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Actualizado às 11:37 PM, Nov 4, 2019

Planos que se colaram, imagens que marcaram - opinião

Destaque Planos que se colaram, imagens que marcaram - opinião

Um festival como Cannes vive de um conjunto de fluxos de sensações. Mas vive ainda mais de equações do destino. Acaso a violência pop de «Era uma vez...em Hollywood», de Tarantino, tivesse sido visionada antes da doideira cinzenta de «The Lighthouse», de Robert Eggers, provocaria o mesmo baque?

Ou se estivermos no meio do histerismo da aclamação de «Hors Normes», o novo de Toledano & Nakache, em pleno Grand Palais Lumiére, as emoções do filme ressoam de forma diferente? Podíamos continuar e o sim seria sempre a resposta.

A agenda pessoal de cada “festivaleiro” muda as perceções, é humano – não há volta a dar. Tem a ver com os fatores e contextos. É da ordem do aleatório: ver um filme de manhã e ainda ter na cabeça a Françoise Hardy da festa de encerramento da Quinzaine des Realizateurs. Acontece aos melhores...

Nessa torrencial questão de como estamos quando vemos um filme numa maratona de cinema onde as imagens se cruzam, o cansaço espreita e os estímulos descarrilam em excesso, importa sermos fiéis a uma coisa: acreditar que devemos sempre ir por onde o cinema nos leva. Nessa corrente, é bom deixarmo-nos seguir através dos momentos que marcam. Em «Mektoub- My Love: Intermezzo», em vez de ficar com a famosa cena de sexo oral, o que não me sai da cabeça é o transe das imagens das raparigas em cima da coluna, em especial Orphélie Bau, atriz-musa de Kechiche capaz de vibrar perante a música aos berros numa discoteca de praia nos anos 90. O seu corpo é um átomo que nos contagia para lá de qualquer lógica. Kechiche não faz cortes e deixa a sua câmara aproximar-se. É tudo em excesso, é tudo como nunca vimos ou sentimos.

Mas voltando a Tarantino, há um momento em «Era uma vez...em Hollywood» que ainda não dá para esquecer. A cena do telhado quando Brad Pitt fica de tronco nu, momento que provocou exaltação na plateia do Debussy a abarrotar. A calma e tranquilidade de Pitt e o seu corpo em forma funcionam como um discurso sobre uma espécie de bandeira de saudade perante uma masculinidade que Hollywood não soube voltar a recuperar. O filme passa-se no final dos anos 1960 e o final da velha Hollywood estava logo ali. Os homens não voltaram a ser os mesmos e Tarantino tem humor a brincar com essa perceção.

Na Quinzena, o dente do protagonista de «Dogs Don´t Wear Pants», de J.-K. Valkeapaa, é usado como utensílio de política de troca de favores sexuais. Um momento de cinema extremo que não importa aqui ser mais explícito sob o risco de “spoilor”. Apenas dizer que é mais do que “frisson” ou provocação. É tão-só cinema livre com uma coragem de chocar sem ser gratuito.

Mas alguns dias depois do ritmo insano da rotina da Croisette, levo na minha angústia a recordação recorrente de dois finais: o de «Sorry We Missed You», de Ken Loach e Le Jeune Ahmed, dos irmãos Dardenne. Sem revelar nada, apenas enfatizo que são conclusões que nos põem ainda mais desamparados perante a fragilidade do mundo.

Mas se estou destinado a glorificar Bong Joon-Ho e o seu «Parasite» [foto], impossível não eleger uma sanita numa certa inundação como uma das sequências para levar para sempre na memória. Foi o meu penúltimo filme visto do festival e há um efeito dilacerante que esse momento provoca. Será que se o visse antes dos zombies de «Os Mortos Não Morrem», de Jim Jarmuch, ainda estaria a pensar e a cheirar aquela descarga?

* Crónica publicada na revista Metropolis nº69 (Junho/Julho 2019)

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