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Actualizado às 4:26 PM, Jan 20, 2019

Emmys: A Noite em Que as Aias Venceram Androides e Demogorgons

Destaque Emmys: A Noite em Que as Aias Venceram Androides e Demogorgons

Costuma dizer-se que tudo o que sobe, desce. Que o digam «Stranger Things» e «Westworld», as séries mais populares e as mais nomeadas aos Prémios Emmy, que levaram a melhor apenas em categorias técnicas. Estas histórias, entre a distopia e o terror, foram derrotadas contundentemente por uma outra, mais humana e talvez mais aterrorizante, «The Handmaid's Tale». A HBO perdeu «A Guerra dos Tronos», mas foi o canal mais premiado da noite de 17 de setembro: valeu-lhe «Big Little Lies» e «Veep».

Foi uma das caminhadas vitoriosas mais demoradas de que há memória, e nem foi preciso câmara lenta. Aos 77 anos, Margaret Atwood, que em 1985 publicou o livro O Conto da Aia, subiu ao palco para participar - com toda a justiça - na coroação da 'sua' «The Handmaid's Tale», a grande vencedora da noite, que conseguiu um total de oito estatuetas (cinco delas pelo episódio piloto, Offred). Uma vitória a todos os níveis, se considerarmos que as quatro 'derrotas' foram em duas categorias técnicas e em disputas onde contava com nomeações duplas - Ann Dowd levou a melhor sobre Samira Wiley em Melhor Atriz Secundária, e Reed Morano ultrapassou Kate Dennis, tornando-se a primeira mulher premiada por realização em Série Dramática.

Já se sabia que era um ano de mudanças. Para começar, «A Guerra dos Tronos», eleita Melhor Série Dramática em 2015 e 2016, e Tatiana Maslany, recém-saída da series finale de «Orphan Black» e Melhor Atriz em Drama há um ano, estavam fora das contas. A Academia considera apenas conteúdos lançados entre 1 de junho de 2016 e 31 de maio de 2017, pelo que a estreia tardia de ambas as séries 'castigou' o seu eventual sucesso nos Emmys. Além disso, o fim de sucessos como «Downton Abbey» e «The Good Wife» abriu também caminho a novas entradas. Das suas cinzas, ressurgiam a omnipotente HBO e a Netflix; esta última com o recorde de nomeações e em busca do primeiro Emmy de Melhor Série para um serviço de streaming. No entanto, ao contrário do que se esperava, não foram a Netflix nem a Amazon Prime, os dois streamings mais populares, a conseguir esse feito histórico: foi o Hulu - uma aposta conjunta da NBC Universal, News Corporation, Providence Equity Partners e The Walt Disney Company. Apenas um dos nomeados correspondeu ao hype em torno de si: o Saturday Night Live, o programa mais vencedor da noite com nove estatuetas (em 22 possíveis).

2 Stranger Things 3

A ingenuidade em atribuir automaticamente o favoritismo a «Westworld» e «Stranger Things», nomeadas para 22 e 18 categorias, respetivamente, tem uma culpada demais evidente: «A Guerra dos Tronos». Desde que a votação das categorias de Melhor Série foi aberta a todos os votantes que o hype tem reinado: tanto a série baseada na obra de George R.R. Martin como «Veep» têm sido invencíveis. No entanto, há um pormenor que pode ter feito toda a diferença: as duas séries mencionadas acabam, habitualmente, perto do arranque da votação, pelo que chegam à fase decisória no auge da sua popularidade. Como esquecer o domínio do episódio Battle of Bastards, o mais sangrento da sexta temporada, na 68ª edição dos Emmys, em setembro de 2016?

Nem «Westworld» nem «Stranger Things» conseguiram qualquer Globo de Ouro na sequência das suas parcas nomeações. Ainda assim, nada que pudesse antecipar um resultado tão desastroso nos prémios do passado fim de semana, até porque «A Guerra dos Tronos» soma apenas uma vitória em seis temporadas: Peter Dinklage levou, em 2012, o Globo de Ator Secundário. «Stranger Things» tinha do seu lado algo que «A Guerra dos Tronos» nunca conseguiu, o Prémio Screen Actors Guild de Melhor Elenco em Drama, mas tinha contra si um factor bem mais corpulento: é feita pela Netflix. O descontentamento da indústria pelo serviço é demais conhecido, e fez-se ouvir bem alto há poucos meses, em Cannes, onde teve pela primeira vez - e talvez última - uma longa-metragem a concurso. «Westworld» é do mesmo canal de «A Guerra dos Tronos», a HBO, mas já era de suspeitar o fracasso: é que a sorte da família Nolan em cerimónias de prémios é nula, e a série tem como criadores Jonathan Nolan, o irmão de Christopher, e a esposa, Lisa Joy.

Na cerimónia do ano passado, Donald Trump, então apenas candidato à Casa Branca, foi motivo de chacota: "Se não fosse a televisão, será que Donald Trump estaria na corrida para ser Presidente? Não. Estaria agora em casa, a esfregar-se calmamente na sua mulher 'Malaria', enquanto ela fingia que estava a dormir", foi um das piadas do apresentador de 2016, Jimmy Kimmel. No entanto, a mesma audiência que não levou Trump a sério há um ano, e que foi provavelmente a mais crítica - a par com os Globos de Ouro -, foi ainda mais direta desta vez. Tal como já aconteceu noutras cerimónias, os votos foram incontornavelmente políticos: Alec Baldwin e Kate McKinnon animaram o período de campanha, caricaturizando Donald Trump e Hillary Clinton, e o rescaldo da vitória de Trump, assim como Melissa McCarthy na inesquecível interpretação de Sean Spicer, ex-secretário da Imprensa.

A crítica da organização subiu de tom e levou ao palco o próprio Spicer, que, assim como após a Inauguração de Trump, defendeu acerrimamente que os Emmys deste ano seriam os mais vistos de sempre - sem que as evidências o sustentassem. Mas será que vale tudo? Sean Spicer foi uma das figuras mais criticadas na Presidência de Trump, desde logo pelos seus "factos alternativos", tratando a informação como algo subjetivo que era modulado consoante lhe convinha (e ao Presidente). De inimigo a amigo foi um passo, já que, com a sua saída pouco amigável da Casa Branca, também ele passou a estar do lado dos descontentes. Só que o seu aparecimento inesperado nos Emmys serviu como uma espécie de retratação pública, que em nada dignificou a Academia. O mesmo momento poderia ter sido protagonizado por Melissa McCarthy, novamente como Spicer, o papel que lhe valeu um Creative Arts Emmy, prémios atribuídos dois dias antes da cerimónia principal. Também se poderá questionar porque Spicer aceitou, uma vez que acabou por ser ridicularizado pessoalmente pelos mesmos que já o tinham feito à distância. O seu aproveitamento mediático da situação revelou parte da resposta.

O comentário político mais audível chegou com «The Handmaid's Tale». Trata-se, afinal, de uma sociedade distópica onde a população é totalmente controlada por uma organização ditatorial e opressiva, e onde as mulheres ocupam um lugar completamente insignificante. Vivemos numa realidade hiper-tecnológica, mas que atravessa questões sociais bastante sensíveis. Por um lado, as políticas de Trump perante os imigrantes, o seu histórico de comentários depreciativos ou sexualizados sobre as mulheres e o discurso tradicionalista têm feito eco um pouco por todo o mundo. Entre muros e entradas proibidas, já muita tinta correu - e irá certamente correr - durante a Presidência de Trump. No entanto, há também outros tópicos a 'piscar o olho' à atualidade, que ainda lida com o pós-Impeachment de Dilma Rousseff no Brasil, o regime da Coreia do Norte e a desigualdade social nas diferentes formas que assume.

Não se pode, evidentemente, exigir um argumentista, realizador ou ator que seja interventivo na receção de uma estatueta. Muitos americanos (e não só) têm-se vindo a mostrar, aliás, fartos da dose política que as cerimónias de prémios têm adotado, sobretudo depois do discurso de Meryl Streep nos Globos de 2016, que pode não ter resultado num Óscar, mas lhe mereceu uma adjetivação trumpiana: sobrevalorizada. Donald Trump critica o lobby de Hollywood, e há quem defenda o mesmo: as críticas são vistas como amuos injustificados e, em certa parte, perdem, com isso, parte do efeito que poderiam ter. Ainda assim, os comentários políticos e sociais nestes momentos, em que o mundo está atento, ganham superior importância - seja na Presidência de Trump ou na de outro qualquer agente político ou social. Mostram que há figuras, cuja voz se pode ouvir, que estão atentas - e que querem que o público também se faça ouvir.

Posto isto, porque passaram as questões sociais e políticas ao lado dos discursos vitoriosos de «The Handmaid's Tale»? Ao contrário de Nicole Kidman, Melhor Atriz de Minissérie por «Big Little Lies», que frisou a violência doméstica, ou de Donald Glover, de «Atlanta», que 'limpou' dois prémios em Comédia e agradeceu com muita ironia a Trump, o elenco e responsáveis pela série da Hulu evitaram puxar a história para o seu lado político. Que é muito forte e contribuiu certamente na hora da votação. Nem mencionaram o lado social da história imaginada por Margaret Atwood, que alerta ficcionalmente para os perigosos do poder e da desatenção da sociedade, já que o controlo é algo dado como garantido, mas pode ser perdido num instante. Elisabeth Moss, Melhor Atriz em Drama, também não fez qualquer reparo mais crítico: curiosamente, a atriz pertence à Cientologia e tem sofrido várias críticas nesse sentido, nomeadamente perante as semelhanças entre a religião que segue e a República de Gilead.

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