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Actualizado às 10:35 PM, Oct 21, 2018

Aaron Sorkin e Jessica Chastain, o casamento perfeito?

Destaque Aaron Sorkin e Jessica Chastain, o casamento perfeito?

A história verídica da polémica ‘Princesa do Póquer’ Molly Bloom é levada ao cinema por Aaron Sorkin, que surge pela primeira vez como realizador. Já Jessica Chastain, que está habituada a interpretar mulheres de personalidade forte e motivações questionáveis, aponta ao Óscar que ainda lhe falta na estante.

A sorte, ou o acaso, é algo que não se resume à Sétima Arte, embora neste caso ocupe um lugar privilegiado, e é responsável por parte do sarcasmo que ocupa os nossos dias. Há quem prefira chamar-lhe destino, mas neste jogo não há espaço para jogadas em falso. Essa inevitabilidade assume contornos irónicos se pensarmos que foi uma conjugação de factores, não relacionados directamente com o filme, que levou o «Jogo da Alta Roda» (2017) – «Molly’s Game» no seu título original – a fechar, no dia 16, o Festival do American Film Institute (AFI). A biografia de Molly Bloom ocupou o lugar antes destinado a «All the Money in the World» (2017), de Ridley Scott, que voltou a gravar diversas cenas para colocar Christopher Plummer no lugar de Kevin Spacey, envolvido recentemente num escândalo sexual, a tempo da estreia no final de dezembro.

A história obscura de Molly Bloom assume contornos de um drama familiar épico, mas é movida pelo submundo do crime, a que só alguns têm acesso. Depois de uma lesão por fim à sua carreira de esquiadora de alta competição, Molly viu os seus sonhos desabarem com estrondo. No entanto, condenada a fracassar, conseguiu contrariar o azar e reclamar a sua sorte num esquema de jogos milionários nas sombras do glamour norte-americano. As aventuras da ‘Princesa do Póquer’ foram retratadas nos tabloides, com o outro lado a chegar na voz de Molly, que publicou pouco tempo depois do desenlace, em 2014, um livro que desmontava a sua conquista e ruína no mundo do jogo underground, populado por estrelas de Hollywood, bilionários de Wall Street e até pela Máfia russa. No entanto, os inimigos de Molly não estavam apenas no mundo do jogo ilegal; ao mesmo tempo que a vida clandestina lhe enchia os bolsos, e a tornava um caso raro e sério de sucesso entre as mulheres da sua geração, despertava também a atenção do FBI.

Aaron Sorkin já provou que sabe escrever biografias, evidência atestada, por exemplo, pelo Óscar de Melhor Argumento Adaptado que recebeu por «A Rede Social» (2011), mas é um ‘caloiro’ no que à realização diz respeito. Criador de algumas das melhores séries dos últimos 20 anos, como «Os Homens do Presidente» e «The Newsroom», Sorkin notabilizou-se pelo seu estilo mais literário, e com discursos longos capazes de transformarem as suas personagens em verdadeiros gigantes, capazes de roubar qualquer cena. Os seus monólogos beneficiam, há décadas, atores e realizadores, contrariando a tendência de que o poder do cinema está sobretudo na imagem, o que contribuiu, também, para que chegue à estreia na realização com um leque considerável de fãs do seu estilo. Acostumado a quebrar limites e ideias feitas, quer fazê-lo outra vez.

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Se o seu legado fala por si, a verdade é que ao leme das câmaras ainda tem muito a provar. Sobretudo se tivermos em conta que, contrariamente ao que talvez fosse expectável, coloca uma mulher no centro do seu primeiro filme como ‘agente duplo’, argumentista e realizador. É que, embora seja um nome incontornável no pequeno e grande ecrã, Sorkin está habituado a receber críticas pela construção das suas personagens femininas, muitas vezes utilizadas como ‘acessório’ em narrativas lideradas por homens fortes. Em filmes e séries do autor, as mulheres chegam a ser apenas mais uma ferramenta para o núcleo principal brilhar, ainda que, a espaços, tenham alguma oportunidade para crescer – veja-se o caso de Maggie Jordan (Alison Pill) e Sloan Sabbith (Olivia Munn) na série «The Newsroom». Na hora da verdade, será Sorkin capaz de provar, de uma só vez, a sua qualidade como realizador e escritor de personagens femininas, ou deu um passo maior do que a perna?

Outra das opções inusitadas do realizador foi a escolha de Jessica Chastain para interpretar Molly Bloom, dos 20 e poucos anos a meados dos 30. A atriz norte-americana – que, curiosamente, sempre optou por não revelar a sua idade publicamente, por achar que poderia ser prejudicada – fez 40 anos em março. Não sendo uma questão determinante do filme, e muito menos um aspeto negativo, a verdade é que a contratação de Jessica Chastain contribui para uma nova perspetiva sobre uma velha questão: se as atrizes na casa dos 30 e mais anos se queixam que as personagens da sua faixa etária são interpretadas por atrizes bem mais novas, podem as atrizes jovens queixar-se agora do contrário? Ou, em vez disso, trata-se de uma lufada de ar fresco num estigma nem sempre debatido publicamente? Por sua vez, o papel de Molly adolescente cabe a Samantha Isler, que há um ano brilhou em «Capitão Fantástico» (2016).

O duo de principais ‘trunfos’ de Aaron Sorkin, como é reconhecido pelo próprio, fica completo com Idris Elba. Jessica e Idris já tinham partilhado o palco do Teatro Dolby nos Óscares 2015, altura em que entregaram a estatueta de Melhor Fotografia a «Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)» (2014), mas nunca se tinham cruzado no grande ecrã. Sorkin gaba-se desse feito e apoia nestes dois atores o essencial da história que quer contar. Idris será Charlie Jaffey, o advogado de defesa de Molly e o seu único aliado, parte absolutamente fulcral de toda a trama que se vai desenvolver. Entre o restante elenco, destacam-se Kevin Costner como Larry Bloom, Michael Cera como o ‘Jogador X’ e Brian d'Arcy James como o ‘Mau Brad’. Joe Keery, o Steve de «Stranger Things», e Bill Camp também marcam presença. É caso para dizer que, tal como Molly Bloom, Jessica Chastain é uma mulher determinada a vencer num mundo de homens.

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O outro lado do glamour: a queda da lenda (ou quase)
Tudo corria bem a Molly Bloom, ou assim parecia. Esquiadora olímpica e bastante promissora, viu o seu mundo desabar e reconstruiu-o a partir dos destroços. Fazia carreira nas sombras, consolidando-se como nome a ter em conta no que ao póquer de classe alta – e alto risco – dizia respeito, contrariando todas as jogadas que a visavam colocar ‘fora de jogo’. Os primeiros jogos de póquer tiveram lugar em 2004, numa altura em que Molly servia cocktails e amealhava, por noite, 3 mil dólares em gorjetas.
O negócio cresceu de forma imparável e, quatro anos depois, já ocupava diferentes espaços e Molly liderava um império construído a pulso, onde algumas jogadas chegavam à casa dos milhões. Entre os seus clientes contavam-se, por exemplo, estrelas de Hollywood, como Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Ben Affleck e Matt Damon. Molly chegou a arrecadar quatro milhões por ano pela organização destes jogos ilegais, sendo que, a certa altura, Toby Maguire terá oferecido 1000 dólares para ela imitar uma foca, algo que a jovem magnata recusou.

Em 2011, todavia, a história não teve um final feliz. O FBI invadiu um dos jogos e, apesar de Molly estar nessa altura fora da cidade, tornou-se o centro de uma polémica investigação, desenhada no mundo do crime mas também no dos tablóides. A queda da lenda e do império anunciava-se e, em sucessivos golpes e contragolpes, adensava-se a teia de intrigas e ilegalidades que Molly construíra ao longo de quase uma década. No entanto, e apesar de a jovem ter optado por contar o que passou na primeira pessoa, Sorkin não depende exclusivamente do livro, abordando, nomeadamente, o abuso de drogas de Molly, que ela não abordou em 2014.
Num autêntico ‘colapso’ de estrelas, Kevin Costner e Idris Elba são os dois homens fortes da história que Jessica Chastain protagoniza. Por um lado, a relação de Molly Bloom com o pai, Larry, assume contornos densos e, com um desenvolvimento sobretudo apoiado nas palavras, humaniza uma personagem marcada pela sua desumanização. Já a relação com o advogado Charlie Jaffey surge como o outro prato da balança, uma vez que ele se torna o único aliado de Molly, colocada no centro para ‘pagar’ as contas de um negócio rechado de magnatas do crime. Condenada a cair, quer pelos pares quer pela imprensa, Molly tinha mais um desafio à sua alta: mostrar que, contra todas as expectativas, ainda tinha uma palavra a dizer.

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Vencer o estereótipo
Da mesma forma que Aaron Sorkin quer derrotar as ideias pré-concebidas a seu respeito, também a imagem de Molly Bloom assume novos contornos, mais profundos e pormenorizados, à medida que é explorada pelos diálogos de Sorkin e reimaginada por Jessica Chastain. A atriz está habituada à ambivalência das suas personagens, como é o caso de «Miss Sloane - Uma Mulher de Armas» (2016), e as biografias não a assustam – ainda este ano protagonizou «O Jardim da Esperança» (2017).
“É uma história das Kardashian”. A comparação, feita por Jessica Chastain à Deadline, estabelece um paralelismo improvável entre a primeira impressão de Jessica quando pesquisou Molly Bloom e a personagem que foi construindo ao longo de vários meses. “Estava a julgá-la pelas roupas dela, pela maquilhagem; mas, em muitos casos, as mulheres têm de se apresentar de determinada forma, para encontrar sucesso numa indústria onde os homens ditam as regras”, desenvolveu a atriz. Para se inspirar, Jessica confessou à Deadline ter colocado imagens das Kardashian no seu camarim, de modo a interiorizar essa ideia. No entanto, quando conheceu Molly, percebeu que ela era o oposto do estereótipo.

A vida de Molly pode ter melhorado por um (quase) golpe de sorte, mas não foi por acaso que ela se conseguiu manter no topo. Contrariando a ideia de uma jovem mimada que consegue, às custas do crime, manter um determinado modo de vida, Molly é uma figura surpreendentemente densa e... ética. Assim como noutras obras de Sorkin, a personagem principal é movida por um forte sentido de ética e responsabilidade, pelo que é incapaz de aceitar a saída fácil. Tal como aconteceu com o livro publicado em 2014, Sorkin também desmonta a ideia fácil e imediata passada pelos tabloides, desenvolvendo a individualidade de Molly tanto quanto possível, seja através do discurso, seja através do poder agora concedido pela câmara. Com a curiosidade em alta, ficaremos a saber em breve se o “Sorkin, o realizador” está à altura da reputação que construiu ao longo de décadas. E se Jessica Chastain e Idris Elba são capazes de fazer ‘mossa’ na época de prémios.

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº55 - Dezembro 2017]

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