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Actualizado às 11:16 PM, Oct 20, 2019

Big Little Lies: Um furacão chamado Mary Louise Streep (review)

Dois anos depois de ter arrebatado a crítica, «Big Little Lies» está de volta para o segundo round. Há episódios novos todas as semanas, a partir de 10 de junho na HBO Portugal. A METROPOLIS já viu os primeiros três episódios e deixa desde já a sugestão da mudança do nome da série para “The Mary Louise Show”.

Se conhecerem alguém que queira ser ator ou atriz, digam-lhe para começar pelos básicos: ver tanta cinematografia de Meryl Streep quanto possível. Tudo o que Mary Louise (o seu nome de batismo) faz parece receber o toque de Midas e ser transformado imediatamente em ouro. De uma versatilidade assombrosa, a atriz é uma figura lendária no ramo e muito dificilmente teremos outro profissional tão magistral e consensual nas próximas décadas. «Big Little Lies» já era uma série de qualidade astronómica, do argumento ao elenco, mas com Mary Louise, a atriz e a personagem – que tem o mesmo nome – , é something else.

A adaptação do livro de Liane Moriarty soube a pouco, pelo que «Big Little Lies» cresceu para além disso e, após ter vencido prémios avulso na categoria de Série Limitada, voltou com nova temporada. Já na sequência do final do livro, que é encontrado na season finale de 2017, a história evoluiu para o que acontece depois da morte de Perry (Alexander Skarsgård). É aí que entra Meryl Streep, um dos luxos só permitidos a estrelas como Nicole Kidman ou Reese Witherspoon, que se cruzam com ela nas cerimónias anuais de prémios e de cinema e lhe podem perguntar se quer espalhar magia na TV. A atriz aceitou o desafio e assume a dianteira dos acontecimentos como Mary Louise, a mãe de Perry, ainda em luto e a ajudar Celeste (Kidman) com os filhos. Dificilmente ficará mais do que uma temporada, portanto esta foi feita para si e à sua medida, para deleite da audiência.
Isso mesmo: para quem julgava que a entrada de Meryl não era nada mais do que uma jogada de marketing da HBO, podem ficar descansados! Há muita Mary Louise na segunda temporada e com qualidade. Por um lado, a mãe de Perry está muito envolvida na storyline da nora, algo que se estende às mulheres que estavam presentes na festa quando Perry supostamente caiu. Por outro lado, a mulher coloca-lhes ‘alvos’ na testa e, sem pudor, entra em conflito com personagens como Madeline (Witherspoon) e Renata (Laura Dern). Uma das fotos mais populares e divulgadas da segunda temporada é, aliás, um ar de fúria de Madeline nas costas de Mary Louise. Algo que se torna ainda mais cómico para quem já leu que Reese é uma grande admiradora de Meryl. “Nunca confiei em mulheres pequeninas” arrisca-se a ser uma das frases da temporada.

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A influência desta mulher, sempre inconveniente de uma forma irritantemente simpática, alastra-se a mais áreas, como seria de esperar. E aquilo que de início era uma ajuda imprescindível, vai-se tornando cada vez mais desconfortável. Esta ação, que Meryl Streep concretiza de forma divinal – até me faltam os adjetivos para a descrever –, é o motor de todas as narrativas paralelas a Celeste, alavancando a trama de forma tão natural que os episódios outrora um pouco pesados de «Big Little Lies» se veem agora de um trago. Verdadeiramente sobrenatural, como só os predestinados conseguem.

O vilão não morreu... totalmente
Se antes o núcleo central da história – Celeste, Madeline, Renata, Jane (Shailene Woodley) e Bonnie (Zoë Kravitz) – não se dava da melhor maneira, a verdade é a relação melhorou bastante com os acontecimentos da temporada passada. Ainda assim, se estão à espera de um conflito resolvido, desenganem-se, já que todas as mulheres revelam marcas do que aconteceu, mais ou menos à superfície. E, enquanto as suas vidas parecem compostas, as emoções que soltam vão destruindo, pouco a pouco, essa aparente perfeição. Como tal, ainda que a noção de feminismo que habita a série da HBO seja romancizada, na medida em que mostra uma face positiva e de união – com as storylines aglutinadas como um puzzle –, há também um lado mais obscuro que o argumento não tem medo de explorar. E que a realização, desta vez a cargo de Andrea Arnold, evidencia de maneira sublime.

Por sua vez, o vilão da primeira temporada não desapareceu totalmente. Alexander continua a surgir como Perry, ainda que desta vez seja apenas em vídeo ou flashbacks das personagens. No entanto, a sua presença é inquietante na vida de toda a gente e, para quem pensava que a sua morte colocaria um ponto final no mal que fez, a realidade que encontramos é bem diferente. As cinco envolvidas na queda mortal estão traumatizadas, sendo que umas o demonstram mais do que outras, com Bonnie particularmente magoada pelo sucedido. Em blackout desde que empurrou o marido de Celeste, a jovem é ‘afogada’ pelo segredo que tem de guardar, mesmo que contra a sua vontade, já que a ideia de mentir não partiu dela.

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Laura Dern volta a brilhar com a sua peculiar Renata, enquanto Jane encontra alguma normalidade depois de matar, literalmente, o fantasma que a assombrava. Ainda assim, e mais uma vez, esta é uma narrativa sobre as marcas que ficam da violência, e que se mantêm presentes mesmo sem o perigo à espreita, algo muito bem explorado com Celeste e Jane. O caso de Celeste, sobretudo, é abordado de forma complexa, sem problemas magicamente solucionados, mas também sem a demonização de Perry, o que torna a maneira como lida com a dor bastante complexa. Não se pode ainda ignorar que entre o final da primeira temporada e o início da segunda surgiram os casos de abuso de Harvey Weinstein e tantos outros, com a forte popularidade do #MeToo, movimento ao qual Reese e Nicole, produtoras executivas, se associaram em diversos momentos.

A atualidade ajuda-nos a perceber as camadas que aparecem, em catadupa, nos dois primeiros episódios e que começam a ser exploradas no terceiro. Talvez no caso do segundo peque por excesso, já que as revelações se sucedem demasiado rápido, como se os astros se tivessem alinhado para, ao mesmo tempo, introduzir as storylines de conflito nas personagens principais. Não obstante, há vários temas atuais a marcar presença: o mais forte, como já foi dito, é o das consequências do abuso e a forma como afeta o futuro das vítimas, mas há também a problemática do clima – um dos temas pelos quais Donald Trump é mais criticado –, os traumas da infância e crescimento e ainda o facto de a ausência de reação de parte da relação poder ser entendido igualmente como traição ao parceiro. É uma aula aberta sobre abuso, problemas conjugais e muitos outros temas rotineiros, sem descurar no modo como esta enormidade de assuntos afeta as crianças e adolescentes, mesmo que sem intenção.

Embora a review à segunda temporada de «Big Little Lies» seja amplamente positiva, há uma razão que, sozinha, seria suficiente: Mary Louise Streep. Não se vão arrepender.

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A reinvenção de Nicole Kidman em 'Destroyer'

Previsto para estrear em Portugal no dia 31, «Destroyer: Ajuste de Contas» é uma narrativa em que os códigos do polar se adaptam aos conceitos existenciais nestes dias de «True Detective». Exibido na seleção competitiva do BFI London Film Festival, em outubro, onde roubou o fôlego de uma plateia com dezenas de críticos, “O peso do passado” (título brasileiro) se impõe na tela numa amarga mistura de melancolia, adrenalina e a desconstrução de uma estrela em estado de graça, Nicole Kidman. A sua potência vem do domínio pleno da sua diretora, a nipo-americana Karyn Kiyoko Kusama (de «Aeon Flux»), sobre a cartilha das narrativas policiais, com brilho especial nas lições físicas (perseguições, tiroteios, prenúncio de violência). Há na sua obra uma tensão contínua em torno de twists de argumento, um nervosismo nas movimentações da câmara, um desdém com as subtilezas – é cinema do pathos, da brutalidade. Os seus filmes têm algo de Don Siegel (realizador de «Madigan» e «Dirty Harry») em seu ethos de aspereza absoluta. Revelada na seara indie há 19 anos, com o cult «Girlfight», Karyn se especializou em narrativas de ação com personagens femininas que carregam feridas afetivas. O afeto é o combustível de «Destroyer», título original deste thriller orçado em US$ 9 milhões, narrado em dois tempos narrativos paralelos, que acompanhamos de modo consecutivo: fica a memória de um lado, gloriosa; fica o presente, devastado do outro. Nicole caminha entre eles no papel da detetive Erin Bell. Seu pretérito era perfeito: no auge da forma física e do desejo, infiltra-se num gangue de criminosos. Os seus dias atuais são de ressaca: alcoólatra, incapaz de lidar com a filha adolescente, carrega correntes de um erro cometido há cerca de 16 anos. Um erro com perfume de amor, a única força capaz de desafiar o seu senso de dever nesta trama fotografada com uma luz sem saturações, crua, como se fazia nos bons policiais dos EUA dos anos 1970... como Siegel fazia.

«Destroyer: Ajuste de Contas» com Nicole Kidman

DESTROYER: AJUSTE DE CONTAS narra a odisseia moral e existencialista da detective da polícia de Los Angeles Erin Bell (Nicole Kidman) que, enquanto jovem polícia, foi infiltrada num gangue no deserto da Califórnia, um caso que resultou em trágicas consequências. Quando o líder desse gangue reaparece muitos anos depois, Erin vai ter de lidar com a história que tem com os remanescentes membros do gangue, para poder finalmente acertar contas com os demónios que lhe destruíram o passado.

Estreia a 31 de Janeiro

Boy Erased

Um drama cheio de intensidade e com uma história baseada em fatos reais, «Boy Erased» é a adaptação das memórias de Garrard Conley, lançado em 2016, e aborda um tema muito controverso: um programa de conversão para “curar” a homossexualidade, algo que, na altura em que o livro de Conley foi lançado, apenas tinha sido banido em alguns estados norte-americanos, como Califórnia, Vermont, Nova Jérsia, Illinois, Oregon e Columbia.

Conley precisou de enfrentar esta terapia de conversão para não perder amigos e família, numa história profunda sobre aceitação e identidade que é agora levada para o grande ecrã por Joel Edgerton, que assume várias funções neste filme: realizador, argumentista, produtor e ator. Esta é a segunda longa-metragem do australiano, mais conhecido pela sua carreira na interpretação, em obras como «Warrior - Combate Entre Irmãos» (2011), «O Grande Gatsby» (2013) e «Uma História de Amor» (2013). Enquanto realizador, estreou-se com o thriller «Um Presente do Passado» (2015), arriscando agora numa obra muito desafiante.

Para cumprir o desafio, Edgerton muniu-se de um trio com muitas cartas na manga. Russell Crowe, vencedor do Óscar de Melhor Ator Principal por «Gladiador» (2000), e Nicole Kidman, vencedora do Óscar de Melhor Atriz Principal por «As Horas» (2002), interpretam os pais do jovem Jared, colocando-o um ultimato que ele acaba por ceder. O tal jovem ganha vida através de uma nova estrela do Cinema, Lucas Hedges, que impressionou os fãs de cinema com a sua interpretação tocante em «Manchester by the Sea», que lhe rendeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Ator Secundário. «Boy Erased» teve estreia no Festival de Cinema de Toronto e foi bem recebido pela crítica, podendo ter algo a dizer nesta temporada de prémios.

HISTÓRIA
Jared (Lucas Hedges), um jovem de 19 anos, mora numa pequena cidade conservadora do Arkansas e filho de um pastor da igreja Batista. Homossexual, Jared é confrontado pela família e é forçado a participar num programa de conversão.

Realizador: Joel Edgerton («Um Presente do Passado», 2015)

Elenco: Lucas Hedges, Nicole Kidman, Russell Crowe, Joel Edgerton, Xavier Dolan

Big Little Lies: a morte fica-lhes tão bem

Há quem a considere uma espécie de 'True Detective dos subúrbios', mas a nova aposta do TV Séries é muito mais do que isso. Para já, «Big Little Lies» é a surpresa mais agradável da nova temporada televisiva.

A mulher sonha, a HBO quer e a obra nasce. Numa altura em que se faz muita (e boa) televisão, só a ideia de juntar as atrizes Reese Witherspoon e Nicole Kidman, que nunca se cruzaram no grande ecrã, parece ser suficiente para convencer as principais produtoras televisivas e levá-las a competir pelo que quer que seja que elas queiram fazer. Se pelo caminho se formar um elenco de luxo, onde se contam nomes como Shailene Woodley, Laura Dern, Alexander Skarsgård ou Adam Scott, tudo sob o olhar da lente do realizador Jean-Marc Vallée, acabar em frente ao ecrã é uma inevitabilidade.

Como bem sabemos, uma série nova não significa, necessariamente, uma história nova. Veja-se a tendência avassaladora de adaptar narrativas já conhecidas ao pequeno ecrã, ou de as renovar. Tal como acontecerá, ainda durante 2017, com «The Handmaid's Tale», «American Gods» ou «Sharp Objects» – esta última até tem o mesmo realizador –, também «Big Little Lies» segue (e é inspirada por) um livro. Neste caso, Reese Witherspoon e Nicole Kidman, produtoras e protagonistas da minissérie da HBO, formaram uma dupla de peso para convencer a autora Liane Moriarty a ceder os direitos da obra, que em Portugal tem o título de Pequenas Grandes Mentiras. E, sejamos francos, quem seria capaz de lhes dizer que não?

BIG 3

“Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Que o diga Jane (Shailene Woodley), uma mãe solteira recém-chegada ao subúrbio dominado pela popular, mas persona non grata, Madeline Martha Mackenzie (Witherspoon). A sua integração já se adivinhava difícil, mas tudo se complica quando a filha de Renata (Laura Dern) acusa o seu filho, o aparentemente pacato Ziggy (Iain Armitage), de a ter agredido. Para que não restem dúvidas, estamos, claramente, num mundo dominado por mulheres fortes: esta posição é concretizada logo no genérico, onde os sucessivos vislumbres das personagens femininas, ao volante, evidenciam a ausência dos homens. Esta é, aliás, uma das pistas que nos leva a antecipar que não estamos perante uma série igual às outras. «Big Littles Lies» é, na sua essência, uma antítese daquilo que regularmente encontramos na televisão (ainda que se veja cada vez mais).

Assim como acontecia com «True Detective», a narrativa desloca-se, com propósito, por diferentes espaços temporais, deixando para o final as revelações mais determinantes. E, apesar de abrir, de forma fulgurante, com um homicídio, a verdade é que, acabado o piloto, não sabemos quem é a vítima – nem quando será confirmada a sua identidade. Para atiçar ainda mais a nossa curiosidade, nenhuma das personagens centrais se senta na cadeira para ser interrogada pelas autoridades, sob o olhar atento da detetive Adrienne – interpretada por Merrin Dungey, que volta a vestir a “farda” depois do desaire em «Conviction». Sem cadáver e sem culpado, as suspeitas vão-nos perseguindo ao mesmo tempo que a câmara embrenha, às vezes freneticamente, pelas realidades aparentemente perfeitas dos subúrbios.

Apesar de as pistas serem escassas, o conflito vai-se adensando em torno de Madeleine, Jane e Celeste (Kidman), as figuras principais desta história, com o mote a ser lançado logo no arranque, acompanhado por flashbacks: se Madeleine não se tivesse lesionado no pé quando voltava para o carro, ou se Jane não tivesse parado para a ajudar, será que o homicídio tinha acontecido? A pergunta é feita pelos detetives, que procuram saber, através das personagens terciárias da ação, o que escondiam as três mulheres. Enquanto Madeleine é fortemente criticada pelos vizinhos e pais dos colegas das filhas, Celeste é invejada – e julgada – pelo casamento que mantém com Perry (Alexander Skarsgård), mais novo do que ela. A certa altura, não sabemos onde acaba o crime e começa a coscuvilhice...

BIG 1
O drama social, tantas vezes explorado na arte, ganha contornos de série policial e, ao sermos guiados pelo passado e pelo presente, temos a noção clara que estamos a ser manipulados. Mas, captados pelo argumento vibrante e realização competente, que fortalecem ainda mais um elenco galáctico, já não temos fuga possível. Nada é inofensivo ou inocente, e as certezas tornam-se mais fortes à medida que as primeiras surpresas vão sendo conhecidas. Por um lado, Celeste não é tão feliz quanto aparenta, sofrendo, na escuridão, da violência de Perry, apresentado como o pai e marido perfeito. Jane, que encanta as melhores amigas Madeleine e Celeste, parece esconder algo bastante suspeito, e perigoso o suficiente para a levar a dormir com uma pistola por baixo da almofada. Já Madeleine tem de conviver rotineiramente com o pai da primeira filha e a nova mulher deste (Zoë Kravitz).

No meio da confusão que vamos conhecendo, Jane parece esconder a resposta do mistério, sendo várias vezes sugestionado que ela ou Madeleine podem ser as vítimas – ou as culpadas. Mas é esta mesma insinuação prematura que nos leva a crer (ou nos engana) que nenhuma delas morreu. O enigma de Jane desmonta-se nos primeiros diálogos, embora passe quase despercebido numa banal conversa de café: ela é mãe solteira mas nunca viveu com o pai do filho. O seu desconforto nesta confissão, subtil, é indicador de um potencial problema: quem é o pai de Ziggy? Que tipo de relação mantiveram? Como lida Jane com isso? Será que foi trocada por uma mulher idêntica às novas amigas, ou o seu passado esconde algo mais escabroso? Os palpites são muitos mas, depois dos 52 minutos do primeiro episódio, que se vê num trago, as perguntas são ainda mais.

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Lion – A Longa Estrada Para Casa

«Lion – A Longa Estrada Para Casa» é um drama tocante e surpreendente, numa história verídica que impressiona. Em 1986, Saroo (Sunny Pawar/Dev Patel), um menino indiano de cinco anos, perde-se do irmão numa estação de comboios. Quando se refugia numa das carruagens, acaba por viajar durante dias, até Calcutá, a mais de 1500 quilómetros de casa. Ultrapassando vários obstáculos para conseguir sobreviver, Saroo é depois adotado por Sue (Nicole Kidman) e Joe Brierley (David Wenham), um casal australiano. 25 anos depois, Saroo é já um adulto, continuando a ter algumas lembranças da sua infância e um grande desejo de rever a sua família biológica. A sua força de vontade levá-lo-á a enfrentar o quase impossível, numa busca constante até casa.

Baseado na autobiografia “A Long Way Home”, da autoria de Saroo Brierley, o filme acerta no tratamento de uma história muito difícil, sem recurso ao melodrama. Garth Davis assina a sua primeira longa-metragem e, ao contrário de muitos filmes do género, opta por poucos flashbacks, resultando numa primeira parte da obra quase sem diálogos, em que imergimos na jornada de Saroo, não espreitando qualquer monotonia. A decisão de Davis resulta na perfeição graças a um jovem ator, Sunny Pawar, profundamente carismático e com um olhar incrivelmente expressivo. Por outro lado, é quando se chega à fase adulta do protagonista que há alguma repetibilidade e prolongamento de determinados momentos que, porventura, poderiam ser evitáveis, perdendo paulatinamente o ritmo e maior dimensão artística do início. A ambiência paradoxal das duas vivências de Saroo é ainda incrementada pela ótima fotografia de Greig Fraser, que oscila entre a confusão das favelas indianas e as paisagens soberbas da Tasmânia.

Dev Patel tem uma das interpretações da carreira, mas quem acaba mesmo por destacar-se é Nicole Kidman, em mais uma performance sensível e à flor da pele da atriz, que arrisca a voltar a estar na corrida ao Óscar, tendo já vencido o galardão na categoria de Melhor Atriz Principal, por «As Horas» (2002).

Mais do que uma história inesquecível, recheada de coragem e uma vontade imensa que supera tudo, a obra expõe também o desaparecimento de milhares de crianças por ano na Índia, algo pouco explorado e que merece um debate mais alargado. Um pot-pourri de emoções sobre um leão na verdadeira aceção da palavra, «Lion – A Longa Estrada Para Casa» é uma viagem narrativa inolvidável.

tres estrelas

Título Nacional Lion – A Longa Estrada Para Casa Título Original Lion Realizador Garth Davis Actores Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney Mara Origem Austrália Duração 118’ Ano 2016

Stoker

Park Chan-wook, o prolifico realizador sul coreano de «Oldboy», um mestre a criar atmosferas, assina «Stoker», a sua primeira obra fora do seu país e rodado na sua totalidade em língua inglesa.

O argumento original pertence a Wentworth Miller (o protagonista que fascinou meio mundo em «Prison Break»), ele é uma descoberta na escrita. É uma história simples com personagens intrincados numa ambiência de thriller psicológico com tons dramáticos numa “coming-of-age story” com veios de romance e terror.

A acção desenrola-se no Tennessee, numa mansão de Nashville, uma espécie de castelo com duas mulheres cativas da obsessão de um estranho convidado que esconde um passado melindroso. A repentina morte de Richard Stoker (Dermot Mulroney), que deixa a esposa Evelyn (Nicole Kidman) e a filha India (Mia Wasikowska), coincide com o aparecimento de Charles (Matthew Goode), o irmão de Richard, que esteve ausente em parte incerta durante vários anos. Ele vai despoletar uma série de acontecimentos e uma influência bizarra em torno da família Stoker. India também celebra os seus 18 anos, a chegada à vida adulta apresenta-se no filme como uma narrativa de crescimento com um twist perverso. Mia Wasikowska é o centro deste universo numa “batalha” pela salvação da inocência.

A edição em Blu-ray é uma experiência cinematográfica, a realização ultra estilizada de Park Chan-wook abraça todo um ambiente com detalhe microscópico, tudo foi preparado com uma precisão religiosa pelos diferentes departamentos artísticos da obra. O trabalho de fotografia ou a direcção artística não têm uma função meramente decorativa, a composição das cenas é um reflexo da dinâmica interior dos vários personagens. A encenação assume perfis oníricos e teatrais e os actores arcam em pleno os mistérios dos seus personagens. A música de Clint Mansell, compositor de «Black Swan» (2010) combina a elegância e a beleza dos acordes clássicos com a energia da música pop. O momento alto da obra em termos sonoros culmina numa sequência dramática de sedução e êxtase ao piano num dueto escrito por Philip Glass, é uma composição e uma cena subliminar interpretada por Mia Wasikowska e Matthew Goode.

É extremamente insólito que este magnífico filme, com actores e um realizador que são reconhecidos do público não tenha espaço de estreia nas salas portuguesas onde se batem recordes internacionais com o número de estreias às quintas-feiras.

A edição em Blu-ray está recheada de informação sobre a rodagem e contém alguns apetecíveis extras como a performance ao vivo de Emily Welles com o tema título de Stoker “Becomes the Colour”, o design do cinema de Londres onde se realizou a estreia do filme e o making of do poster internacional são outras opções curiosas.

quatro estrelas

Título Nacional Stoker Título Original Stoker Realizador Park Chan-wook Actores Mia Wasikowska, Nicole Kidman, Matthew Goode Origem Estados Unidos Duração 99’ Ano 2013

 

Rainha do Deserto

Face aos resultados desequilibrados, mas ao mesmo tempo muito motivadores, de «Rainha do Deserto», não podemos deixar de recordar que a obra do alemão Werner Herzog sempre evoluiu “condicionada” por duas componentes muito particulares: em primeiro lugar, um obstinado gosto documental que o leva, por vezes, a enfrentar desafios de fascinante radicalismo (lembremos o seu documentário «A Gruta dos Sonhos Perdidos», lançado em 2012, sobre as grutas Chauvet no sul de França); depois, o envolvimento em projectos de ficção que implicam invulgares meios humanos e logísticos (sendo «Fitzcarraldo», de 1982, sobre a construção de um teatro de ópera no meio da selva, o exemplo mais emblemático).

«Rainha do Deserto» nasce dessa mesma dinâmica. Trata-se de fazer o retrato de Gertrud Bell (1868-1926), arqueóloga inglesa que acabou por ter um papel decisivo nas políticas do Império Britânico entre os dois conflitos mundiais, em particular na constituição da Jordânia e do Iraque. É fácil compreender tudo aquilo que seduziu Herzog. Afinal de contas, para além da sua condição de mulher a afirmar-se num mundo quase totalmente ocupado e gerido por personagens masculinas, Bell foi também alguém que viveu directamente, por vezes com risco da própria vida, um tempo em que todos os mapas — geográficos, diplomáticos e simbólicos — foram reconvertidos de modo mais ou menos radical.

Centrado numa bela composição de Nicole Kidman, o «Rainha do Deserto» é claramente desigual na prestação dos seus actores; Robert Pattison, em particular, tem evidentes dificuldades em sustentar a personagem de T. E. Lawrence — e escusado será dizer que a comparação com Peter O’Toole, em «Lawrence da Arábia» (1962), está longe de o favorecer...

Além do mais, o filme parece ressentir-se daquilo que terá sido a “aceleração” da própria rodagem (e sabe-se que houve problemas vários na organização da sua produção). São especialmente débeis as cenas de ligação dos vários capítulos, em particular no modo como nos dão a ver o contexto paisagístico da acção (e não será arriscado supor que tal seria um elemento fundamental na mise en scène de Herzog). Ao mesmo tempo, «Rainha do Deserto» faz-nos aceder a um labirinto de personagens e culturas do Médio Oriente que importa contemplar para além de qualquer cliché mediático (e, em particular, televisivo). Nesta perspectiva, o filme consegue mesmo a proeza de nos levar a pressentir que muitas das convulsões do nosso presente têm as suas raízes na época em que Gertrud Bell foi uma tão especial protagonista.

tres estrelas

Título Nacional Rainha do Deserto Título Original Queen of the Desert Realizador Werner Herzog Actores Nicole Kidman, James Franco, Robert Pattinson Origem Estados Unidos/Marrocos Duração 128’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

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