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Actualizado às 12:37 PM, Feb 14, 2020

A Ovelha Choné - O Filme: A Quinta Contra-Ataca - especial

O principal trio criativo da nova jornada de “Ovelha Choné” encontrou-se com a Metropolis durante os dias quentes da Comic-Con Portugal. O produtor Paul Kewley e os realizadores Will Becher e Richard Phelan conversaram sobre as grandes novidades desta nova obra da britânica Aardman, que nos deram filmes e personagens tão marcantes como “A Fuga das Galinhas”, “Wallace & Gromit” e “Os Piratas”.

Em 2015, numa conversa com os realizadores Mark Button e Richard Starzak, os “cabecilhas” da primeira aparição cinematográfica de “A Ovelha Choné”, já se falava no desejo do estúdio Aardman em retornar às aventuras do ovino matreiro ao grande ecrã, isto numa altura em que filme de estreia ainda não colhera os seus frutos de box-office nem os prémios da sua específica temporada. Tal, iria-se cumprir passados 4 anos, após as incursões do paleolítico em “A Idade da Pedra” (2018), o original “Shaun of the Sheep” (assim como é designado na sua língua-mãe) retorna ao formato de longa-metragem num ainda mais ambicioso e tecnicamente pretensioso filme – “Farmaggedon” (“A Quinta Contra-Ataca”).

Criado em 1995, como personagem secundária de uma curta de Wallace & Gromit (“Close Shave” vencedor do Óscar de melhor curta de animação), a “Ovelha Chonè” depressa conquistou espaço no coração das mais diferentes gerações, alcançando o êxito com uma série própria, especiais festivos e agora dois filmes no currículo que o tornam, segundo as palavras de Will Becher, “tão famoso como as Spice Girls”. “Todos conseguem Shaun of the Sheep, até mesmo pela sombra”, acrescenta Richard Phelan.

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Depois da procura pelo farmeiro amnésico perdido na grande cidade, é a vez do mundo rural de Choné ser visitado por extraterrestres. Porém, a suposta invasão alienígena é bem diferente do que aquilo que se prevê nos mais diversos marcos culturais, o visitante é nada mais, nada menos que Lu-La, uma inocente criatura interestrelar com alguns dons que sobram que contará com a ajuda do nosso protagonista ruminante para regressar ao seu planeta natal. O que não será à partida uma tarefa fácil. “O primeiro filme foi uma demonstração do que podíamos fazer, o segundo é a prova daquilo que poderíamos seguir (...) fizemos reuniões, brainstormings e chegamos à conclusão de que iríamos requisitar os aliens e como éramos no geral fãs da ficção científica, achamos uma ideia gratificante” diz Phelan.

Não é difícil perceber uma das chaves do sucesso de “Ovelha Choné”, o seu humor universal e silencioso que faz com que crianças de todas as idades e mais os adultos possam apreciar os gags e as camadas com que se concentram. Trata-se da essência deste universo, algo que os realizadores não poderiam deixar de lado. “Tentámos que fosse um filme que todos que passam apreciar”, menciona Becher. Sobre a conceção e construção das mesmas piadas, a dupla falou-nos na importância do slapstick (humor físico) e a sua origem, bem simples aliás. “O slapstick é um elemento que vem com a história, baseamos em Chaplin, Buster Keaton e até mesmo Tati” referiu Phelan. Quanto à seleção das piadas, confidenciou-nos: “Testamos as piadas em nós próprios. A comédia não é nenhuma ciência, por isso trabalhamos as piadas com base naquilo que achamos que vai ou não funcionar”

Mas existe um contraponto nessa conceção e o facto de estarmos a falar de uma animação stop-motion onde “cada 3 segundos de filme demora um dia”, é uma tarefa árdua visto que “há o risco de aborrecermos com a piada” a ser desenvolvida e “dolorosa”, até porque algumas das cenas nunca chegam ao produto final. “Odiamos cortar cenas (...) mas por vezes temos que cortar para melhorar a narrativa”, Richard Phelan acaba de garantir que existem “delete scenes” do filme. É mais que sabido que o stop-motion é um processo moroso e dispendioso, mas o produtor Paul Kewley confirmou-nos que as “marionetas são reutilizadas” de um filme para o outro, contudo, são as novas personagens, como aqui é o caso de Lula, que levam aos profissionais a exercer extensas pesquisas. Mas em “Quinta Contra-Ataca”, o conceito já estava previamente escolhido. “Abraçamos o espírito road movie”.

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O realizador Will Becher contou-nos sobre o seu trabalho do outro lado do oceano, no departamento de animação do estúdio Laika, a casa de filmes de stop-motion como “Coraline”, “Kubo e as Duas Cordas” e “Paranorman”, este último contando o seu envolvimento. Para Becher, questionado sobre as divergências nos métodos de cada um dos estúdios, salienta que o stop-motion é uma “indústria pequena, sendo normal que muitos trabalham na Aardman como na Laika, propiciando um ambiente muito familiar em ambas produtoras.” Todavia, é o estúdio britânico o qual demarca-se do congénere norte-americano, frisando sobretudo no humor “que é mais natural”. Por sua vez, Kewley levantou que “cada filme da Aardman tem a sua identidade”, contrariando o senso comum de universo partilhado por parte das produções do estúdio e voltando ao “Ovelha Choné”, o qual acrescenta que o objetivo não era “refazer o primeiro filme, mas sim encontrar novas direções à personagem.”. Phelan, por outro defendo a sua acrescentando, “este é o mais cinematográfico, o primeiro era muito mais contido.”

No final da nossa conversa, o “elefante da sala” é por fim mencionado, a receção ainda fria da animação stop-motion em comparação com outros concorrentes digitais e vindos de majors. “Não é segredo que o stop-motion possui um box-office aquém daqueles que os de CGI acumulam. A nossa cruzada é maior”, diz Becher. “É tudo uma questão de histórias e personagens. O mais importante não é o processo mas os filmes. Conseguir demonstrar a nossa visão.”

[Entrevista originalmente publicada na revista Metropolis nº73 Janeiro 2020]

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