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Actualizado às 11:21 PM, Dec 4, 2019

Green Book – Um Guia Para a Vida

Com o brilharete que tem feito nesta temporada de prémios dir-se-ia que «Green Book – Um Guia Para a Vida» se apresenta como algo de extraordinário no panorama. Esclareça-se já que, na verdade, não é assim. No entanto, vivem-se tempos, sobretudo na indústria cinematográfica americana, em que os filmes, mais do que o cinema que têm dentro, funcionam como “serviço de entrega” de mensagens e temáticas aos espectadores. E quanto a isso não temos nada contra, desde que no processo criativo não se anule completamente o fator “cinema”... Neste contexto, a boa notícia é que «Green Book», apesar de não se revelar uma obra maior ou sequer um objeto de fibra autoral (Peter Farrelly, cujo currículo se faz de comédias realizadas com irmão, como «Doidos Por Marry», só agora atingiu algum pedigree), tem mérito suficiente no ofício narrativo e sobretudo na conjugação dos seus atores. A saber, Mahershala Ali e Viggo Mortensen são a genuína atração deste filme – que nos fala do racismo entranhado na cultura americana –, conseguindo projetar nas suas personagens a humanidade estrutural de um bom conto, como se tem usado dizer, à maneira de Frank Capra.

Esta é a história verídica de Don Shirley (Ali) e Tony Vallelonga (Mortensen), o primeiro um pianista clássico negro, o segundo um segurança italo-americano convertido, nos anos 1960, em motorista deste músico numa digressão pelo Deep South – região conotada com uma acentuada postura racista. É então essa viagem de mau augúrio que vai expor as diferenças epidérmicas e de classe entre um e outro, mas também (e acima de tudo) favorecer o crescimento de uma verdadeira amizade, entre os tons moderados do drama e da comédia. Estamos assim perante um quadro suficientemente específico da realidade americana e sobejamente universal na criação de bons sentimentos que, apesar de arriscar pouco na dureza do retrato dos Estados Unidos – temos apenas um momento que fica na memória, quando o carro pára em frente a um campo com trabalhadores negros que olham fixamente o seu “semelhante” –, consegue ser muito competente na construção dramática.

«Green Book» chega assim à nomeação para o Óscar de melhor filme (que soma com as da dupla de atores), envolvido pelo calor humano que faz falta aos nossos dias. Se quisermos elaborar um pouco a teoria de um filme “à Capra”: tal como foi a vontade de transmitir esperança às pessoas no pós-guerra que esteve por trás de «Do Céu Caiu Uma Estrela» (1946), também é uma adequação ao momento que faz o filme de Farrelly aquecer o coração do espectador. Resta saber se o tempo será generoso com ele, para ter garantida alguma da eternidade do clássico de Frank Capra.

tres estrelas

Crítica publicada na Metropolis nº 66 (Fevereiro 2019)

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