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Actualizado às 12:37 PM, Feb 14, 2020

Salvador (1986) - retrospectiva Oliver Stone

Ainda antes de «Platoon» (lançado cerca de dez meses mais tarde, em finais de 1986), foi este filme que colocou o nome de Oliver Stone no mapa dos cineastas americanos a ter em conta, embora antes já tivesse escrito os argumentos de «O Expresso da Meia-Noite» (Alan Parker, 1978) e «Scarface» (Brian De Palma, 1983). Nele se evocam as convulsões da guerra civil em El Salvador, a partir do olhar de um jornalista americano — cru, desencantado e realista.

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A Garra (1981) - retrospectiva Oliver Stone

Também não é à segunda incursão na realização que Oliver Stone se afirma como realizador. Há um pouco mais de competência adquirida desde a sua primeira experiência, sete anos antes, com o filme «Seizure», mas a voz e a visão de um dos melhores e mais controversos realizadores americanos ainda está para surgir. «A Garra» conta a história de um cartoonista que perde a mão num acidente de viação e esta ganha não só vida própria mas também um desejo de vingança. Não deixa de ser um passo relevante na carreira do realizador, mas mais interessante é notar que, como argumentista, Stone já tinha ganho, em 1978, o Óscar para Melhor Argumento Adaptado com o filme «O Expresso da Meia-Noite».

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Snowden, Stone, política & tecnologia

Oliver Stone encena a saga de Edward Snowden num filme de fascinante complexidade — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Setembro), com o título 'Como “purificar” as relações entre política e tecnologia?'.

Para o melhor ou para o pior, Edward Snowden inscreveu o seu nome na história política do século XXI. Ao divulgar, em 2013, dados de segurança interna dos EUA e, em particular, dos mecanismos de vigilância da National Security Agency (NSA), o ex-funcionário da CIA transformou-se em pólo necessariamente polémico de uma questão do nosso mundo global: o cruzamento do exercício do poder com a integração das novas tecnologias de detecção de mensagens. O filme de Oliver Stone, Snowden, aponta ao núcleo crítico de tal discussão.

Em boa verdade, mesmo que o discurso de Stone siga noutra direcção, o seu filme está longe de ser um mero panfleto. Há nele uma respiração dramática que evoca os modelos clássicos do cinema liberal de Hollywood. Isto sem esquecer que a palavra (“liberal”) corre sempre o risco de suscitar muitos equívocos, quanto mais não seja porque o que está em jogo não é uma simples posição política, muito menos partidária. É, isso sim, a tensão que se estabelece entre a acção de um indivíduo e o contexto institucional que o enquadra.
Nesta perspectiva, Snowden pode ser considerado um descendente directo de “thrillers” das décadas de 60/70, assinados por cineastas como John Frankenheimer, Alan J. Pakula ou Sydney Pollack (recorde-se o caso exemplar de Três Dias do Condor, de Pollack, em que Robert Redford interpretava um funcionário da CIA perseguido pela própria instituição).
Por mais desconcertante que isso possa parecer, este retrato de Edward Snowden acaba por ser uma variação sobre o mesmo paradoxo existencial que Stone já encenara em títulos como JFK (1991) ou Nixon (1995). No primeiro caso, da investigação sobre o assassinato de John F. Kennedy emergia a figura do procurador Jim Garrison (Kevin Costner), protagonizando um processo que se vai diluindo na encruzilhada de muitos testemunhos e outros tantos silêncios; no segundo, a revelação dos abusos de poder de Richard Nixon (Anthony Hopkins) acabava por lhe conferir uma perturbante emoção trágica.

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Cada espectador reagirá de modo diferente (e com toda a legitimidade) às decisões que levaram Edward Snowden a revelar os documentos que revelou. Seja como for, em defesa do trabalho cinematográfico que temos à nossa frente, importa sublinhar a ambivalência dramática que se instala: no limite, Snowden é uma peça solitária de um aparato global que transfigurou todas as relações humanas. Ele que entrou na CIA “para ajudar o seu país”, é, afinal, um filho pródigo de uma paternidade ambivalente, no filme representada pelas personagens do seu austero chefe (Rhys Ifans) e de um sarcástico veterano (Nicolas Cage).

Num plano estritamente ideológico (se é que a fascinante complexidade do filme permite tal separação), podemos questionar Stone pela quase ausência de algum contraponto histórico (que começa, obviamente, na herança do 11 de Setembro). A saber: porque é que a história de Snowden quase não refere a conjuntura geopolítica em que se processa a sua odisseia? O certo é que esse “silêncio” faz parte da visão do mundo do próprio Snowden que, ingenuamente ou não, parece acreditar numa espécie de utópica “purificação” das relações entre política e tecnologia.

Evitando reduzir o mundo a uma dicotomia de “bons” e “maus”, o filme de Stone acaba por possuir o valor radical de uma crónica sobre as contradições do nosso tempo. A notável interpretação de Joseph Gordon-Levitt é um espelho cristalino da saga de Snowden. Em boa verdade, ele queria apenas ser ouvido — o filme confirma que o conseguiu.

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Seizure (1974) - retrospectiva Oliver Stone

O que não faltam são exemplos de primeiras-obras que fizeram história. Umas tornaram-se clássicos, outras filmes de culto - ou um misto dos dois, em muitos casos. «No Céu Tudo É Perfeito» (David Lynch), «A Noite Dos Mortos-Vivos» (George A. Romero), «A Noite Dos Mortos-Vivos» (Sam Raimi), ou «THX 1138» (George Lucas)... A lista é longa. Ainda assim, é uma lista onde não consta «Seizure», de Oliver Stone. A história de um autor assombrado pelas suas próprias criações, com argumento assinado pelo próprio Stone em parceria com Edward Mann, é uma estreia pouco auspiciosa apesar de não ser de todo isenta de algumas pequeníssimas qualidades. Mas mais importante é que cumpriu o objectivo principal: sentar Oliver Stone numa cadeira de realizador e abrir caminho para o futuro que se conhece.

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Snowden

Seja o que for que possamos pensar de Edward Snowden — e da sua decisão de divulgar publicamente documentos sobre os poderes de vigilância da NSA (National Security Agency) norte-americana —, é inevitável reconhecer que qualquer abordagem da sua história não pode ser reduzida a um combate maniqueísta de “prós” e “contras”.

De alguma maneira, terá sido esse o ponto de partida de Oliver Stone, justificando que a sua abordagem, porventura com alguma surpresa para a maioria dos espectadores, adopte uma postura clássica de “filme-biográfico”. Digamos que há em Snowden uma preocupação didáctica, afinal de natureza jornalística, de dar conta do complexo processo profissional, ideológico e moral que vai transformando Edward Snowden, de empenhado e hiper-dotado funcionário da CIA, em alguém que decide romper os compromissos de secretismo que tinha assumido.

Nesta perspectiva, a visão de Stone relança um tema nuclear do seu universo dramático: a tensão, porventura a contradição, que nasce do facto de um determinado indivíduo ser superado pela própria missão que, com espírito mais ou menos transparente, assumiu. Por isso também, no plano da construção dramatúrgica, Snowden não é fundamentalmente diferente de Nascido a 4 de Julho (1989) ou Nixon (1995). Em todos os casos, deparamos com um (anti-)herói que, a certa altura, deixa de “encaixar” no estatuto para que a sua acção foi programada.

Daí que Snowden, o filme, nos deixe uma certeza que, em boa verdade, está para além do juízo moral sobre Edward Snowden que, por certo, cada um de nós poderá formular. Essa certeza é a de que o mundo mudou de estrutura cognitiva e que a possibilidade de grandes impérios de vigilância observarem os cidadãos não pode ser entendida (muito menos julgada) apenas a partir do seu enquadramento político. Porquê? Porque a própria tecnologia envolve já uma configuração política do mundo e das nossas relações.
Este é, enfim, um filme que nos leva a questionar o próprio sistema de relações (entre os seres humanos, da cada ser humano com as instituições, etc.) que vivemos no século XXI. Na consolidação desse sistema, Edward Snowden é “apenas” um peão — por certo, dos mais fascinantes e perturbantes.

cinco estrelas

Título Nacional Snowden Título Original Snowden Realizador Oliver Stone Actores Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo Origem Estados Unidos Duração 134’ Ano 2016

Snowden

Incisivo e direto, «Snowden» é um provocador biopic sobre uma das figuras mais controversas da História recente: Edward Snowden. O antigo espião tornou-se conhecido em 2013, quando divulgou a jornalistas do The Guardian documentos confidenciais do programa secreto de vigilância mundial da Agência de Segurança Nacional Americana (NSA). O mundo descobriu que, afinal, a sua privacidade talvez não seja assim tão privada.

Oliver Stone sempre colocou o dedo na ferida ao que à América diz respeito e em «Snowden» fá-lo em toda a sua plenitude. Este é um regresso em grande do realizador norte-americano, fazendo-nos lembrar obras como «JFK» (1991), envolvendo o espectador do início ao fim, que até tem uma surpresa (o que é dizer muito num biopic). Para tal, muito contribui o argumento, que tem uma mãozinha do próprio Stone, revelando-nos a viagem psicológica por que passou Snowden, de um patriota inabalável para alguém que acaba por questionar as ações do governo, expondo-o abertamente.

Podemos ver essa desconstrução nos olhos e na voz de Joseph Gordon-Levitt, numa belíssima interpretação do ator, que se entrega ao papel dando-lhe uma credibilidade inquestionável. O ator não está sozinho, contando com um elenco secundário de luxo, com nomes que enchem o ecrã, nos quais se destaca Shailene Woodley, que aproveita qualquer brecha da personagem para brilhar. Melissa Leo apresenta-nos também um sensível desempenho de Laura Poitras, a realizadora de «Citizenfour», que viria a ganhar o Óscar de Melhor Documentário. As alternâncias na narrativa e dinamismo na montagem são, justamente, alguns dos trunfos da obra, que nos mostra o percurso de Snowden enquanto entrava em contacto com Poitras e os dois jornalistas do The Guardian que lutam para publicar a história.

«Snowden» é um biopic envolvente e com uma abordagem versátil, beirando a paranoia e a controvérsia, não fosse este um filme de Oliver Stone. Se Snowden é um herói ou um traidor cada um o dirá, mas algo é certo: este filme é uma vitória cinematográfica.

quatro estrelas

Título Nacional Snowden Título Original Snowden Realizador Oliver Stone Actores Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo Origem Estados Unidos Duração 134’ Ano 2016

World Trade Center

«World Trade Center» (WTC) é um filme extraordinário, uma importante visão do cinema sobre a esperança e a coragem face às maiores adversidades. Um olhar em que obtemos uma perspectiva humana dos ataques ao WTC em Nova Iorque. Não oferece respostas ou teorias face às origens destes hediondos actos contra a Humanidade.

Oliver Stone realiza a partir do argumento escrito por Andrea Berloff, inspirado na história de dois polícias que ficam presos nos escombros do WTC, na angústia e fé das suas famílias (McLoughlin e Jimeno), no dia e nas horas seguintes ao ataque ao WTC. A narrativa retrata o acto de coragem daqueles que deram a sua vida ao entrarem dentro das torres para salvar as vítimas do impacto dos aviões. A grande maioria dos polícias e bombeiros que entraram no WTC pereceu, uma ínfima parte foi resgatada. WTC é em particular a história de dois polícias, Will (Michael Peña) e John (Nicolas Cage), os únicos sobreviventes da sua equipa.

Stone transforma um acontecimento com uma dimensão mundial e recria um retrato íntimo de sobrevivência, com valores universais. As aterradoras imagens durante e depois do ataque são de um realismo impressionante. Para isso contribui o trabalho do britânico Seamus Mc Garvey, director de fotografia. Este realça o ambiente de caos e destruição em volta dos dois sobreviventes, imagens essas que vão subsistir durante todo o filme; tudo se desenrola com uma frieza apocalíptica. A atmosfera do Ground Zero (local da queda das torres) é de uma dimensão irreal para todos os que tiveram que lidar directamente com os acontecimentos. Stone consegue transportar para o ecrã essa mesma atmosfera de choque após o impacto, através do olhar das pessoas face a devastação.

«World Trade Center» cinge sempre o seu ponto de vista à visão dos protagonistas: não temos uma perspectiva do que ocorre no exterior dos edifícios, só o estrondo do colapso, até ao ponto de impacto atingir Will e John. Após o ruído da queda, Stone concentra-se no silêncio perturbador, e eleva a sua câmara, mostrando ao espectador que o impacto atingiu não só o WTC, Nova Iorque ou mesmo os Estados Unidos: quando a câmara pára, mostra uma imagem de satélite da Terra. Após os acontecimentos descritos no solo, o mundo que não será o mesmo.

O cuidado em não cair no falso dramatismo está sempre presente. As interpretações são os pólos narrativos em WTC: de um lado os homens (Cage/Peña) soterrados nos escombros do WTC, do outro lado, igualmente "soterradas" pelo peso da incerteza e da perda de alguém próximo, estão as suas mulheres (Gyllenhaal/Bello). Nicolas Cage é forçado pelo argumento a representar um americano de classe média, um indivíduo perfeitamente normal, uma pessoa com sentido de dever que responde ao chamamento para auxiliar as vítimas do atentado. Não existem os traços que marcam a carreira de Cage, é esta a simplicidade que constrói um personagem marcante e que incita o espectador a não desviar a atenção às suas palavras. Por seu lado, Peña confirma em «WTC» o que em «Crash» anunciou: a descoberta de um excelente actor. Maria Bello, a par de Gyllenhaal, transportam o filme com a sua dor e ansiedade.

Uma nota dominante no filme é a insistência na esperança de um futuro melhor. É no amor e na fé que os personagens vão ganhar forças para se manterem vivos. Algumas pessoas poderão insurgir-se contra a suposta mudança de rumo da carreira de Oliver Stone, mas um facto é indiscutível:« WTC», apesar de aparentemente incaracterístico na sua carreira, é um dos filmes mais marcantes da mesma. «WTC» é uma justa homenagem a todos que sofreram com os acontecimentos do ataque às Torres Gémeas que ninguém deve deixar de visionar.

cinco estrelas

Título Nacional World Trade Center Título Original World Trade Center Realizador Oliver Stone Actores Nicolas Cage, Michael Peña, Maria Bello Origem Estados Unidos Duração 129’ Ano 2006

TIFF Toronto International Film Festival - Snowden

A estreia mundial do novo projeto de Stone em Toronto não é à toa: Stone quis mostrar a sua visão da história de Edward Snowden em território americano, consta mesmo que recusou Cannes e Veneza. Recorde-se que o filme já estava concluído o ano passado.

Uma visão que vai gerar polémica e que pode ser um arremesso de discussão política em dias de campanha eleitoral. Para quem queria um filme controverso no festival, este é o bilhete mais caro.

Rui Pedro Tendinha em Toronto

 

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