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Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

Green Book – Um Guia Para a Vida

Com o brilharete que tem feito nesta temporada de prémios dir-se-ia que «Green Book – Um Guia Para a Vida» se apresenta como algo de extraordinário no panorama. Esclareça-se já que, na verdade, não é assim. No entanto, vivem-se tempos, sobretudo na indústria cinematográfica americana, em que os filmes, mais do que o cinema que têm dentro, funcionam como “serviço de entrega” de mensagens e temáticas aos espectadores. E quanto a isso não temos nada contra, desde que no processo criativo não se anule completamente o fator “cinema”... Neste contexto, a boa notícia é que «Green Book», apesar de não se revelar uma obra maior ou sequer um objeto de fibra autoral (Peter Farrelly, cujo currículo se faz de comédias realizadas com irmão, como «Doidos Por Marry», só agora atingiu algum pedigree), tem mérito suficiente no ofício narrativo e sobretudo na conjugação dos seus atores. A saber, Mahershala Ali e Viggo Mortensen são a genuína atração deste filme – que nos fala do racismo entranhado na cultura americana –, conseguindo projetar nas suas personagens a humanidade estrutural de um bom conto, como se tem usado dizer, à maneira de Frank Capra.

Esta é a história verídica de Don Shirley (Ali) e Tony Vallelonga (Mortensen), o primeiro um pianista clássico negro, o segundo um segurança italo-americano convertido, nos anos 1960, em motorista deste músico numa digressão pelo Deep South – região conotada com uma acentuada postura racista. É então essa viagem de mau augúrio que vai expor as diferenças epidérmicas e de classe entre um e outro, mas também (e acima de tudo) favorecer o crescimento de uma verdadeira amizade, entre os tons moderados do drama e da comédia. Estamos assim perante um quadro suficientemente específico da realidade americana e sobejamente universal na criação de bons sentimentos que, apesar de arriscar pouco na dureza do retrato dos Estados Unidos – temos apenas um momento que fica na memória, quando o carro pára em frente a um campo com trabalhadores negros que olham fixamente o seu “semelhante” –, consegue ser muito competente na construção dramática.

«Green Book» chega assim à nomeação para o Óscar de melhor filme (que soma com as da dupla de atores), envolvido pelo calor humano que faz falta aos nossos dias. Se quisermos elaborar um pouco a teoria de um filme “à Capra”: tal como foi a vontade de transmitir esperança às pessoas no pós-guerra que esteve por trás de «Do Céu Caiu Uma Estrela» (1946), também é uma adequação ao momento que faz o filme de Farrelly aquecer o coração do espectador. Resta saber se o tempo será generoso com ele, para ter garantida alguma da eternidade do clássico de Frank Capra.

tres estrelas

Crítica publicada na Metropolis nº 66 (Fevereiro 2019)

Capitão Fantástico

A segunda longa-metragem de Matt Ross no papel de realizador (e argumentista) fez a sua estreia em Sundance no início deste ano, mas foi em Cannes que recebeu o primeiro reconhecimento do seu potencial, com o prémio Un Certain Regard para Melhor Realizador. Mais conhecido pelas suas personagens de «American Horror Story» e «Silicon Valley», e por pequenos papéis em filmes como «American Psycho», «O Aviador» e «A Outra Face», Ross poderá ter aqui o seu bilhete dourado para competir noutras categorias.
Até agora, «Capitão Fantástico» venceu alguns festivais de cinema americanos e já existem rumores quanto à nomeação de Viggo Mortensen para Óscar de Melhor Ator, mas concorde-se ou não com a temática, este filme espelha uma realização supercompetente, uma direção de atores imbatível, uma fotografia notável, uma banda sonora irrepreensível e um elenco que deixará marcas no coração de todos.

Dizer que se trata da história de uma família “diferente” é muito redutor face ao carisma de um filme que, a par de outros como «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos», nos leva numa verdadeira viagem emocional sobre o que faz de nós humanos. Com as nossas falhas e sempre convictos de que estamos a fazer o correto, o que fazer quando o mundo onde estamos integrados não nos compreende e não entende a nossa linguagem?

Para facilitar o trabalho dos atores, Ross colocou o elenco num boot camp, com aulas de ioga, treino de combate, aulas de música e até workshops de como preparar cadáveres de animais (no filme vai perceber porquê!). Viggo Mortensen foi ainda mais longe e chegou algumas semanas mais cedo às filmagens para plantar o jardim que se vê no filme e para viver no local. Com esta preparação, Ross conseguiu arrancar uma performance exímia de Mortensen e ofereceu ao mundo um conjunto de novos atores que certamente darão que falar no futuro. Frank Langella aparece por breves momentos, os suficientes para nos relembrar o seu enorme talento.

Quanto à premissa do filme, Ben (Mortensen) é um pai de seis filhos que escolhe criá-los à margem do que a sociedade entende como uma educação “convencional”. Ele ensina-os a caçar e a meditar, a ler sobre física quântica, treina-os para enfrentarem a Natureza e as calamidades do mundo e, sobretudo, incita-os a pensarem por si próprios, mas depois da morte da sua esposa, esta família é exposta ao universo dos comuns e as suas diferenças acentuam-se. Numa road trip de sentimentos, Matt Ross coloca-nos uma questão fulcral na consciência: afinal, quem está certo? Em qual das posições nos revemos?

Numa altura em que a Humanidade está a ser questionada sobre os seus valores, sobre como chegámos aqui e como deveremos avançar, «Capitão Fantástico» é um convite para pararmos e pensarmos. Não existem fórmulas 100% perfeitas e é o respeito pela diferença que nos eleva enquanto seres. Temos todos a aprender com o universo que nos rodeia e todos têm direito às suas escolhas, mas existe uma beleza incontornável em saber fazer parte do todo, mantendo a individualidade.

«Capitão Fantástico» é sobre a parentalidade, sobre a educação, sobre a diferença, sobre a morte e sobre a vida, mas é também, e acima de tudo, um dos filmes mais belos do ano e um dos mais tocantes dos últimos tempos.

quatro estrelas

Título Nacional Capitão Fantástico Título Original Captain Fantastic Realizador Matt Ross Actores Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler Origem Estados Unidos Duração 118’ Ano 2016

 

Capitão Fantástico

«Capitão Fantástico» é um daqueles filmes que só aparecem de vez em quando, fazendo-nos sair da sala de cinema com algo para pensar. Provocadora e pertinente, a obra explora os deveres da paternalidade, o que é ser um bom pai e educador, com um pouco de comédia negra adicionada. Escrito e realizado por Matt Ross, a obra apresenta-nos a história de Ben (Viggo Mortensen), que vive com os seus seis filhos na floresta, ensinando-os a serem autónomos e a sobreviverem na mesma. Não têm aulas, mas sabem falar várias línguas. Não têm contacto com videojogos e computadores mas discutem sistemas totalitários como se de um assunto básico se tratasse. Entretanto, a sua vida pacífica é alterada quando a mãe da família falece e Ben e filhos vão até ao funeral. O seu embate com a vida fora daquele seu pequeno cantinho colocará à prova os ideais de pai que Ben tanto defende.
Com uma realização tímida mas um argumento tremendo, Ross consegue um filme peculiar e que surpreende. O protagonista Viggo Mortensen está primoroso e consegue uma das melhores interpretações da carreira, mas o que acaba por impressionar mais é o elenco jovem. A química criada entre todos dá uma magia especial ao filme e cada um – mesmo os mais pequenos – consegue convencer o espectador e todos estão à altura da complexidade (que não é pouca) dos seus personagens.

«Capitão Fantástico» arranca-nos dos nossos preconceitos e questiona-nos, põe em causa e deixa dúvidas, incluindo nos próprios personagens. Esse é o elemento mais interessante, quando vemos o Capitão Fantástico, ou melhor, Ben a tirar a sua capa de super-herói e refletir se as suas opções, que considerava inabaláveis, são, de facto, as mais certas. Afinal de contas, a força heroica de Ben não reside em qualquer superpoder mas na sua dimensão humana e esta obra glorifica isso mesmo, numa dedicatória ao simbolismo da família, numa moldura cheia de riqueza poética que, por vezes, entretém e, por outras, comove. Um filme que se apodera do adjetivo fantástico na sua verdadeira aceção.

cinco estrelas

Título Nacional Capitão Fantástico Título Original Captain Fantastic Realizador Matt Ross Actores Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler Origem Estados Unidos Duração 118’ Ano 2016

 

Capitão Fantástico

Não há lugar comum, visual ou narrativa, que consiga resistir ao talento de Viggo Mortensen, como comprova a energia que o rei Aragorn de «O Senhor dos Anéis» empresta a este drama sobre excentricidades em família, laureado com o prémio de direção da seção Un Certain Regard. Também ator, Matt Ross dribla bem as obviedades da trama com a ajuda deste centro-avante de valor inestimável, luminoso no papel de um escritor que cria a família em meio à natureza, alheio à tecnologia e às formas mais calóricas de fast food. Depois que a mulher dele morre, ele é obrigado a levar seus meninos e meninas para o enterro, enfrentando a caretice do sogro (Frank Langella) e as burocracias das metrópoles. Entre os diálogos memoráveis, o melhor: “Pai, o que é Coca-Cola?” e ele, “É água envenenada”.

*****

Título Nacional Captain Fantastic Título Original Capitão Fantástico Realizador Matt Ross Actores Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler Origem Estados Unidos Duração 118’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

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