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Actualizado às 3:34 PM, Mar 25, 2020

«Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação De Uma Harley Quinn)»

«Esquadrão Suicida» (2016) não é um filme particularmente memorável, mas houve um ponto alto que mostrou à DC outro caminho passível de explorar: Harley Quinn. As cenas com a personagem foram as melhores do filme e muito se deve à interpretação marcante de Margot Robbie. A atriz australiana deu vida a uma anti-heroína excêntrica, desvairada e completamente imprevisível, não deixando passar a oportunidade para mostrar a sua versatilidade. Margot Robbie é mesmo uma das atrizes do momento, contando já com duas nomeações aos Óscares, por «Eu, Tonya» (2017) e «Bombshell - O Escândalo» (2019), além da participação em filmes como «O Lobo de Wall Street» (2013), «Maria, Rainha dos Escoceses» (2018) e «Era Uma Vez em... Hollywood» (2019).

Harley Quinn regressa agora ao Cinema com toda a força num filme mais focado em si. É certo que continua a estar a inserida num grupo - desta vez apenas feminino -, mas a narrativa será sobre ela. É também o primeiro da DC para maiores de 18 anos - Harley Quinn já está a fazer História. Falando em girl power, este é um filme realizado, escrito e protagonizado por mulheres. Cathy Yan dirige, após ter tido aceitação positiva das suas curtas-metragens e de «Dead Pigs», que marcou a sua estreia nas longas-metragens. Christina Hodson está a cargo do argumento, depois de ter assinado «Shut In - Reféns do Medo» (2016), «Unforgettable» (2017) e «Bumblebee» (2018).

birds of prey

«Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação De Uma Harley Quinn)» baseia-se em livros de banda-desenhada publicados na década de 1990 sobre um grupo de heroínas femininas e será o oitavo do Universo Cinematográfico da DC. Destaque, ainda, no elenco, para Ewan McGregor, que interpreta o papel de um sádico vilão, e para as atrizes que interpretam os restantes elementos do grupo de heroínas que acompanham a protagonista, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell e Rosie Perez. Depois deste filme, Harley Quinn já tem nova presença garantida no Cinema, em «The Suicide Squad», previsto para 2021, e que também terá participação da atriz portuguesa Daniela Melchior.

História: Harley Quinn (Margot Robbie) junta-se a um conjunto de vigilantes com quem forma um inusitado grupo de heroínas. A sua missão é defender uma jovem das mãos do criminoso Black Mask (Ewan McGregor).
Realizadora: Cathy Yan («Dead Pigs», 2018)
Elenco: Margot Robbie, Ewan McGregor, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Rosie Perez

[Texto publicado na revista Metropolis nº74 no especial de antevisão de cinema em 2020]

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Margot Robbie - Melhor Actriz 2018 Revista Metropolis

Tonya Harding ficou tristemente conhecida como a patinadora artística que esteve envolvida num plano para ferir a sua rival Nancy Kerrigan com o objetivo de ganhar vantagem e triunfar nos Jogos Olímpicos de 1994. Este ano ficamos a conhecer mais pormenores sórdidos sobre esse caso mirabolante que foi um atentado ao fair play da competição desportiva. E quem não era nascido na época teve oportunidade de se espantar com o sucedido no filme biográfico «Eu, Tonya». A australiana Margot Robbie estudou este episódio durante meses e sujeitou-se a um rigoroso treino de patinagem para executar diversos números no ringue, como o triplo axel, o primeiro executado por uma patinadora norte-americana e que popularizou Tonya Harding, em 1991. Margot é Tonya: uma patinadora irreverente e fulgurante sob o gelo, uma bimba espontânea fora do ringue. Não há muitas personagens reais, vivas, que tenham sido tão bem interpretadas no cinema contemporâneo. E não é fácil conseguir esta colagem quando se trata de representar alguém que foi uma estrela do desporto e esteve tão exposta, por boas e péssimas razões, na comunicação social. Para a história que ninguém recordará fica registado que Margot Robbie perdeu o Óscar de melhor atriz para Frances McDormand. Provavelmente, foi uma escolha errada.

Texto publicado na Metropolis nº 65 (Janeiro 2019)

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«Maria, Rainha dos Escoceses» com Saoirse Ronan e Margot Robbie

Os retratos históricos têm sempre um lugar muito especial no Cinema, mesmo quando são tomadas algumas liberdades na narrativa. «Mary Queen of Scots» é mais um exemplo de uma obra que junta uma história poderosa com atores magnetizantes. A narrativa centra-se na vida turbulenta de Mary Stuart, rainha de França aos 16 anos e viúva aos 19, que desafiou a pressão para casar novamente. Em vez disso, voltou para a Escócia, sua terra-natal, para reclamar o seu direito de ocupar o trono, enfrentando diretamente Elizabeth I. Rivais no poder mas ambas símbolos de empoderamento feminino, esperam-se muitas intrigas e revoltas, não fosse este um filme que se passa nos meandros da realeza, um pouco ao estilo, por exemplo, de «Duas Irmãs, Um Rei» (2008), de Justin Chadwick.

Esta é uma das maiores rivalidades da História e já foi abordada várias vezes no Cinema e na Televisão, ganhando agora nova versão por Josie Rourke, com os dois lados da contenda a serem interpretados por Saiorse Ronan, que dá vida à personagem principal, e Margot Robbie, que assume o papel de Elizabeth I. Ambas as atrizes já contam com nomeações para os Óscares, sendo este filme, quiçá, outra oportunidade para uma nova indicação.

Os historiadores afirmam que as duas figuras histórias não chegaram a conhecer-se em pessoa. Contudo, o filme irá retratar o encontro e, para se prepararem para este importante momento, as atrizes fizeram questão de não se cruzarem nas filmagens até esse dia. Margot Robbie fala sobre a relação das figuras retratadas e considera que “elas têm uma irmandade, um amor pela outra, mas o amor complexifica-se pelo facto de que a sobrevivência de uma ameaça a outra. É uma história de amor entre as duas personagens. Uma história de amor muito, muito complicada”.

HISTÓRIA
Quando ainda era criança, Mary Stuart (Saoirse Ronan) foi prometida ao filho mais velho do rei Henrique II, Francis, e foi levada para França. Contudo, Francis morre e Mary volta para a Escócia para tentar derrubar do poder a sua prima, Elizabeth I (Margot Robbie), rainha de Inglaterra.

Realizadora: Josie Rourke («Much Ado About Nothing», 2011)

Elenco: Saoirse Ronan, Margot Robbie, Guy Pearce

Estreia: 17 de janeiro

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Esquadrão Suicida - Harley Quinn

1ª aparição: TV «Batman: The Animated Series», no episódio “Joker’s Favor” (1992)

Nome verdadeiro: Dr. Harleen Frances Quinzel

Quem é: Dr. Quinzel começou por ser uma psiquiatra estagiária no asilo de Arkham, até que conheceu um paciente que mudaria a sua vida, Joker, que lhe invadiu a mente e transformou-a numa mestre do crime. Ela tornou-se completamente obcecada por ele, ajudando-o múltiplas vezes a fugir do manicómio, até que os seus chefes hierárquicos a despediram. Foi aí que resolveu juntar-se a Joker no mundo do crime e assumir o nome de Harley Quinn.
poderes: Incrivelmente criativa e com muita loucura à mistura, Harley Quinn não tem super-poderes mas é absolutamente imprevisível, sendo também bastante ágil fisicamente, por ter praticado ginástica.

Harley Quinn é considerada tão perigosa a nível psicológico que os guardas têm de ir alternando entre si para que ela não tenha hipótese de lhes invadir a mente. Margot Robbie descreve a sua personagem como sendo, “sem dúvida, um dos mais imprevisíveis membros do esquadrão. Ela também foi psiquiatra, pelo que tem um conhecimento extenso sobre a doença mental e como manipular as pessoas”. “Penso que tenho a melhor personagem do filme. Não a trocaria por nenhum outro”, realça.

Robbie assinala que Harley Quinn “adora causar tumulto e destruição” e que o realizador “queria que ela fosse forte e durona, mas também divertida. Sempre que inclinava a minha interpretação para a comédia, ele dirigia-me em sentido contrário. Ele queria que ela fosse bastante perversa”. Já Ayer refere que “ela é muito assustadora. Estou, de certa forma, contente por ela ter salto alto agulha porque, caso contrário, seria ainda mais assustadora”, “há uma sexualidade, uma atração mas, quando percebes a forma como a personagem pensa, ela praticamente usa isso como uma arma para desarmar as pessoas, uma espécie de judo visual para conseguir o que ela quer”.

suicide squad

Harley Quinn tem uma particularidade interessante: ao contrário de todos os outros, ela não surgiu na banda desenhada, mas numa cena da série «Batman: The Animated Series», tendo sido criada apenas com a intenção de ser um cameo e nada mais. Além disso, Harley Quinn é baseada numa estrela da telenovela «Days of Our Lives». Os criadores da personagem, Paul Dini e Bruce Timm, recordam uma cena em que a atriz Arleen Sorkin vestia um fato de bobo da corte, de onde resultou o look de Harley Quinn, bem como os sons da personagem de Sorkin. Mais curioso ainda, Arleen Sorkin deu voz à personagem em «Batman: The Animated Series», bem como noutros momentos do Universo Animado da DC, até 2012, quando a atriz se reformou. A vilã tem agora a sua grande estreia cinematográfica, mas a verdade é que isso quase aconteceu em 1999. Após «Batman para Sempre» (1995) e «Batman & Robin» (1997), a Warner Bros. começou a preparar um terceiro filme, que nunca viria a ver a luz do dia, ou melhor, o escurinho da sala de cinema. A obra chamar-se-ia «Batman Unchained» e voltaria a ter Joel Schumacher na cadeira de realização, tal como nos dois filmes precedentes. Haveria um destaque para Harley Quinn, com Madonna e Courtney Love na calha para interpretar a personagem, que formaria parelha com o Scarecrow (interpretado por Nicolas Cage), com um único objetivo: derrubar Batman de uma vez por todas. Todavia, na televisão, Harley Quinn já apareceu, na série «Birds of Prey», sendo interpretada por Mia Sara.

A australiana Margot Robbie, a rainha deste verão cinematográfico – que também protagonizou «A Lenda de Tarzan», que estreou em julho – tem, com Harley Quinn, uma oportunidade única para mostrar toda a sua versatilidade. A atriz preparou-se durante 6 meses para interpretar a personagem, tendo tido aulas de ginástica e tiro ao alvo. Leu também todos os comics em que Harley Quinn dava o ar de sua graça. “Fiz muita pesquisa sobre doença mental e co-dependência. Estava a tentar encontrar um caminho para perceber por que ela está tão apaixonada pelo Joker. Considerava que ela é co-dependente dele. Agora, que fiz a pesquisa, percebi que se trata mais de uma adição do que de uma doença. Vês muitos lados dela. Às vezes, ela é mesmo divertida. Outras, é muito má. Ela simplesmente gosta de tudo o que faz. Quer seja algo bom ou mau, terá uma porção igual de gozo. Ela não é sempre a personagem mais amável”.

SS harley

Harley Quinn é uma das personagens que os fãs mais esperam ver em «Esquadrão Suicida», o que se traduziu numa pressão adicional para a atriz: “Foi um pouco um território não explorado interpretar personagens que não o foram antes. Mas, ao mesmo tempo, senti uma enorme responsabilidade para fazer justiça à personagem por todos os fãs que estão desejosos de ver isso. Li imensos fóruns e tentei apanhar as coisas-chave que as pessoas adoram na Harley e ter a certeza que o transmitia enquanto criava com o David uma pessoa crível. O resto foi criação, completamente”. Particularmente marcante em Harley Quinn é o seu guarda-roupa e maquilhagem, num processo que demorava 3 horas a concluir, já que incluía tatuagens, peruca e a pele completamente branca. “Sem aquele cabelo e maquilhagem, não me sentiria, de todo, na personagem. Quando estou pronta, não me pareço em nada comigo mesma e começo a comportar-me de forma muito diferente”, assume Robbie. David Ayer corrobora: “É interessante porque quando vejo a Margot a sair do roupeiro, não a reconheço. Não sei quem é. Ela é o exemplo de alguém que se tornou completamente na personagem, se transformou e abraçou isto. Penso que faz parte da diversão”. O cineasta considera ainda que Harley foi a personagem mais divertida de escrever, devido à sua “anárquica alegria de vida. Ela é muito animada”.

Não obstante, Harley Quinn não seria, de todo, a mesma sem Joker. Margot Robbie assevera que a vilã é completamente “louca” quando está com o Joker mas, quando interage com os restantes membros do Esquadrão, fica “um pouco mais concentrada”. “Ela é incrivelmente dedicada ao Joker. Eles têm uma relação disfuncional, mas ela ama-o de qualquer forma”, salienta. A atriz classifica as cenas entre os dois como “muito selvagens e loucas”, sendo “estranho, um casal fascinante” e “de loucos, assustador”. “Estava obviamente muito interessada em todas as partes em como ela se tornou na Harley Quinn e como acabou em Arkham e por que ela quer lá estar. (...) Sempre gostei das suas histórias românticas porque sou uma rapariga e não consigo evitá-lo. Mas o que achei mais interessante foram as partes em que ela tinha grandes conversas iniciais com o Joker”. “A história da Harley tem que ver com os seus relacionamentos, não apenas com ele, mas com encontrar-se a si própria e a sua independência”, concluiu.

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Esquadrão Suicida

Pode-se dizer que «Esquadrão Suicida» é melhor do que «Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça», mas a verdade é que a fasquia no universo DC/Warner também não estava muito alta. O “esquadrão” está em serviços mínimos a tentar limpar a imagem dos heróis charneira da DC enquanto fazem o máximo de estragos no grande ecrã.

«Esquadrão Suicida» reúne o pior dos piores num grupo bastante suis generis de vilões forçados a formar uma super-equipa para reduzir a sua sentença na cadeia enquanto tentam salvar os EUA e o mundo.

O filme de David Ayer não é uma desilusão completa mas sabe a pouco. Numa equipa com tantos personagens com margem de progressão é algo frustrante que em 120 minutos só tenhamos quatro personagens com significado, as restantes figuras são absolutamente planas. A narrativa é uma espécie de anúncio de wrestling onde tudo é feito de plástico e onde falta alma e coração.

O humor é cáustico e tem a assinatura da senhora mais bela do hemisfério sul, a australiana Margot Robbie, que enche o ecrã e mostra que é muito mais do que uma cara laroca ao interpretar Harley Quinn, uma personagem tresloucada e profundamente apaixonada por Joker (Jared Leto), a maior desilusão do filme. O palhaço mais icónico do cinema (as minhas desculpas ao «It – Palhaço Assassino»), que teve no passado a assinatura de gigantes como Jack Nicholson ou Heath Ledger, surge sub-representado por Jared Leto que não é mais do que uma sombra pálida destas interpretações. É caso para publicar o anúncio: “Precisa-se Palhaço Psicótico”.

O melhor do filme, a par de Margot Robbie, é Will Smith e Joel Kinnaman que interpretam personagens assentes respectivamente no amor pela filha (Shailyn Pierre-Dixon) e na paixão por uma mulher, a arqueóloga June Moone (Cara Delevingne) que está possuída por uma entidade maligna com uma agenda de destruição global. A vilã do filme tem peso pluma face a uma super-equipa que passa o filme a discutir e a elaborar planos de fuga até que decidem perder as ilusões e agirem como heróis.

As debilidades do argumento são até certo ponto compensadas pela realização eficaz de David Ayer. Apesar de a montagem ter o ritmo acelerado de um videoclip conseguimos compreender tudo o que se desenrola em cena e as coreografias estão ao serviço das especificidades dos personagens. Os excessos de flashbacks provam ser interlúdios que preenchem os vazios narrativos dos personagens. Uma nota positiva também para a super banda sonora, um autêntico best-of dos monstros do rock.

Apesar da sua galeria de personagens excêntricos e da acção hard-core «Esquadrão Suícida» é um filme que claramente caminha sobre pezinhos de lã para não afundar ainda mais a reputação de um filão que se quer produtivo como o concorrente mais bem sucedido: a Marvel. Falta no cinema a duplicação dos sucessos da DC na televisão que gozam de liberdade criativa e narrativa e personagens de corpo inteiro. O maior sucesso crítico e comercial da DC continua a ser a saga operática de Batman, de Christopher Nolan. O filme referência de super-heróis de 2016 é mesmo «Deadpool», que na origem tinha a mesma irreverência e o sentido de politicamente incorreto de «Esquadrão Suicida», já esta produção da DC/Warner fica aquém das expectativas. Não há sucessos instantâneos sem muito trabalho, e a DC parece estar a forçar uma fórmula que claramente não resulta além dos fãs dos comics.

duas estrelas

Título Nacional Esquadrão Suicida Título Original Suicide Squad Realizador David Ayer Actores Will Smith, Jared Leto, Margot Robbie Origem Estados Unidos Duração 123’ Ano 2016

 

 

Os Últimos na Terra

É bastante bizarro que o interior de um restaurante de fast food possa parecer duzentas vezes mais assustador que o mundo depois de um desastre nuclear. Mas foi isso mesmo que Craig Zobel conseguiu fazer. Se não acredita, experimente pensar onde é que preferia passar a sua tarde de sexta-feira: no ChickenWich, de «Obediência» (2012), ou no cenário de «Os Últimos na Terra» (2015)?

Apesar de os planos de abertura nos darem a ver o habitual espectáculo de uma cidade em ruínas, rapidamente se torna claro que Zobel quis com o seu novo filme explorar diferentes aspectos do género pós-apocalíptico. Aqui não há zombies ou mutantes à espreita. Quase todo o filme se passa num vale verdejante, uma espécie de paraíso perdido que, não se sabe bem como, escapou à contaminação radioactiva que dizimou o resto do planeta. É neste lugar de excepção que se vão refugiar Ann (Margot Robbie), John Loomis (Chiwetel Ejiofor) e Caleb (Chris Pine). Uma mulher e dois homens. Eles são os últimos na Terra.

A rudeza de uma leitura aritmética aponta como inevitável a irrupção do conflito. Mas, se é verdade que a adição de Caleb (personagem que não existe no romance homónimo de Robert C. O’Brien no qual o filme se baseia) vem demarcar algumas tensões que, no fundo, já estavam em cima da mesa – a solidez dos afectos e a força desestabilizadora do desejo, a crença religiosa e a uma visão secular do mundo, etc. –, é preciso salientar como, sobretudo nestas condições extraordinárias, as personagens se comportam, basicamente, como gente decente e razoável. Isto são excelentes notícias se, como somos levados a crer, a continuação da espécie depende deles. Contudo, como é sabido, o bom material genético raramente fornece bom material para histórias.

A sobriedade atonal de «Os Últimos na Terra» vai dando lugar a uma espécie de inércia que a montagem paralela e a introdução de elipses em momentos-chave não resolve. A ambiguidade surge assim como fraca camuflagem para uma certa deriva da narrativa fílmica. As alusões bíblicas, por exemplo, ou a importância da fé como caminho para a salvação são motivos aparentemente importantes mas que, à semelhança do que acontece com a “tradução livre” do título original («Z for Zachariah») para português, se diluem e perdem valor muito antes de chegarem a ser explorados.

Inteiramente responsável por nos prender ao ecrã quase até ao final é, sem dúvida, a qualidade da interpretação dos actores, em especial de Chiwetel Ejiofor e Margot Robbie. Eles são a âncora de um filme fundamentalmente indeciso que acontece nos intervalos entre cada plano. 

tres estrelas

Título Nacional Os Últimos na Terra Título Original Z for Zachariah Realizador Craig Zobel Actores Chiwetel Ejiofor, Chris Pine, Margot Robbie Origem Islândia/Suiça/Nova Zelândia/Estados Unidos Duração 98’ Ano 2015

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