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Actualizado às 9:31 PM, Jun 19, 2018

Greta Gerwig - A ‘Lady Bird’ finalmente ganhou asas

Destaque Greta Gerwig - A ‘Lady Bird’ finalmente ganhou asas

Sem ser uma estreante nas lides de realização e de argumento, Greta Gerwig vive por esta altura a melhor fase da sua carreira de 11 anos. A atriz, mais conhecida do cinema independente, é a primeira mulher entre os indicados a Melhor Realizador desde a vitória de Kathryn Bigelow, em 2009, e apenas a quinta da história dos Óscares. Mas a sua conquista não chega sem uma valente dose de ironia. 

Estávamos em 2014. «Foi Assim Que Aconteceu» [«How I Met Your Mother», no título original] chegava ao fim após nove temporadas e, embalados pelo sucesso desta série, os criadores e produtores apostaram no spin-off «How I Met Your Dad» [como conheci o teu pai, na tradução literal]. A protagonista seria a atriz Greta Gerwig, rosto conhecido do cinema independente, que, assim como Josh Radnor no original, iria contar aos filhos como tinha conhecido o outro progenitor. Após a reação nada consensual à ‘series finale’, que ainda hoje divide os fãs de «Foi Assim Que Aconteceu», o entusiasmo pelo spin-off parecia estar ameaçado, mas o principal problema foi outro...

Greta 1

Em entrevista ao «The Late Show with Stephen Colbert», Greta esclareceu, três anos depois, o maior travão no arranque da aposta: ela mesma. Tudo porque o piloto foi enviado para um ‘focus group’ que, segundo Greta, não engraçou muito com ela. Passamos a explicar: as pessoas tinham de assistir ao primeiro episódio, ainda por comprar, e ir avaliando aquilo com que se deparavam no ecrã. Para tal, receberam uma ‘maçaneta’, que funcionava de maneira bastante simples: se gostassem, deviam virá-la para a direita, e no sentido contrário caso não gostassem. Sempre que Greta aparecia no ecrã, o ‘júri’ era perentório e virava para a esquerda. «How I Met Your Dad» caiu por terra e Greta continuou no cinema.

Com participações regulares em argumento, Greta ocupou também a cadeira de realização, pela primeira vez a solo, no quase autobiográfico «Lady Bird: É Hora de Voar» (2017). No início da carreira, aliás, Greta planeava ser argumentista, mas, influenciada pelas colaborações com Joe Swanberg – com quem escreveu e realizou a sua outra longa-metragem, «Nights and Weekends» (2008) –, acabou por se envolver no cinema independente, e de baixo orçamento, como atriz. Fez parte do movimento Mumblecore [a geração do resmungo em português], tal como Lena Dunhan de «Girls», um grupo outsider que defendia a originalidade em tudo o que fazia, à margem dos grandes estúdios e das regras estabelecidas.

Greta 2

Não se tratando necessariamente de um regresso às origens, «Lady Bird: É Hora de Voar» (2017) representa um desapegar dos hábitos e, com a confiança reforçada por mais de 10 anos de carreira, o total controlo de Greta – e a respetiva presença, e ao mesmo tempo ausência, da cineasta na tela. Mas, como já foi referido, há muita ironia entre o sucesso estrondoso de «Lady Bird: É Hora de Voar» (2017). Este é o seu maior êxito, mas também o primeiro filme do currículo de Greta Gerwig onde ela não aparece: a cineasta assinou o argumento e realizou o filme mas, pela primeira vez, não ocupa qualquer função de representação. Como resultado, conseguiu figurar entre os nomeados a Melhor Argumento Original, cujo Óscar deverá cair para «Três Cartazes à Beira da Estrada», e a Melhor Realizador (o filme concorre a cinco estatuetas).

Como não podia deixar de ser, a ironia também tem batido à porta na caminhada do filme pelas cerimónias: Greta subiu ao palco dos Globos de Ouro para o discurso da vitória, mas pela categoria de Melhor Filme (Comédia ou Musical), sendo que o seu nome não figurava entre os produtores. Esquecida em muitas das cerimónias na categoria de Realizador, muito por ‘culpa’ de Steven Spielberg e do seu «The Post», Greta alcançou um feito invejável nos Óscares e deixou o lendário realizador de fora. Atendendo à ‘veia’ política da cerimónia, pode até considerar-se que o facto de ser a única mulher na corrida à estatueta, e a primeira em nove anos, pode jogar a seu favor. Kathryn Bigelow foi a única mulher a vencer na Realização, depois das indicações de Lina Wertmüller (1977), Jane Campion (1994) e Sofia Coppola (2004). Mas, independentemente de vencedores e vencidos, a questão é histórica. Segundo dados estatísticos, só cerca de sete por cento dos 250 filmes mais lucrativos de 2016 foram realizados por mulheres.

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