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Actualizado às 2:55 PM, Oct 22, 2019

Quentin Tarantino - O verdadeiro Cinéfilo

Começou por surpreender em Cannes, primeiro com «Cães Danados», depois «Pulp Fiction» (que lhe valeu a Palma de Ouro): Quentin Tarantino é um genuíno cinéfilo e um obstinado experimentador.

Na edição de 1992 do Festival de Cannes, fui um dos elementos do júri da Câmara de Ouro (melhor primeira obra), presidido por André Delvaux. Entre o choque e o fascínio, descobrimos um filme chamado «Reservoir Dogs», assinado por um tal Quentin Tarantino. Na verdade, ninguém sabia muito bem como classificar aquela avalancha de cinefilia e ironia, crueldade e metafísica, organizada a partir de uma admirável precisão dramatúrgica (em qualquer caso, a distinção iria para Mac, o primeiro filme realizado por John Turturro). Seja como for, Tarantino regressaria a Cannes dois anos mais tarde, arrebatando a Palma de Ouro com «Pulp Fiction».

O seu cinema sempre conservou a mesma estranheza visceral, tanto mais paradoxal quanto nasce de uma continuada celebração dos elementos mais realistas. Afinal de contas, tanto «Reservoir Dogs» (que seria lançado entre nós com o título «Cães Danados»), como «Pulp Fiction», alimentam-se de uma espécie de fúria devoradora dos códigos clássicos do “thriller”, para os refazerem como uma celebração de tal modo delirante e irrealista que, à falta de melhor, poderemos descrevê-la como qualquer coisa de operático.

É certo que a música mais emblemática dos filmes de Tarantino provém do mundo do rock. De qualquer modo, as singularidades do seu cinema colam-se ao primado do argumento e às suas muito clássicas virtudes. Voltou aos labirintos do “thriller”, com «Jackie Brown» (1997), porventura o seu filme mais perfeito, baseado num romance (Rum Punch) do genial Elmore Leonard; envolveu-se com as memórias mitológicas do “kung fu” em «Kill Bill», dividido em dois volumes (2003/2004); com «Sacanas sem Lei» (2009), desafiou todos os códigos de historicidade e verosimilhança associados ao “filme de guerra”; enfim, «Django Libertado» (2012) irrompeu como uma explosão de criatividade em torno, e para além, das leis clássicas do “western”.

Agora, com «The Hateful Eight» (com estreia portuguesa em 2016, ainda em data por anunciar), não só regressa ao “western”, como aposta na recuperação do formato 70mm, a ponto de conseguir que a estreia americana do filme, no dia de Natal, ocorra em cerca de uma centena de salas equipas ou reequipadas com sistemas de projecção daquele formato que marcou, de forma gloriosa, as superproduções da década de 60. Na verdade, Tarantino é um verdadeiro cinéfilo: para ele, não se trata apenas de revisitar e reinventar os velhos modelos de espectáculo, mas também de reencontrar as condições espectaculares do seu consumo. 

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Modificado emsexta, 13 maio 2016 22:37

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