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Actualizado às 2:55 PM, Oct 22, 2019

«A Favorita»

Cruel, violento, perverso. Estes são alguns dos adjectivos que habitualmente caracterizam o cinema de Yorgos Lanthimos. «A Favorita», que em muitos aspectos se demarca da restante obra do realizador grego, não será aqui, contudo, diferente. Mas devemos também acrescentar belo, sensual, exuberante... O filme parece reclamar de nós um discurso passional que reflita uma primeira reacção puramente emocional, assente nos sentidos. Só muito mais tarde, talvez numa segunda visita, é que a razão é chamada a dar o seu contributo para o veredicto final: obra-prima!

Ambientado na Inglaterra do século XVIII, «A Favorita» passa-se quase na totalidade dentro dos aposentos da Rainha Ana (Olivia Colman), uma monarca pouco conhecida, até pelos historiadores. Disse-se dela que era ignorante e medrosa. Constantemente grávida (terá tido 17 crianças; morreram todas) e acometida por terríveis crises de gota que a deixavam imobilizada durante dias, a atenção da Rainha era muito disputada na corte. Dentre todos os que procuravam exercer a sua influência, ninguém como Sarah (Rachel Weisz), duquesa de Marlborough, esteve mais próxima de o conseguir. Isto até que Abigail Hill (Emma Stone) entra em cena.

Inspirado em factos reais, o argumento de «A Favorita» (da autoria de Deborah Davis e Tony McNamara) não é o típico drama palaciano. Isto é, não faltam intrigas, traições, jogos de sedução e de poder, mas, acima de tudo, está a verdade das personagens a que o filme dá vida. As três protagonistas, Colman, Weisz e Stone, fazem um trabalho absolutamente extraordinário ao driblar as muitas “armadilhas” plantadas por Lanthimos no caminho da verosimilhança. Ele, que pela primeira vez não conta com o seu habitual co-argumentista, Efhymis Filippou, revela uma faceta mais terna que os espectadores não estavam habituados a ver nos seus filmes. É como se de repente a luz natural (mais uma novidade) iluminasse as personagens, mostrando-as na sua totalidade, na sua humanidade.

«A Favorita» é também o filme onde Lanthimos vai mais longe na experimentação formal. A distorção óptica causada pelo uso de uma lente grande-angular (“olho-de-peixe”) ou da câmara-lenta resultam na criação de um universo onírico que se funde com uma distintiva marca documental. O efeito é verdadeiramente estranho. Às vezes absurdo, cómico, mas nunca falso.

Marcando a afirmação internacional de Lanthimos, «A Favorita» lidera a corrida à 91.ª edição dos Oscars com 10 nomeações, incluindo as categorias de Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Argumento e Melhor Atriz.

«A Favorita» de Yorgos Lanthimos

Yorgos Lanthimos é um cineasta invulgar e as suas obras falam por si. Com narrativas cheias de twists e muito intrincadas, Lanthimos é um dos novos nomes que têm conquistado cada vez mais atenção. O realizador grego começou por surpreender com «A Lagosta», uma obra com uma premissa simples na essência mas complexa no seu desenvolvimento, com uma dupla de atores à altura, composta por Colin Farrell e Rachel Weisz. O filme foi muito elogiado e recebeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original.

Lanthimos volta a trabalhar com Rachel Weisz, vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária por «O Fiel Jardineiro» (2005), nesta nova obra, mas conta agora também com Olivia Colman, que, além da rainha Anne que interpreta neste filme, será a próxima rainha da série televisiva «The Crown». O trio de protagonistas completa-se com Emma Stone, uma das principais atrizes da nova geração do Cinema norte-americano, recentemente galardoada com o Óscar de Melhor Atriz Principal por «La La Land: Melodia de Amor» (2016).

Este é um projeto que tem vindo a ser trabalhado por Lanthimos há vários anos. Aliás, antes mesmo de «A Lagosta» e «O Sacrifício de Um Cervo Sagrado», sendo a sua primeira obra em que não assina o argumento desde 2001, algo que regularmente divide com Efthimis Filippou.

«The Favourite» foca-se numa história de ambição e intriga, passando-se na corte inglesa. Trata-se de um palco perfeito para três atrizes em que o talento não falta, fazendo deste um dos filmes que têm chamado a atenção da crítica. A obra teve estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza, onde foi galardoada com dois prémios: Leão de Prata - Grande Prémio do Júri e Coppa Volpi para Melhor Atriz, entregue a Olivia Colman.

HISTÓRIA
Na Inglaterra do século XVIII, a rainha Anne (Olivia Colman) ocupa o trono mas é a sua amiga, Sarah Churchill (Rachel Weisz), quem acaba por governar. Contudo, o seu posto é ameaçado com a chegada de Abigail (Emma Stone), uma nova criada.

Realizador: Yorgos Lanthimos («A Lagosta», 2015; «O Sacrifício de Um Cervo Sagrado», 2017)

Elenco: Olivia Colman, Rachel Weisz, Emma Stone

  • Publicado em Feature

TENAZ COMO UMA LAGOSTA

Talvez já se tenha colocado a questão: se fosse um animal, que animal seria? Um exercício de imaginação ou talvez de vaidade para entreter tempos mortos. Em «A Lagosta» a escolha deixa de ser hipotética e torna-se em algo real. Mais do que isso, torna-se numa punição, no pior dos destinos. Situado num futuro próximo, o filme conta a história de uma sociedade distópica onde os solitários têm apenas 45 dias para encontrar um parceiro ou serão transformados num animal. Este, poderá ser da sua escolha caso falhem na sua missão mas cumpram todas as regras ou num atribuído pelas autoridades que será tão mais fraco e de vida perene quanto a gravidade das ofensas. O protagonista David (interpretado por Colin Farrell) escolhe ser uma lagosta por esta ter uma longa longevidade, sangue-azul como os aristocratas e ser fértil durante toda a vida. E porque gosta do mar. Esta descrição, a um tempo racional e patética, marca o tipo de humor que percorre todo o filme. A aridez dos diálogos, ditos de forma mono-tónica e sem emoção, com explicações que se tornam surreais de tão racionais, resultam em momentos hilariantes que garantem o sucesso do filme.

Quando recebi a sinopse estava preparado para ver algo como uma das inúmeras adaptações de «A Metamorfose» de Kafka ou o clássico «A Mosca» (1986) de David Cronenberg com todos os efeitos especiais e de caracterização das fases de transformação. Mas esse não é o interesse de Lanthimos e toda a parte da transformação é ocultada: apenas vemos uma porta que dá acesso ao local onde esta se realiza e duas linhas de diálogo com uma fugaz descrição do processo. O que parece interessar ao realizador é a desesperada tentativa de racionalização do ser humano perante o absurdo da vida. Tal como já o tinha feito nas obras anteriores – sobretudo em «Canino» (2009) - Lanthimos caminha em terrenos difíceis, próximos do universo de Michael Haneke. Em ambos, os modos e processos da civilização são vistos como absurdos e desumanos. Em «A Lagosta» a reflexão é feita sobre a necessidade, ou mesmo, a obrigatoriedade, de constituir família: de casar e ter filhos. Numa época em que o casamento e a adopção estão a ser vistos como uma certeza do politicamente correcto e não como um modelo normativo asfixiante ou uma instituição falida, a questão torna-se mais do que pertinente.

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Mas voltemos ao argumento. David, ao chegar ao hotel, faz amizade com dois “condenados”: um coxo (Ben Whishaw) e um sigmático (vulgo “sopinha-de-massa”), interpretado por John C. Reilly. O trio discute as suas probabilidades de sucesso e as suas estratégias para consegui-lo. Cada um seguirá um caminho diferente: o coxo opta por enganar o sistema, o sigmático prefere iludir-se e acreditar que terá sucesso, enquanto que o herói irá contra o que lhe é imposto: primeiro foge do hotel para se juntar aos “solitários” e depois deixa-os para se juntar à Cidade. O herói percebe que ambos os sistemas são igualmente totalitários: se o primeiro obriga ao casamento, o segundo impõe a solidão. Um faz anátema da masturbação, o outro proscreve as relações sexuais. Será com uma míope (Rachel Weisz) e graças a um derradeiro sacrifício que consegue vencer o sistema.

A escolha dos actores, pese embora tenha funcionado, é algo desconcertante. Habituados que estamos a ver Colin Farrell no papel de galã musculado é uma surpresa vê-lo aqui barrigudo, com óculos, bigode e penteado a lembrar Geraldo Rivera. Mas Farrell mostrou-se à altura das exigências e foi devidamente reconhecido com vários prémios que lhe foram atribuídos pela sua interpretação. A ombreá-lo esteve Olivia Colman maravilhosamente no papel de directora do hotel; mas, de resto, os actores não tiveram interpretações de nota, talvez porque as personagens atribuídas eram justamente de pessoas anónimas, anódinas e alexotímicas: para as representarem tiveram que desaparecer. As roupas que envergam são tão sensaborronas quanto as personalidades das personagens. Numa das cenas – um baile no hotel – todas as mulheres estão com o mesmo vestido e os homens com o mesmo fato e gravata. Não se entenda isto, contudo, como uma falha; antes pelo contrário os figurinos de Sarah Blenkinsop são perfeitos para as personagens e para os cenários. Aliás, todo o filme tem uma enorme coerência visual. Por exemplo, o luxuoso Parknasilla Spa Resort de County Kerry (Irlanda) onde foram filmadas as cenas do Hotel, aparece com uma decoração impessoal e sem alma típica das grandes cadeias internacionais de hotelaria. Este é um mundo sem emoção nem gosto pessoal onde tudo é uniformizado e formatado. Coube à magnífica banda sonora preencher os vazios de sentimento e envolver as cenas como um bafo de calor humano.

The Lobster

A coerência que teve visualmente não parece ter sido alcançada de forma tão eficaz no que diz respeito ao argumento. O filme, por vezes, parece ser a adaptação de um livro mais complexo e que deixou partes omissas. Há várias passagens em que é exigido ao espectador que as complete com a sua imaginação. Se são falhas ou figuras de estilo caberá a cada um decidir. Mas, de forma geral, esta foi uma obra bem conseguida e, ironicamente, ao apresentar-nos um mundo cinzento, sem marcas pessoais ou identidade acabou por se tornar em algo com sabor, diferente e tenaz... como uma lagosta. 

Colin Farrell e Yorgos Lanthimos juntos após «A Lagosta»

Antes da estreia nacional de «A Lagosta», já esta semana, chega a notícia que o irlandês Colin Farrell vai voltar a colaborar com o realizador grego Yorgos Lanthimos («Canino») em «The Killing of a Sacred Deer».

Ainda não são conhecidos mais detalhes sobre o filme que será escrito novamente por Yorgos Lanthimos e o habitual parceiro de escrita Efthymis Filippou, ambos tinham colaborado em «A Lagosta», «Alpeis» e «Canino».

A Lagosta

Uma sequência inicial hilária, marcada por uma conversa sobre preferências sexuais com um Colin Farrell gorducho e bigodudo já prenuncia estarmos diante de um sci-fi romântico a la «Uma História de Amor» (2013), no qual o futuro é discretamente desenhado na direção de arte por indícios do amanhã, sem tintas hi-tech pesadas. É pela força do diálogo – cômico sempre, com aspirações ao existencialismo – que o grego Yorgos Lanthimos («Canino») exercita (com refinamento) sua obsessão temática: o constrangimento. Num mundo onde amantes em busca de afeto são transformados em animais caso falhem em sua busca por um parceiro, Farrell e seus pares de peso (John C. Reilly, Ben Whishaw) vivem situações constrangedoras na procura por uma namorada, expondo assim o que existe de mais patético do querer. Essa exposição rendeu ao filme o Prêmio do Júri em Cannes.

Rodrigo Fonseca em Cannes 2015

Título Nacional A Lagosta Título Original Lobster Realizador Yorgos Lanthimos Actores Colin Farrell, Ben Whishaw, Rachel Weisz, Léa Seydoux, John C. Reilly Origem Irlanda/Reino Unido/Grécia/Holanda/Estados Unidos Duração 118’ Ano 2015

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