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Actualizado às 10:34 PM, Sep 15, 2019

«High Life» - crítica

«High Life» tem uma premissa invulgar e chamativa, mas acaba por não acertar por completo na sua concretização. A história passa-se num futuro distópico, nos confins do Espaço, já bastante além do nosso sistema solar, em que Monte e a sua pequena filha Willow lutam por sobreviver numa nave espacial, em total isolamento. O tempo começa a escassear, fazendo com que pai e filha se aproximem a passos largos do seu derradeiro destino, o buraco negro onde o tempo e o espaço deixam de existir, no final de uma missão que procurava encontrar energias alternativas para a Terra.

A cineasta francesa Claire Denis assina o argumento e a realização da obra, evidenciando-se mais pela criação e desenvolvimento da história do que pela direção, que se revela pouco cativante e certeira no objetivo de agarrar o espectador à narrativa. Embora com alguns momentos mais marcantes, a trama desenrola-se com pouca garra e nem a banda-sonora - que, num filme como este, poderia ter um papel particularmente relevante - se evidencia, tendo uma presença meramente superficial.

A dupla Robert Pattinson e Juliette Binoche destaca-se largamente no elenco. Enquanto ela é já uma das atrizes francesas com mais provas dadas no Cinema e com reconhecimento pelos pares, Pattinson tem aqui uma bela oportunidade para mostrar que é muito mais do que Twilight e não desperdiça. Com uma interpretação segura e magnetizante, o ator é a alma do filme, acrescentando-lhe mais camadas dramáticas.

Sem muitos efeitos especiais ou floridos, «High Life» foca-se em paradoxos constantes: nas emoções (ou na falta delas); na esperança de um pai mas em que o próprio também parece sobreviver a si mesmo; nas muitas alusões ao corpo e à sexualidade, mas sem se abordar propriamente o sexo.

«High Life» baseia-se numa ótima ideia, mas mostra alguns sinais de confusão narrativa. O primeiro e o terceiro atos são os mais bem-conseguidos, enquanto o segundo denota alguma falta de ritmo e capacidade de criar ligação entre os vários momentos da história. Este não é um filme de ficção científica comum, o que acaba por ser refrescante em relação a outras obras do género, mas falta-lhe algo mais para se tornar verdadeiramente marcante.

tres estrelas

«High Life» com Robert Pattinson

Nos confins do espaço, muito além do nosso sistema solar, Monte (Robert Pattinson) e Willow, a sua filha pequena, vivem juntos a bordo de uma nave espacial, em isolamento total.

Monte, um homem solitário cuja severa autodisciplina é uma proteção contra o desejo – o seu e o de outros, – tornou-se pai contra a sua vontade. O seu esperma foi usado para inseminar Boyse (Mia Goth), uma jovem que deu à luz Willow. Ambos eram membros de uma tripulação de prisioneiros: encarcerados espaciais, condenados à pena de morte. Usados como cobaias pela perversa Dra. Dibs (Juliette Binoche) são enviados numa missão ao buraco negro mais próximo da Terra.

Agora, somente Monte e Willow permanecem. Mas Monte não é o mesmo. Através da filha, e pela primeira vez, experimenta o nascimento de um amor avassalador. Pela sua parte, Willow cresce, tornando-se numa menina e depois numa jovem mulher. Juntos e sozinhos, pai e filha aproximam-se do seu destino final – o buraco negro onde o tempo e o espaço deixam de existir.

«Good Time» c/ Robert Pattinson - crítica

O cinema “perdido” e “vagabundo” dos irmãos Safdie já tem honras de seleção oficial. Aposta forte da comité de seleção de Thierry Frémaux, mas não deixa de ser irónico que o terceiro filme destes manos nova-iorquinos seja o mais fraco.

O filme é a história de um assalto a um banco falhado por dois irmãos na Nova Iorque dos nossos dias. Um conto de obsessão fraternal sustentado pelo apelo da cidade marginal e pejadinha de “cromos” falhados. O melhor que aqui se encontra são algumas sombras de um cinema americano final anos 70, começo dos anos 80. Uma Nova Iorque que evoca a Nova Iorque dos primeiros Abel Ferrara.

Rui Pedro Tendinha em Cannes

Rainha do Deserto

Face aos resultados desequilibrados, mas ao mesmo tempo muito motivadores, de «Rainha do Deserto», não podemos deixar de recordar que a obra do alemão Werner Herzog sempre evoluiu “condicionada” por duas componentes muito particulares: em primeiro lugar, um obstinado gosto documental que o leva, por vezes, a enfrentar desafios de fascinante radicalismo (lembremos o seu documentário «A Gruta dos Sonhos Perdidos», lançado em 2012, sobre as grutas Chauvet no sul de França); depois, o envolvimento em projectos de ficção que implicam invulgares meios humanos e logísticos (sendo «Fitzcarraldo», de 1982, sobre a construção de um teatro de ópera no meio da selva, o exemplo mais emblemático).

«Rainha do Deserto» nasce dessa mesma dinâmica. Trata-se de fazer o retrato de Gertrud Bell (1868-1926), arqueóloga inglesa que acabou por ter um papel decisivo nas políticas do Império Britânico entre os dois conflitos mundiais, em particular na constituição da Jordânia e do Iraque. É fácil compreender tudo aquilo que seduziu Herzog. Afinal de contas, para além da sua condição de mulher a afirmar-se num mundo quase totalmente ocupado e gerido por personagens masculinas, Bell foi também alguém que viveu directamente, por vezes com risco da própria vida, um tempo em que todos os mapas — geográficos, diplomáticos e simbólicos — foram reconvertidos de modo mais ou menos radical.

Centrado numa bela composição de Nicole Kidman, o «Rainha do Deserto» é claramente desigual na prestação dos seus actores; Robert Pattison, em particular, tem evidentes dificuldades em sustentar a personagem de T. E. Lawrence — e escusado será dizer que a comparação com Peter O’Toole, em «Lawrence da Arábia» (1962), está longe de o favorecer...

Além do mais, o filme parece ressentir-se daquilo que terá sido a “aceleração” da própria rodagem (e sabe-se que houve problemas vários na organização da sua produção). São especialmente débeis as cenas de ligação dos vários capítulos, em particular no modo como nos dão a ver o contexto paisagístico da acção (e não será arriscado supor que tal seria um elemento fundamental na mise en scène de Herzog). Ao mesmo tempo, «Rainha do Deserto» faz-nos aceder a um labirinto de personagens e culturas do Médio Oriente que importa contemplar para além de qualquer cliché mediático (e, em particular, televisivo). Nesta perspectiva, o filme consegue mesmo a proeza de nos levar a pressentir que muitas das convulsões do nosso presente têm as suas raízes na época em que Gertrud Bell foi uma tão especial protagonista.

tres estrelas

Título Nacional Rainha do Deserto Título Original Queen of the Desert Realizador Werner Herzog Actores Nicole Kidman, James Franco, Robert Pattinson Origem Estados Unidos/Marrocos Duração 128’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

Rainha do Deserto

A vida de Gertrude Bell, a mulher que nos anos 20 teve um papel instrumental na forma como o Médio Oriente ficou dividido, não deu um bom filme. O argumento de Herzog explora a sua juventude e o primeiro desgosto amoroso, uma paixão proibida por um homem de baixa condição social. Mais tarde, Bell tornou-se escritora, arqueóloga e aventureira, tendo mantido com o povo beduíno uma relação privilegiada. Nicole Kidman, de cabelo dourado e sempre muito maquilhada, passeia-se de camelo pelo deserto em pose de diva mas nunca nos dá a conhecer a verdadeira alma de uma mulher que acabou por ser agente secreta da coroa britânica e amiga pessoal de T.E. Lawrence (interpretado sem genica alguma por Robert Pattinson), exatamente Lawrence da Arábia. Mas se é verdade que o cineasta alemão quis fazer a sua “versão feminina de Lawrence da Arábia”, também é verdade que a espessura épica de David Lean não é para aqui chamada. O que é infelizmente convocado é um academismo insuportável, próprio de uma lição de História decorativa. Todo o filme parece demasiado polido, carece da habitual excentricidade de Herzog, que aqui em Berlim referiu que este seu trabalho pode ser visto como um gesto feminista. Claro que não pode. Não basta filmar uma heroína a suar no deserto para ganhar um carimbo feminista...Também sem sal estão os homens do filme: Damian Lewis e o omnipresente James Franco, a interpretar os dois homens que Gertrude amou. A pior obra da carreira do grande cineasta alemão.

Queen of the Desert de Werner Herzog

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

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