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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

«Parasitas» - crítica

À primeira vista, «Parasitas» (Palma d’Ouro em Cannes’19) parece ser “só uma comédia negra” em torno de uma família de pequenos vigaristas pintada com elementos de sátira social. Mas este é um filme de Bong Joon-ho – o mesmo realizador de «The Host - A Criatura» (2006) e «Snowpiercer - Expresso do Amanhã» (2013) –, podemos por isso esperar sempre mais. Em «Parasitas», Bong abandona os elementos de ficção-científica que vinham fazendo parte dos seus últimos filmes e cai mais fundo no realismo social. Os efeitos do capitalismo tardio reflectem-se nas relações de assimetria entre aqueles que vivem e trabalham na mais absoluta miséria e aqueles que acumulam fortunas colossais.

O filme começa com o plano de uma janela gradeada e suja. Lentamente, o movimento descendente da câmara revela-nos a cave que serve de abrigo para a família Kim, que vive, literalmente, um nível abaixo do chão. Enquanto o filho mais novo, Ki-woo (Choi Woo-shik), anda pela casa de telemóvel em riste à procura de uma rede wi-fi aberta, o pai, Ki-taek (Song Kang-ho) aproveita para deixar entrar os gases tóxicos da fumigação da rua para se tentar livrar de uma praga de insectos em casa. Não creio que se possa ser mais explícito que isto. Os Kim são, por certo, os parasitas a que o título se refere. Ou será que não?

De repente, surge uma oportunidade de melhorar de vida quando Ki-woo arranja trabalho como tutor de inglês para uma adolescente mimada de uma família rica, os Park, que vivem numa residência de luxo no topo de uma colina. Ki-woo, que agora se chama “Kevin”, vai engendrar o plano para empregar toda a família. A irmã, Ki-jung (Park So-dam), passa a chamar-se “Jessica” e será promovida a arte-terapeuta do filho mais novo dos Park. Um pouco mais de esforço, algumas mentiras e manipulação, e Ki-woo faz do pai motorista e da mãe criada na mesma casa. Tudo isto, claro, sem que se saiba que eles são parentes. Todos adoptam novas identidades e, juntos, como observa o pai, quase conseguiriam sair do patamar da indigência.

Apesar da minha descrição sombria (meio involuntária), a verdade é que até aqui o filme mantém um tom bastante leve e divertido. Mas, quase sem nos darmos conta, o filme vai-se metamorfoseando. Fica mais triste, mais estranho, mais violento, delirante. O argumento de «Parasitas» não se constrói sobre twists baratos, mas as revelações e reveses, apoiados em actuações brilhantes dos actores, são de facto surpreendentes. Não devo por isso revelar demasiados pormenores do restante enredo. Sugiro apenas que se agarre bem à cadeira, a descida será no mínimo vertiginosa.

cinco estrelas

Mídia

Modificado emdomingo, 17 novembro 2019 23:56
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