Game será revelado em Setembro no Festival de Toronto, chegando aos ecrãs dos EUA no dia 22 de Novembro.

>>> Trailer de Molly's Game + extracto de uma conversa com Aaron Sorkin na Loyola Marymount University, em 2016 + entrevista de CinemaBlend com Aaron Sorkin e Jessica Chastain, no ComicCon 2017.

 

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