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Actualizado às 10:34 PM, Sep 15, 2019

«A Herdade» - Cenas da vida portuguesa: 1970 – 2010

No outono vamos descobrir «A Herdade». O mais recente filme realizado por Tiago Guedes e produzido por Paulo Branco. Uma saga sobre uma família e quatro décadas da história recente de Portugal. 

A rentrée do cinema vai ser marcada pela estreia nacional do filme «A Herdade» de Tiago Guedes. Desde logo porque chegará aos cinemas nacionais a 19 setembro, duas semanas após a estreia mundial na seleção oficial competitiva da 76ª edição do festival de Veneza, o mais antigo do mundo e que nos últimos anos tem recuperado muita da relevância perdida para Cannes.

A seleção de Veneza é exigente e ingrata para o cinema português. Basta constatar que «A Herdade» é o primeiro filme de um realizador nacional a competir pelo Leão de Ouro em 14 anos. Tiago Guedes considera que esta escolha “tem um significado enorme, porque não há melhor forma de estrear um filme. Um festival com o prestígio e dimensão como o de Veneza, selecionar o meu filme para estar entre um grupo restrito de enormes realizadores tem um enorme impacto em mim.” Em resposta a várias perguntas da METROPOLIS, acrescenta que sente “orgulho em contribuir para voltarmos a ver o nome do país numa tão prestigiada competição.”

Este filme foi desenvolvido durante oito anos pelo produtor Paulo Branco e filmado em 2018. Tiago Guedes tomou conhecimento da história quando já existia um primeiro argumento escrito por Rui Cardoso Martins. “Eu senti a necessidade de mudar algumas coisas de forma e apoderar-me do filme de uma forma mais intrínseca. Penso que a grande mudança que fiz foi no sentido de procurar entrar numa zona interna e profunda dos personagens principais, quis muito perder tempo com eles.”

A herdade é o local onde a história familiar sucede. “Fica na Barroca [Alcochete, distrito de Setúbal] e foi escolhida de forma natural. O argumento original foi escrito baseado nela, e depois ao procurarmos locais foi a que melhor funcionou. O que fez sentido.” O realizador reside em Lisboa e não tem contacto com esta realidade. “Eu não tinha uma relação pessoal com estas grandes propriedades rurais, mas durante toda a pesquisa e a preparação foi muito interessante conseguir ver os diferentes lados dessas mudanças. O facto de ter vivido oito anos, recentemente, no Alentejo fez-me sentir de forma natural todas as paisagens do filme.”

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É ali que seguimos o percurso de um grande proprietário rural, a evolução das relações afetivas, o crescimento dos filhos, e todo um largo período histórico do país, desde os derradeiros anos do Estado Novo até à recente situação de emergência financeira que justificou a intervenção da troika. Estamos perante uma narrativa que abraça quarenta anos da história social e política do país, o que levou Tiago Guedes a ajustar os avanços e recuos que existiam na primeira versão do argumento. “Reduzi a quantidade de saltos temporais que existiam e concentrei tudo em apenas duas épocas grandes (anos 70 e anos 90) e mais um pequeno prólogo. Foquei muito o nervo central do filme nas ‘heranças’ emocionais que se recebem dos pais e das que se deixam para os filhos.”

Durante este amplo período histórico sentimos o crescimento das personagens centrais interpretadas por Albano Jerónimo e Sandra Faleiro, o casal que gere os assuntos de família e da propriedade. “Para o papel da Sandra ainda vi mais algumas pessoas mas o Albano foi uma escolha direta. Nos meus trabalhos com os atores quero sempre que eles os levem ao limite das suas capacidades. E acabou por ser simples, porque me parecem ser do tipo de atores que não sabem trabalhar de outra forma.”

Perguntámos diretamente ao realizador se lidar com a mudança física e a aparência dos atores foi a maior dificuldade que sentiu, e a resposta identificou outro problema especifico de um filme de época. “As caracterizações, o envelhecimentos e/ou rejuvenescimentos são sempre difíceis, mas penso que o mais complicado é sempre filmar na cidade de Lisboa e tentar ‘refazer’ época, porque está tudo cheio de modernices e de turistas.”

«A Herdade» poderá ser visto em setembro, mas o filme anterior de Tiago Guedes, uma comédia sobre adolescência e paternidade chamada «Tristeza e Alegria na Vida das Girafas», só foi exibido numa sessão do festival IndieLisboa 2019 e ainda não teve estreia nem distribuição comercial.

“Quis o destino (ou os distribuidores) que «A Herdade» estreasse antes da «Tristeza e Alegria na Vida das Girafas». A previsão para essa estreia é finais de Novembro."

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