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Actualizado às 11:49 PM, Nov 20, 2019

«Uma História de Amor e Trevas» - Natalie Portman Actriz/Realizadora

A INSPIRAÇÃO DO FILME

A atriz Natalie Portman aventura-se na realização, remetendo às suas raízes para a criação de uma obra pensada ao pormenor: «Uma História de Amor e Trevas». O filme, baseado no livro biográfico de Amos Oz, teve estreia no último Festival de Cannes e chega agora às salas portuguesas. Natalie Herslag, que adotou o nome artístico de Natalie Portman, nasceu em Israel mas cedo emigrou para os EUA com a família, quando tinha apenas 3 anos de idade. Mas a atriz nunca esqueceu as suas raízes e o seu primeiro filme enquanto realizadora é uma espécie de carta de amor ao seu país natal. E é assim que surge «Uma História de Amor e Trevas», um filme de época passado em Jerusálem, na década de 1940, narrando os acontecimentos exatamente antes e depois da fundação de Israel. Todavia, o foco é na infância do jovem Amos (Amir Tessler) e a influência que a sua mãe, Fania (Portman), teve na sua vida.

O filme baseia-se no livro biográfico “Uma História de Amor e Trevas”, lançado em 2002 e que rapidamente conquistou a crítica. O autor é Amos Oz, um dos principais nomes da literatura israelita. Desde 1967, tem vindo a ganhar posição enquanto ativista, defendendo uma solução de dois estados no conflito israelo-palestiniano. Uma figura que inspirou Portman a seguir em frente com o projeto: “Ele é o líder do movimento de paz em Israel, a pessoa mais promotora da paz e com um diálogo inspirador, o maior apoiante de uma solução de dois estados e, desde o início, o mais forte crítico da ocupação da Cisjordânia”. Os vários mitos e realidades sobre o doloroso nascimento de Israel são a base do livro e, portanto, Oz seria a pessoa ideal para retratar o nascimento do seu país natal, mas Portman assinala que a obra foca-se na jornada singular de uma família, “uma história particular sobre uma família num momento particular da história, tendo em conta o seu ponto de vista particular”. A cineasta refere que o escritor não esteve presente na estreia do filme no Festival de Cannes porque “disse que seria demasiado emocional e desconfortável para ele”. Não obstante, Oz demonstrou o seu apoio público ao trabalho de Portman, sendo “muito generoso e caloroso”.

Uma das preocupações centrais da agora cineasta era “investigar a mitologia” subjacente à criação de Israel, bem como a forma como Oz usa a mitologia na sua obra: “Era absolutamente o tema essencial, a ideia da mitologia através de histórias, que são a nossa forma de construir a nossa identidade enquanto seres humanos. Que memórias escolhemos contar quando contamos a nossa história de vida? Que coisas consideramos importantes e como as ligamos para criar uma história com significado? (...) Quais são os momentos formativos com significado na tua história? Isso acontece com as pessoas e com as nações”. “As histórias tornam-se mitológicas porque são moldadas por quem está a contá-las. Por isso, enquanto são absolutamente cruciais a dar identidade, também temos de ser cautelosos quanto às histórias que escolhemos contar porque depois elas vão moldar os nossos sonhos, as nossas expectativas e a forma como vemos o mundo”, acrescentou.

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PORTMAN DIRIGE PORTMAN

Natalie Portman começou a sua carreira com 12 anos, na curta-metragem «Nina» (1994), mas o filme em que participou a seguir, a longa-metragem «Léon, o Profissional» (1994), é ainda hoje considerado um filme de culto e a atriz impressionou com uma interpretação carregada de dramatismo e de emoção. Alguns anos depois, assegurou a sua presença na saga «Star Wars», mas, em 1999, decidiu pôr a carreira um pouco de lado e estudar Psicologia na reputada Universidade de Harvard. A frase com que justificou a mudança é marcante: “Não quero saber se a universidade vai arruinar a minha carreira, prefiro ser inteligente a ser uma estrela de cinema”. Formou-se em 2003 e foi retomando a sua carreira, apostando em filmes muito díspares, tais como «Garden State» (2004), «V de Vingança» (2005), «Duas Irmãs, Um Rei» (2008) e «Entre Irmãos» (2009). Mas a sua carreira mudaria para sempre com a bailarina Nina de «Cisne Negro» (2010), uma obra perfectível de Darren Aronofsky com uma interpretação arrojada e cheia de variações dramáticas de Portman. O intenso papel valeu-lhe o Óscar de Melhor Atriz, conseguindo assim a estatueta dourada que lhe tinha escapado em 2005, quando foi indicada na categoria de Melhor Atriz Secundária por «Perto Demais» (2004).

Portman tem já uma carreira sólida mas dar o salto para a realização apresentou desafios que lhe pareceram difíceis de superar. Um deles foi o facto de realizar um filme em que também seria protagonista: “Tinha receio de que parecesse vaidosa. Lembro-me quando era criança de ler sobre a Barbra Streisand dirigir e protagonizar os próprios filmes e as pessoas escreviam que eram projetos de vaidade. Mas depois percebi que isso seria algo que ninguém diria se se tratasse de um homem”. Portman realça que ficou inspirada noutros exemplos contemporâneos de “mulheres, mais jovens do que eu, como Lena Dunham, Greta Gerwig, Brit Marling, que criaram os seus próprios trabalhos”. “É algo muito feminino estar com medo de dizer: ‘Eu mando e quero as coisas assim’”, ajuntou. A atriz confessa que chorou quando viu os créditos finais de «Tiny Furniture» (2010), a obra de estreia de Dunham, em que ela figura como atriz, argumentista e realizadora - tal como acontece agora com Portman.

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REALIZADORES DE SONHO

Natalie Portman afirmou que desde muito nova começou a pensar em realizar, mais precisamente por volta dos 13 anos. No seu percurso enquanto atriz, pôde trabalhar com alguns dos principais nomes do Cinema, como Woody Allen, Tim Burton, Luc Besson, George Lucas, Mike Nichols, Wes Anderson ou Terrence Malick. Ter a oportunidade de observá-los de perto ajudou Portman na nova empreitada, porque ia atentando “às escolhas que eles fazem, como falam com os atores, que tipo de coisas pedem aos atores. Os melhores realizadores com quem trabalhei encontram o seu próprio modo de comunicar com cada ator individualmente. Todos os atores precisam de coisas diferentes. Alguns atores precisam muito de falar ao longo do processo, falar das suas ideias. Alguns trabalham melhor sozinhos e seguem os seus próprios instintos. Outros precisam de energia positiva e outros gostam de mais criticismo. Tens de sentir o que é o correto para cada pessoa”. Apesar de ter “absorvido” muito do “ritual de realização”, a atriz assume que “houve, certamente, surpresas”. “A pós-produção foi completamente novo para mim”, salienta. Portman afirmou ainda que recorreu a preciosos conselhos de alguns dos realizadores com quem já trabalhou, que definiu como “um grupo de sonho”: “O Darren Aronofsky foi ótimo a lembrar-me da minha razão para fazer o filme ao longo de todo o processo (...). O Terry Malick apoiou muito, lembrando-me para não ouvir ninguém que tentasse fazer o filme mais convencional. Ele disse ‘Não ligues às pessoas que te dizem para teres uma estrutura com 3 actos’. E o Mike Nichols também apoiou muito, viu o meu argumento quando o terminei e deu-me a sua opinião. Viu o meu filme na sala de edição. Fui muito sortuda”.

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A ARGUMENTISTA INEVITÁVEL

Este foi “definitivamente” o primeiro filme que Portman quis fazer: “Quando li o livro há 10 anos, foi a primeira vez que li um livro e vi-o como um filme na minha cabeça. Penso que tal se deve em grande parte à escrita do Amos, mas também penso que me identifiquei de uma forma muito pessoal com a minha própria mitologia familiar e senti uma afinidade com o material”. Portman aborda o processo de escrita do argumento: “Primeiramente, falei com outros argumentistas para que eles o adaptassem para mim. Tinha ideias tão específicas que todos os argumentistas com quem falei diziam ‘Penso que deves ser tu a fazê-lo’. Por isso, comecei. Ia escrevendo e deixando-o um pouco de lado, depois voltava e escrevia de novo. Foi uma das minhas partes preferidas do processo. É praticamente a única parte parte do processo que fazes sozinho. Há algo de especial nisso”.

Os diálogos do filme são todos em hebraico, o que exigiu à atriz um esforço adicional para que tudo ficasse mais credível: “O meu hebraico é bom, mas faço muitos erros, por isso trabalhei com um linguista em toda a pré-produção. E apesar do sotaque ser bom para a personagem, que é uma imigrante em Israel, a minha pronúncia americana também precisou de ser trabalhada”. “Tive que trabalhar muito na linguagem, sabia cada fala do argumento na minha cabeça. Nunca conheci tanto uma personagem com esta antecedência, o que acabou por ser necessário porque, por estar a representar e a dirigir, não tinha tempo durante as filmagens de ir para casa e decorar as falas. O que parecia um grande desafio acabou por facilitar”, considera.

Natalie Portman realça que “uma das coisas mais bonitas sobre os filmes é que passamos duas horas a importar-nos com a vida de outro ser humano. Quanto mais específico é o ponto de vista, mais as pessoas querem saber. Em última análise, este filme trata-se muito de uma história familiar, a história de um rapaz e das suas experiências, e, claro, há os contextos políticos e históricos da sua vida porque esses contextos existem na vida de todos nós”. “Penso que a grande qualidade do Oz, o que eu adoro nele, é que ele olha para as nações como humanos. Ele quer que vejamos as pessoas diferentes como humanos. Quando começamos a lembrar as experiências dessas pessoas, podemos simpatizar com elas. Isso torna tudo muito mais pessoal”, finalizou.”

*Filme de Abertura Judaica 2016

Mídia

Modificado emsexta, 13 maio 2016 22:36

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