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A Ilusão de Cannes o Último Refúgio do Cinema de Outrora

Destaque A Ilusão de Cannes o Último Refúgio do Cinema de Outrora

 Sem rodeios, sempre associamos o Festival de Cannes ao seu tapete vermelho, o que por si só representa um estado glamouroso que paraleliza com as artes, a feira das vaidades, as fantasiosas vidas destas estrelas e os filmes que vivem das suas promessas. E por um lado, é isso mesmo, um vórtice de tudo aquilo que resume a existência de Cannes, mas dentro desse cinismo, possivelmente, queremos acreditar que exista uma certa ingenuidade, se não inocência, perante o sonho da Sétima Arte nesses recantos.

Como tal encontraremos esse discurso nas intervenções de Thierry Frémaux, o diretor artístico, que tem sido alvo de crítica após as suas constantes avessas com a Netflix. Em jeito de defesa, repetidamente proferiu pela preservação do Cinema enquanto imagens de grande ecrã e sobretudo a experiência coletiva pelo marcou essa invenção dos Lumiére, e é através dessa persuasão, que apela à nossa necessidade de nostalgia, que queremos realmente acreditar em Frémaux e literalmente “cuspir” em todas propostas oriundas dos cantos da Netflix e dos congêneres de streaming.

Contudo, enquanto jornalistas, mas acima de tudo cinéfilos, é nas suas crenças partilhadas que desejamos rever Festival de Cannes como o último reduto do espectáculo em projeção. Nesse aspecto, Cannes é um circo, que vangloria os seus 73 anos de existência (em 72 edições) pela passadeira e tal como pais que percebem a sua negligência para com os seus filhos, compensam-nos brindando com tudo aquilo que nos transporta diretamente pela carruagem do saudosismo, desde a homenagem a Agnès Varda na sua Gala, o tributo a Buñuel ou o último filme de Lelouch em Fora de Competição, guloseimas contra um acelerado vento de mudança.

Sendo assim, até eu prefiro render à prolongada mentira do que viver no questionável progresso da verdade, porém, o oásis que Cannes se tornou não corresponde ao atual estado da indústria do audiovisual no resto do Mundo. E como tal é preciso acordar e apurar o porquê dessas mudanças e principalmente, conscientizar a importância na mentira que Cannes se tornou.

* Crónica publicada na revista Metropolis nº69 (Junho/Julho 2019)

 

Modificado emdomingo, 14 julho 2019 20:33
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