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Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

«A Herdade» - crítica

Veneza, Toronto, a nomeação de Portugal para a corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional e o candidato português a uma nomeação para os Prémios Goya, na categoria de Melhor Filme Ibero-americano. «A Herdade» só agora estreou e já coleciona nomeações, standing ovations e diversas críticas dos mais conhecidos meios internacionais.

O filme de Tiago Guedes parte de uma ideia do produtor Paulo Branco, que há oito anos delineou na sua cabeça uma história sobre um latifundiário, proprietário de uma das maiores herdades da Europa, a sul do Tejo, desde os anos 40, atravessando a Revolução do 25 de Abril e até aos dias de hoje. Partindo da história desta família, o argumento escrito a seis mãos acaba por fazer um retrato da vida histórica, política, social e financeira de Portugal.

No entanto, o argumento originalmente escrito pelo autor e cronista Rui Cardoso Martins, e depois por Tiago Guedes e com a colaboração de Gilles Taurand, vai muito para além deste retrato sociopolítico de um país à beira de uma revolução, no pós-revolução ou na atualidade. Na verdade, o filme de Tiago Guedes parece estar construído em camadas e depois de entrarmos em «A Herdade», é a tensão e a relação entre personagens que prende a nossa atenção. Ao mesmo tempo que vemos um latifundiário – Albano Jerónimo, no papel de João Fernandes – a gerir a sua herdade em tempos de bonança e de crise, é sobretudo a sua relação com as mulheres, com os filhos, com os empregados e até com o imponente cavalo Suão que nos cativa.

Tiago Guedes faz-nos uma visita guiada ao Portugal dos anos 70 e à forma como a política denunciava o seu poder, com apontamentos deliciosos e diálogos que nunca são em vão, caracterizados nos trabalhadores da herdade. No entanto, o grande quadro que o realizador, e a mestria de Roberto Perpignani, nos deixa observar é o fardo acalentado pelas famílias patriarcais, que enunciaram a nossa História e, sobretudo, a herança que pais passam para filhos e a forma como isso vai transformar a vida destes e dos seus sucessores. Não existe espaço para os fracos.

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Mas «A Herdade» não seria o mesmo filme se não contasse com as fantásticas prestações de Albano Jerónimo e de Sandra Faleiro nos papéis de protagonistas, assim como o contributo de atores como Miguel Borges, Ana Vilela da Costa, João Vicente, Vitória Guerra ou Ana Bustorff, ou até dos mais novos Beatriz Brás e João Pedro Mamede. Pela primeira vez como protagonista em cinema, Albano Jerónimo foi uma escolha imediata do realizador e percebe-se porquê. Altivo, é rude e bruto quando tem de ser, mas reclama igualmente como que um pedido de perdão e o seu charme é irresistível. Sandra Faleiro tem aqui, igualmente, a oportunidade para reforçar o seu talento, que lhe valeu inclusive uma nomeação para Melhor Atriz (Taça Volpi) no Festival de Veneza, ao lado de nomes como Meryl Streep, Juliette Binoche, Penélope Cruz ou Scarlett Johansson. No papel de Leonor, esposa do “grande” João Fernandes, Sandra Faleiro fala com o olhar e o seu silêncio é mais ruidoso e gritante do que muitas frases que poderia proferir enquanto filha de um general e casada com um latifundiário que não enquadra a palavra “fidelidade” no seu dicionário.

Com planos abertos e grandes planos que nos remetem para alguns dos melhores títulos do cinema de autor, «A Herdade» é um universo paralelo à história de um país, no qual os melhores momentos estão reservados às relações familiares, às amizades corrompidas e aos segredos capazes de decapitar famílias. «A Herdade» é, por isso, um filme muito completo, que nos remete para um estatuto de clássico, sem medo de dar novas perspetivas, de arriscar e de contar histórias que são, afinal, intemporais e capazes de provocar emoções, que obviamente não serão todas iguais nem assim têm que o ser.

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Não há motivos para não se ter orgulho num filme português que conquistou já muito de um caminho que se deseja longo. Por vezes, é importante largarmos as capas de descrentes e simplesmente termos a capacidade de acreditar e assumir que não é vulnerabilidade ou vergonha afirmar que temos o mesmo direito e qualidade para estar ao nível do que de melhor se faz “lá fora”. Aliás, a palavra “orgulho” devia ser generosamente aplicada em casos como este, em que temos equipas técnicas, atores e realizadores a fazer cinema com orçamentos muito inferiores aos que existem na indústria internacional, e que mesmo assim conseguem impor-se ao lado dos grandes. Um filme “funciona” quando uma história é bem contada e toca aqueles que a veem e, muitas vezes, deveríamos simplesmente esquecer a procura da perfeição ou do erro, e apenas sentir.

«A Herdade» é “uma grande película” como alguém dizia durante o visionamento. É um filme sobre um período fulcral da nossa História, mas é antes disso tudo, um quadro sobre a maior das dimensões e das herdades, a do ser humano, o maior dos latifúndios, onde a sombra cai, mas onde a luz ilumina e nos iguala enquanto seres. Tiago Guedes e o seu elenco oferecem-nos um filme que, acima de um enredo bem construído e de incríveis personagens, nos traz aquilo que melhor define o universo humano: a capacidade de sentir emoções, a importância da família, a oportunidade de redenção e a eterna procura da valorização e do amor.

cinco estrelas

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