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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

Os Oito Odiados - ciclo Tarantino

Nos tempos cinematográficos em que o faroeste era a “Ilíada” do mundo, ou seja, a narrativa constitutiva dos valores modernos, com sua noção de Bem e de Mal expressa no conceito de good guys vs. foras-da-Lei, Hollywood criou um cógito (quase cartesiano) segundo o qual o western é igual a imensidão espacial, bangue-bangue é igual a terras inóspitas imensas a serem desbravadas. Assim profetizaram os Homeros do filão: John Ford e Howard Hawks. Contudo, a partir de 1950, quando as cicatrizes da Segunda Guerra arranharam a representação clássica do escapismo heróico e o politicamente correto engatinhou seus primeiros passeios pelas telas, realizadores como Anthony Mann (em «Winchester 73» e em «Jornada de Heróis») subverteram esse cartesianismo ao criar o chamado western psicológico onde as pradarias mais perigosas eram aquelas esculpidas na mente dos próprios cowboys, duelo após duelo. Dali para diante, virou moda uma modalidade mais huis clos do faroeste, de ambientação fechada, que deu mais valor às inquietações existenciais dos seus protagonistas, tridimensionalizando os seus sentimentos, humanizando-os, o que foi fundamental tanto para o spaghetti de italianos como Sergio Leone («O Bom, O Mau e O Vilão»), quanto para o cinemanovismo de americanos como Arthur Penn («Pequeno Grande Homem»). E é a essa corrente de Reforma... na forma... no ethos... na ética... que «Os Oito Odiados» («The Hateful Eight»), talvez o mais ousado de todos os filmes de Quentin Jerome Tarantino, está filiado.

Laureada com o Oscar de melhor banda sonora original para Ennio Morricone, esta produção de US$ 44 milhões – cuja bilheteria global beirou US$ 155 milhões – goza de uma exuberância visual como poucas vezes se viu no dito far-west, por conta da captação em película Kodak 65mm a fim de viabilizar uma projeção em 70mm.
Captada assim a qualidade da imagem valoriza mais e melhor a dimensão agigantada da tela. E a fotografia de Robert Richardson (de «O Aviador») se lambuza na progressão aritmética de possibilidades à sua frente para imprimir beleza (e gerar epicização) ao fitar o mundo nevado à sua volta, em locações míticas no Colorado. Mas a exuberância não se limita ao mundo aberto, à neve. Ela é ainda maior nos planos em que a ação se concentra numa taberna que tresanda a guisado, colorida em tons de sépia, marrom-madeira e vinho. É ali que «Os Oito Odiados» explode como a obra-prima que os reclames prometiam – mais uma obra-prima do homem que nos deu «Sacanas sem Lei». Uma obra-prima da palavra: palavra-chumbo. Quente.

O cenário é este: estamos no Wyoming. A camara acha um lugar de (des)conforto para si após testemunhar uma longa peregrinação por uma nevasca, na qual se percebe um certo ar de protagonismo no caçador de recompensas John “The Hangman” Ruth (Kurt Russell, em desempenho antológico). O mesmo ar se faz sentir em torno do ex-militar da Guerra Civil Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson). Ruth arrasta consigo a criminosa condenada à forca Daisy Domergue (uma endiabrada Jennifer Jason Leigh). E a eles se junta o Xerife Mannix (Walton Goggins, vilão em «Django Libertado», que aqui mostra ser um ator de ilimitada ferrametas). Eles se arrastam frio adentro até chegarem a um saloon/pensão. Uma vez protegidos do frio eles encontram Bob "The Mexican" (Demian Bichir), Oswaldo "The Little Man" Mobray (Tim Roth), Joe "The Cow Puncher" Gage (Michael Madsen) e Sanford "The Confederate" Smithers (Bruce Den). Pronto! Eis os tais “oito” do título, todos juntos. Ali, o ódio de cada um há de ser uma arma carregada de sagacidade. Ou de fúria.

Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Bruce Dern
2015 | 168 min

Mídia

Modificado emdomingo, 22 setembro 2019 21:29

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