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Actualizado às 11:21 PM, Dec 4, 2019

A 5ª Vaga - TV Spot

The 5th Wave

Director: J Blakeson

Int.: Chloë Grace Moretz, Nick Robinson, Maika Monroe

The 5th Wave
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As Maravilhas

O segundo filme de Alice Rohrwacher observa uma família de apicultores que luta para preservar a agricultura tradicional. Escrito assim parece ser um retrato sobre uma certa vivência rural, mas a realizadora alarga a sua perspetiva propondo um olhar bastante original sobre um modo de vida que está ameaçado e uma família que se confronta com realidades e tempos diferentes. O filme coloca-nos num lugar rural, algures na Umbria, no centro da Itália, focando uma comunidade que ainda preserva hábitos artesanais. Seguimos a família, pai, mãe e quatro filhas. Wolfgang (Sam Louwyck), o patriarca, é um alemão que foi para o campo produzir mel e que procura preservar as suas filhas do contacto com o exterior. Este apicultor vive crispado, em permanente conflito, até com os agricultores vizinhos, que utilizam pesticidas nas suas culturas, ameaçando as suas abelhas e a qualidade do seu mel. É um homem que vê ameaças permanentes no mundo contemporâneo que o rodeia, resistiu à modernidade, e preparou a sua filha mais velha, Gelsomina (Maria Alexandra Lungu), para lhe suceder e preservar a atividade da quinta. Os dois entram em conflito quando Gelsomina, seduzida pelo fascínio da televisão, inscreve-se num concurso destinado a promover e premiar as famílias que melhor preservam as tradições italianas. Tudo neste programa soa a artificial. Seja a necrópole etrusca, excessivamente primitiva, que serve de cenário, as intenções de premiar e divulgar o genuíno, e até a sua apresentadora (Monica Belluci), que surge transfigurada numa fada televisiva. Muito artifício para um pai e agricultor que é cioso do seu modo de vida. «As Maravilhas» é um filme misterioso e poético sobre o outro tempo, um retrato de uma comunidade que parece vagamente inspirada no estilo de vida dos hippies. Alice Rohrwacher não procura explicações, consolida um olhar simultaneamente poético e cru, confrontando realidades distintas num filme efabulatório. É o seu segundo filme, segue-se a «Corpo Celeste», e confirma que há uma nova cineasta, com 32 anos, capaz de nos propor um olhar diferente sobre um país que ainda não morreu. Como quem sonha, como quem nos transporta para o país das maravilhas.

Le meraviglie
Realização: Alice Rohrwacher
Actores: Alba Rohrwacher, Maria Alexandra Lungu, Sam Louwyck

Estrelas: 4

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Snoopy e Charlie Brown: Peanuts - O Filme

Foi em 1950 que Charles M. Schultz (1922-2000) lançou as primeiras histórias desenhadas dos Peanuts. E não se pode dizer que, pelo menos no plano quantitativo, o seu eco cinematográfico seja muito significativo. Na verdade, este filme lançado no período natalício (título original: «The Peanuts Movie») é apenas o quinto da filmografia dos Peanuts, tendo sido o primeiro, «Um Rapaz Chamado Charlie Brown», produzido apenas em 1969; em qualquer caso, no contexto televisivo, Charlie Brown e a sua “troupe” surgiram em mais de quatro dezenas de especiais.

Seja como for, a raridade cinematográfica dos Peanuts é muito significativa. De quê? Da dificuldade de transpor para as imagens animadas um universo que, além de possuir uma genuína dimensão filosófica, apela a um desenho sóbrio e contemplativo, mais do que à acumulação de cenas de “acção” mais ou menos trepidante.

Dir-se-ia, de facto, que não é possível libertar os Peanuts (sob pena de os descaracterizar) desse misto de serenidade e inquietação, crueza e simbolismo, que fazia (e faz) o fascínio das tirinhas desenhadas por Schultz. Mais do que isso: a controlada brevidade dessa tirinhas faz com que os Peanuts sejam menos um universo de histórias com princípio, meio & fim, e mais uma colecção de vinhetas em que, desde o sentido da vida até aos impulsos festivos de Snoopy, tudo pode ser condensado em três ou quatro desenhos austeros.


Daí, uma vez mais, a sensação de celebração, mas também de frustração, com que este “movie” nos envolve. Porventura avisados dos impasses encontrados em experiências anteriores, os criadores tentam dinamizar os acontecimentos através de cenas mais ou menos delirantes, desencadeadas pela imaginação de Snoopy... O certo é que, apesar de tudo, são os momentos de contemplação e recolhimento que mais nos mobilizam.

Estrelas: 2


Título ORIGInal
The Peanuts Movie
REALIZADOR
Jacques Audiard
VOZES
Noah Schnapp
Bill Melendez
ORIGEM
Estados Unidos
DURAÇÃO
88’
ANO
2015

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 34

Spectre

Spectre», um dos filmes mais aguardados do ano, chega a todo gás aos ecrãs nacionais numa alucinante e musculada aventura que coloca o agente menos secreto do universo em rota de colisão com os fantasmas do seu passado.
O consolado de Daniel Craig, iniciado em «007: Casino Royale» (2006), marcará para sempre uma saga com mais de cinquenta anos de história. Craig criou em três filmes o melhor 007 de sempre, e neste «Spectre» confirma o seu brilhante trabalho. É a interpretação que, em termos humanos, mais se aproxima da visão original do seu criador, o autor Ian Fleming. Ao actor foi-lhe permitido desenvolver um personagem que não faz reset a cada filme, o que lhe permite explorar e aprofundar o martírio de uma alma comprometida com as suas obrigações.

A necessidade de não perder os fiéis espectadores da série, juntamente com a fidelização de novos públicos, habituados a outro tipo de blockbusters (mesmo recordando que a saga Bond, desde os seus primórdios, é a mais original dos blockbusters) levou a um processo de revitalização. O mesmo incutiu um lado cerebral e adulto às aventuras de 007 criando-se uma dinâmica distinta que não abandona o espectáculo mas consolida e ramifica os efeitos da narrativa, humanizando heróis e vilões numa abordagem que culmina majestosamente em «Spectre». Ainda que os produtores de Bond não gostem de falar de sequelas, os quatro últimos filmes de 007 formam um arco de história. Antes tínhamos aventuras soltas, onde, invariavelmente, James Bond tentava impedir uma terrível conspiração que ameaçava o mundo. Actualmente, a saga ganhou contornos mais intimistas, o amor, o desgosto, a vingança, a vida e a morte são aspectos importantes no desenho psicológico de um espião que vive numa zona cinzenta.

Ao revermos «007: Casino Royale», «007: Quantum of Solace» (2008) e «007: Skyfall» (2012), conclui-se rapidamente que os eventos destes filmes não só estão encadeados como a abordagem é definitivamente mais adulta e distinta. As personagens femininas não são ocas, os principais antagonistas entram para a galeria de vilões memoráveis (Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric e Javier Bardem) não só pela escrita dos seus papéis como pela qualidade e desempenho dos actores e dos acontecimentos que deixam sempre o espectador com um nó na garganta ao invés de lhe oferecerem um tranquilizador happy ending.

Nos três últimos capítulos, o agente 007 tem-se visto a braços com um mau karma... o que é um eufemismo quando se está a falar de Spectre, a organização mais famosa da mitologia 007 e que se apresenta agora ao mundo em pleno século XXI. Os responsáveis pelo financiamento do terror global (Le Chiffre, de «Casino Royale»), a manipulação de Estados soberanos (Dominic Greene, de «Quantum of Solace») e o cyber terrorismo (Silva, de «Skyfall») apontam todos para a mesma ideia: num reino de terror e manipulação, a informação é realmente poder. Esta premissa, aliada às contas por ajustar por Vesper (a única mulher que Bond realmente amou em «Casino Royale») e M (a sua chefe que, de certo modo, ocupava o lugar da mãe) está no seio da narrativa uma história pessoal que liga James Bond ao seu némesis, Oberhauser, interpretado de forma sublime por Christoph Waltz – vencedor de dois Óscares e um dos grandes intérpretes da actualidade.

Christoph Waltz assenta que nem uma luva no papel de super vilão, daqueles que vivem em palácios no meio do nada. Ele possui um grande arsenal de ideias maléficas e actos sádicos para com o nosso herói. Já estávamos com saudades deste tipo de escumalha com pedigree. Pelo meio temos outra grande intérprete, a bela e talentosa actriz francesa Léa Seydoux, numa personagem que faz igualmente a ponte entre o passado e o presente.

Em torno da trama central, destaca-se a qualidade dos personagens secundários que, quando comparados com aqueles da era pré-Daniel Craig – uma espécie de cameos em formato de punchline – surgem como pessoas de corpo inteiro. Em «Spectre» encontramos o lacónico vilão Hinx (Dave Bautista) que deixa os seus músculos falarem por si, uma ponta solta em Mr. White (Jesper Christensen), a agenda secreta de C (Andrew Scott) e os companheiros de Bond que estão mais interventivos: o novo M (Ralph Fiennes), a assistente de 007, Moneypenny (Naomie Harris), Tanner (Rory Kinnear) – o fiel confidente de Bond nos livros de Ian Fleming –, e Q, o armeiro da era digital do MI-6, num papel mais alargado, interpretado pelo poço de talento que é Ben Whishaw.

A realização de Sam Mendes é inspirada, combinando a fina arte de bem representar, o fulguroso espectáculo dos efeitos visuais e stunts reais com um argumento intenso e cerebral. Ao lado de Sam Mendes esteve uma equipa de produção com anos de experiência neste filão cinematográfico.

A acção contém sequências que vão deixar os espectadores com os corações aos pulos. Começando pela colorida e explosiva cena inicial no México, teremos depois um tributo com o pé na tábua em Roma, num Aston Martin DB10 (na primeira vez que a série passa pela cidade milenar), reservando tempo para seduzir a espantosa Monica Bellucci e dar um salto aos Alpes austríacos – recordando as mirabolantes sequências na neve da saga 007 –, passando por Marrocos, cidade que traz sempre mistério e classicismo aos filmes de espiões, desaguando finalmente em Londres com um grande big-bang. As cerca de duas horas e trinta minutos passam num piscar de olho.

Sam Mendes parece ter ganho o toque de Midas (sem o lado trágico). O ritmo é intenso e a acção espectacular mas isto não o impede de trabalhar os aspectos mais subtis de uma história de que os espectadores não vão querer perder nem um minuto. «Spectre» é um fenomenal capítulo da renovada era dourada de James Bond.

Star Trek: Além do Universo | Trailer 1

Star Trek Beyond

Realização: Justin Lin

Int.: Idris Elba, Sofia Boutella, Zoe Saldana, Simon Pegg, Simon Pegg, Zachary Quinto, Karl Urban, Anton Yelchin, John Cho

Aterra em 2016

 

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A Infância de um Líder

A origem do mal preocupa o Homem desde tempos imemoriais. A incrível diversidade de textos religiosos que se ocupam do tema, a par da sua centralidade na história da arte e da filosofia, testemunham ao mesmo tempo a omnipresença e a natureza aporética da questão. Não me passa a mim pela cabeça tentar resumir em duas linhas a complexidade do assunto, contudo, a propósito do filme «A Infância de um Líder» (Prémio Revelação TAP no LEFFEST 2015), parece-me interessante contrastar a velha hipótese de Platão, mais tarde recuperada por Santo Agostinho, de que o mal não tem uma existência real ou autónoma. O mal é antes uma falta, é a ausência ou privação do bem. Acontece que no filme de Corbet o mal aparece, justamente, não como uma mera sugestão, mas uma presença. Insidiosa, inegável e manifesta. Tendo visto o filme uma única vez, arrisco exagerar ao dizer que «A Infância de um Líder» tem a marca de uma obra de arte, ou seja, o mais importante escapa forçosamente à análise e é inacessível senão através da experiência. Que isto não nos impeça de conversar.

Full of sound and fury, «A Infância de um Líder» marca a estreia do actor Brady Corbet na realização. Com apenas 27 anos, o autor traz para o seu filme uma série de referências importantes e que não se restringem apenas ao cinema. Outros já falaram da influência de Dreyer ou Jean Vigo, a que se somam nomes mais contemporâneos como os de Lars von Trier e Michael Haneke, com quem Corbet trabalhou enquanto actor, mas eu gostava sobretudo de salientar a ligação explícita com Sartre, através do conto homónimo que lhe serviu de inspiração na escrita do argumento. Mais do que o enredo, Corbet pegou em alguns temas e situações (o pequeno equívoco em relação ao género da criança, ou o fato de anjo que abre tanto o texto de Sartre como a narrativa fílmica) que acaba por explorar de uma maneira muito diferente, não deixando no entanto de captar perfeitamente a corrupção progressiva da criança. Prescott (que no conto se chama Lucien), esconde por trás da sua aparência adorável uma indefinição inquietante. «A Infância de um Líder» joga com este lado enigmático das crianças, o facto de existirem como promessa de algo que ainda não se sabe o que é. O resultado é muito perturbador.

Sendo o foco principal do filme a personagem de Prescott, existe, evidentemente, uma forte dimensão política, a que ele acabará por dar corpo, e que se prende com a ascensão do fascismo na Europa. Ao som da poderosa proposta operática de Scott Walker, o filme começa com uma montagem de imagens de arquivo relativas à Primeira Guerra Mundial e termina com a sugestão da subida ao poder de “um líder” – alusão óbvia a Hitler. Mas a acção desenrola-se sobretudo entre 1918 e 1919. Prescott tem 7 anos e acaba de se mudar com a família para uma casa no campo, nos arredores de Paris, onde o seu pai (Liam Cunningham), um diplomata americano ao serviço do presidente Woodrow Wilson, se reúne com outros altos dignitários para trabalhar na preparação do Tratado de Versalhes – documento que marca o fim da Primeira Guerra mas que hoje temos dificuldade em chamar de tratado de paz. A maior parte do tempo seguimos Prescott enquanto este se passeia com a perceptora de francês (Stacy Martin) ou se entretém a antagonizar aqueles que o rodeiam, em especial a mãe (Bérénice Bejo), uma mulher bastante inteligente mas frustrada com a sua condição de esposa e de mãe e que se esforça por encontrar consolo na religião.

À excepção da curta aparição de Robert Pattison, que infelizmente destoa bastante do resto do elenco, as interpretações são todas irrepreensíveis. Porém, o maior elogio vai necessariamente para a criança, Tom Sweet, que desempenha um papel bastante complexo e exigente. A sua missão era, no fundo, hospedar uma metamorfose silenciosa. Representar um paradoxo. E foi isso que ele fez de modo exepcional.

«A Infância de um Líder» merece toda a exposição possível. Esperemos que o Prémio Revelação acelere o encontro do filme com os seus espectadores numa estreia comercial alargada a todo o país.

cinco estrelas

Realização: Brady Corbet
Actores: Tom Sweet, Bérénice Bejo, Liam Cunningham, Stacy Martin

 

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