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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

«A Herdade» - crítica

Veneza, Toronto, a nomeação de Portugal para a corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional e o candidato português a uma nomeação para os Prémios Goya, na categoria de Melhor Filme Ibero-americano. «A Herdade» só agora estreou e já coleciona nomeações, standing ovations e diversas críticas dos mais conhecidos meios internacionais.

O filme de Tiago Guedes parte de uma ideia do produtor Paulo Branco, que há oito anos delineou na sua cabeça uma história sobre um latifundiário, proprietário de uma das maiores herdades da Europa, a sul do Tejo, desde os anos 40, atravessando a Revolução do 25 de Abril e até aos dias de hoje. Partindo da história desta família, o argumento escrito a seis mãos acaba por fazer um retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal.

No entanto, o argumento originalmente escrito pelo autor e cronista Rui Cardoso Martins, e depois por Tiago Guedes e com a colaboração de Gilles Taurand, vai muito para além deste retrato sociopolítico de um país à beira de uma revolução, no pós-revolução ou na atualidade. Na verdade, o filme de Tiago Guedes parece estar construído em camadas e depois de entrarmos em «A Herdade», é a tensão e a relação entre personagens que prende a nossa atenção. Ao mesmo tempo que vemos um latifundiário – Albano Jerónimo, no papel de João Fernandes – a gerir a sua herdade em tempos de bonança e de crise, é sobretudo a sua relação com as mulheres, com os filhos, com os empregados e até com o imponente cavalo Suão que nos cativa.

Tiago Guedes faz-nos uma visita guiada ao Portugal dos anos 70 e à forma como a política denunciava o seu poder, com apontamentos deliciosos e diálogos que nunca são em vão, caracterizados nos trabalhadores da herdade. No entanto, o grande quadro que o realizador, e a mestria de Roberto Perpignani, nos deixa observar é o fardo acalentado pelas famílias patriarcais, que enunciaram a nossa História e, sobretudo, a herança que pais passam para filhos e a forma como isso vai transformar a vida destes e dos seus sucessores. Não existe espaço para os fracos.

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Mas «A Herdade» não seria o mesmo filme se não contasse com as fantásticas prestações de Albano Jerónimo e de Sandra Faleiro nos papéis de protagonistas, assim como o contributo de atores como Miguel Borges, Ana Vilela da Costa, João Vicente, Vitória Guerra ou Ana Bustorff, ou até dos mais novos Beatriz Brás e João Pedro Mamede. Pela primeira vez como protagonista em cinema, Albano Jerónimo foi uma escolha imediata do realizador e percebe-se porquê. Altivo, é rude e bruto quando tem de ser, mas reclama igualmente como que um pedido de perdão e o seu charme é irresistível. Sandra Faleiro tem aqui, igualmente, a oportunidade para reforçar o seu talento, que lhe valeu inclusive uma nomeação para Melhor Atriz (Taça Volpi) no Festival de Veneza, ao lado de nomes como Meryl Streep, Juliette Binoche, Penélope Cruz ou Scarlett Johansson. No papel de Leonor, esposa do “grande” João Fernandes, Sandra Faleiro fala com o olhar e o seu silêncio é mais ruidoso e gritante do que muitas frases que poderia proferir enquanto filha de um general e casada com um latifundiário que não enquadra a palavra “fidelidade” no seu dicionário.

Com planos abertos e grandes planos que nos remetem para alguns dos melhores títulos do cinema de autor, «A Herdade» é um universo paralelo à história de um país, no qual os melhores momentos estão reservados às relações familiares, às amizades corrompidas e aos segredos capazes de decapitar famílias. «A Herdade» é, por isso, um filme muito completo, que nos remete para um estatuto de clássico, sem medo de dar novas perspetivas, de arriscar e de contar histórias que são, afinal, intemporais e capazes de provocar emoções, que obviamente não serão todas iguais nem assim têm que o ser.

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Não há motivos para não se ter orgulho num filme português que conquistou já muito de um caminho que se deseja longo. Por vezes, é importante largarmos as capas de descrentes e simplesmente termos a capacidade de acreditar e assumir que não é vulnerabilidade ou vergonha afirmar que temos o mesmo direito e qualidade para estar ao nível do que de melhor se faz “lá fora”. Aliás, a palavra “orgulho” devia ser generosamente aplicada em casos como este, em que temos equipas técnicas, atores e realizadores a fazer cinema com orçamentos muito inferiores aos que existem na indústria internacional, e que mesmo assim conseguem impor-se ao lado dos grandes. Um filme “funciona” quando uma história é bem contada e toca aqueles que a veem e, muitas vezes, deveríamos simplesmente esquecer a procura da perfeição ou do erro, e apenas sentir.

«A Herdade» é “uma grande película” como alguém dizia durante o visionamento. É um filme sobre um período fulcral da nossa História, mas é antes disso tudo, um quadro sobre a maior das dimensões e das herdades, a do ser humano, o maior dos latifúndios, onde a sombra cai, mas onde a luz ilumina e nos iguala enquanto seres. Tiago Guedes e o seu elenco oferecem-nos um filme que, acima de um enredo bem construído e de incríveis personagens, nos traz aquilo que melhor define o universo humano: a capacidade de sentir emoções, a importância da família, a oportunidade de redenção e a eterna procura da valorização e do amor.

cinco estrelas

  • Publicado em Feature

«A Herdade» - Cenas da vida portuguesa: 1970 – 2010

No outono vamos descobrir «A Herdade». O mais recente filme realizado por Tiago Guedes e produzido por Paulo Branco. Uma saga sobre uma família e quatro décadas da história recente de Portugal. 

A rentrée do cinema vai ser marcada pela estreia nacional do filme «A Herdade» de Tiago Guedes. Desde logo porque chegará aos cinemas nacionais a 19 setembro, duas semanas após a estreia mundial na seleção oficial competitiva da 76ª edição do festival de Veneza, o mais antigo do mundo e que nos últimos anos tem recuperado muita da relevância perdida para Cannes.

A seleção de Veneza é exigente e ingrata para o cinema português. Basta constatar que «A Herdade» é o primeiro filme de um realizador nacional a competir pelo Leão de Ouro em 14 anos. Tiago Guedes considera que esta escolha “tem um significado enorme, porque não há melhor forma de estrear um filme. Um festival com o prestígio e dimensão como o de Veneza, selecionar o meu filme para estar entre um grupo restrito de enormes realizadores tem um enorme impacto em mim.” Em resposta a várias perguntas da METROPOLIS, acrescenta que sente “orgulho em contribuir para voltarmos a ver o nome do país numa tão prestigiada competição.”

Este filme foi desenvolvido durante oito anos pelo produtor Paulo Branco e filmado em 2018. Tiago Guedes tomou conhecimento da história quando já existia um primeiro argumento escrito por Rui Cardoso Martins. “Eu senti a necessidade de mudar algumas coisas de forma e apoderar-me do filme de uma forma mais intrínseca. Penso que a grande mudança que fiz foi no sentido de procurar entrar numa zona interna e profunda dos personagens principais, quis muito perder tempo com eles.”

A herdade é o local onde a história familiar sucede. “Fica na Barroca [Alcochete, distrito de Setúbal] e foi escolhida de forma natural. O argumento original foi escrito baseado nela, e depois ao procurarmos locais foi a que melhor funcionou. O que fez sentido.” O realizador reside em Lisboa e não tem contacto com esta realidade. “Eu não tinha uma relação pessoal com estas grandes propriedades rurais, mas durante toda a pesquisa e a preparação foi muito interessante conseguir ver os diferentes lados dessas mudanças. O facto de ter vivido oito anos, recentemente, no Alentejo fez-me sentir de forma natural todas as paisagens do filme.”

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É ali que seguimos o percurso de um grande proprietário rural, a evolução das relações afetivas, o crescimento dos filhos, e todo um largo período histórico do país, desde os derradeiros anos do Estado Novo até à recente situação de emergência financeira que justificou a intervenção da troika. Estamos perante uma narrativa que abraça quarenta anos da história social e política do país, o que levou Tiago Guedes a ajustar os avanços e recuos que existiam na primeira versão do argumento. “Reduzi a quantidade de saltos temporais que existiam e concentrei tudo em apenas duas épocas grandes (anos 70 e anos 90) e mais um pequeno prólogo. Foquei muito o nervo central do filme nas ‘heranças’ emocionais que se recebem dos pais e das que se deixam para os filhos.”

Durante este amplo período histórico sentimos o crescimento das personagens centrais interpretadas por Albano Jerónimo e Sandra Faleiro, o casal que gere os assuntos de família e da propriedade. “Para o papel da Sandra ainda vi mais algumas pessoas mas o Albano foi uma escolha direta. Nos meus trabalhos com os atores quero sempre que eles os levem ao limite das suas capacidades. E acabou por ser simples, porque me parecem ser do tipo de atores que não sabem trabalhar de outra forma.”

Perguntámos diretamente ao realizador se lidar com a mudança física e a aparência dos atores foi a maior dificuldade que sentiu, e a resposta identificou outro problema especifico de um filme de época. “As caracterizações, o envelhecimentos e/ou rejuvenescimentos são sempre difíceis, mas penso que o mais complicado é sempre filmar na cidade de Lisboa e tentar ‘refazer’ época, porque está tudo cheio de modernices e de turistas.”

«A Herdade» poderá ser visto em setembro, mas o filme anterior de Tiago Guedes, uma comédia sobre adolescência e paternidade chamada «Tristeza e Alegria na Vida das Girafas», só foi exibido numa sessão do festival IndieLisboa 2019 e ainda não teve estreia nem distribuição comercial.

“Quis o destino (ou os distribuidores) que «A Herdade» estreasse antes da «Tristeza e Alegria na Vida das Girafas». A previsão para essa estreia é finais de Novembro."

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