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Actualizado às 10:22 PM, Nov 12, 2019

Distribuição / cinema / espectadores

A distinção do cinema Ideal com um prémio internacional e o aparecimento da nova distribuidora Cinema Bold justificam uma especial atenção — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Novembro), com o título 'Que relação com os espectadores?'.

Tempos houve em que a descrição jornalística (?) do mercado cinematográfico se reduzia, muitas vezes, a um maniqueísmo moralista: os americanos de um lado, os independentes do outro. Que as coisas são, inevitavelmente, mais complexas, eis uma lição que foi resultando da diversidade do próprio mercado — e sem que seja legítimo reduzir a situação a um mero jogo de “bons” e “maus” filmes, seja qual for a sua origem de produção ou chancela de distribuição.

Isto para dizer que tem havido sinais muito interessantes de um real empenho na pluralidade da oferta e, em particular, na reconquista de franjas de público que se afastaram das salas escuras. Trata-se, afinal, de contrariar o esvaziamento cognitivo de uma cultura narrativa dependente dos mais poderosos formatos televisivos (novelas, novelas, novelas...) e também de mobilizar os que, de forma mais ou menos distraída, vêem o cinema como um fenómeno exclusivo (?) da Internet.
Duas notícias recentes são especialmente estimulantes. A primeira tem a ver com a aposta da distribuidora Midas Filmes, de Pedro Borges, relançando o cinema Ideal como lugar de culto do consumo cinematográfico em Lisboa e, mais do que isso, como modelo possível de uma programação movida por critérios visceralmente cinéfilos. A sua distinção com o prémio anual “Melhor Empreendedor”, atribuído pela associação Europa Cinemas (a entregar na próxima quinta-feira), decorre do reconhecimento de que importa continuar a experimentar outras formas de dar a ver os filmes.

Em boa verdade, tais formas começam nos próprios contrastes que os filmes celebram. Para as próximas semanas, a Midas anuncia, por exemplo, Eu, Daniel Blake, de Ken Loach (Palma de Ouro em Cannes), ou Hitchcock/Truffaut, um estudo documental assinado por Kent Jones, sem esquecer a reposição de Tempos Modernos (1936), de Charlie Chaplin.
Entretanto, a Alambique, de Luís Apolinário, vai lançar uma nova marca de distribuição — Cinema Bold —empenhada em filmes menos “óbvios” e, mais do que isso, em modos de promoção/difusão capazes de desafiar rotinas e ideias feitas. Uma das suas apostas principais envolverá a aproximação (ou mesmo a coincidência) das datas em que determinados títulos estarão disponíveis em sala, em DVD ou nas diversas plataformas virtuais. Curiosamente, o seu primeiro lançamento será Eis o Admirável Mundo em Rede, de Werner Herzog, sobre o misto de fascínio e medo inerente à evolução da Internet.

Digamos, para simplificar, que já todos os agentes do mercado compreenderam que a distribuição/exibição de filmes está longe de poder ser vista como uma mera acumulação de “blockbusters” americanos, aqui e ali pontuada por desvios mais ou menos pitorescos. Desde logo, porque o cinema americano é muito mais interessante do que isso. E também porque a relação com os espectadores não pode ignorar a dinâmica social dos padrões de consumo.

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