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Actualizado às 12:37 PM, Feb 14, 2020

A Educadora de Infância - crítica

Lisa Spinelli (Maggie Gyllenhaal) é professora num jardim de infância em Staten Island. Tem 40 anos, 20 deles foram passados a ensinar. Ela é uma boa professora. As crianças gostam dela e vice-versa. Contudo, sentada numa cadeirinha minúscula na sala de aula, Lisa deixa o seu corpo falar de uma insatisfação vagarosa mas pesada que, inevitavelmente, se vai tornando dominante. Difícil de nomear com clareza, o desencanto de Lisa estende-se também à família. O marido extremoso, os filhos adolescentes e a casa nos subúrbios compõem o retrato banal de uma vida insuportavelmente banal. Como forma de escape, uma vez por semana ela apanha o ferry até Manhattan para participar num curso nocturno de escrita criativa. Os versos que partilha na aula não causam grande impressão nos colegas ou no instrutor (Gael Garcia Bernal), mas é sobretudo Lisa quem parece desapontada consigo mesma. O fosso que separa a sua enorme vontade de tocar o excepcional e a trivialidade dos seus versos é desmoralizante.

Um dia, enquanto aguarda na escola a chegada da baby-sitter, Jimmy (Parker Sevak) começa a andar de um lado para o outro e, como que em transe, diz em voz alta alguns versos que deixaram Lisa estarrecida. A beleza e elegância da composição são em si mesmas extraordinárias, mas o facto de o seu autor ser um menino de apenas 5 anos apanham-na completamente de surpresa. Estes episódios repetem-se e Lisa convence-se de que é sua obrigação proteger e estimular o talento poético deste pequeno génio. Muito rapidamente o entusiasmo dá lugar a uma perigosa obsessão que ultrapassará todos os limites.

Inesperado e original, o argumento de «A Educadora de Infância» baseia-se no filme homónimo de 2014, do realizador israelita Nadav Lapid. Sarah Colangelo transportou-o para contexto americano e, com pequenas alterações, conseguiu imprimir maior profundidade às personagens, em especial à protagonista. A interpretação de Gyllenhaal é notável. Oscilando entre o papel de mentora e de impostora, de um ser sensível ou de louca, a certa altura são muitas as dúvidas que nos assolam: será que Lisa representa de facto um perigo para a criança? Apesar de a sua conduta ser absolutamente inadmissível a verdade é que acabamos por sentir empatia por esta personagem e pela sua tentativa desesperada de encontrar um refúgio para a poesia.

Crítica publicada na Metropolis nº65

World Trade Center

«World Trade Center» (WTC) é um filme extraordinário, uma importante visão do cinema sobre a esperança e a coragem face às maiores adversidades. Um olhar em que obtemos uma perspectiva humana dos ataques ao WTC em Nova Iorque. Não oferece respostas ou teorias face às origens destes hediondos actos contra a Humanidade.

Oliver Stone realiza a partir do argumento escrito por Andrea Berloff, inspirado na história de dois polícias que ficam presos nos escombros do WTC, na angústia e fé das suas famílias (McLoughlin e Jimeno), no dia e nas horas seguintes ao ataque ao WTC. A narrativa retrata o acto de coragem daqueles que deram a sua vida ao entrarem dentro das torres para salvar as vítimas do impacto dos aviões. A grande maioria dos polícias e bombeiros que entraram no WTC pereceu, uma ínfima parte foi resgatada. WTC é em particular a história de dois polícias, Will (Michael Peña) e John (Nicolas Cage), os únicos sobreviventes da sua equipa.

Stone transforma um acontecimento com uma dimensão mundial e recria um retrato íntimo de sobrevivência, com valores universais. As aterradoras imagens durante e depois do ataque são de um realismo impressionante. Para isso contribui o trabalho do britânico Seamus Mc Garvey, director de fotografia. Este realça o ambiente de caos e destruição em volta dos dois sobreviventes, imagens essas que vão subsistir durante todo o filme; tudo se desenrola com uma frieza apocalíptica. A atmosfera do Ground Zero (local da queda das torres) é de uma dimensão irreal para todos os que tiveram que lidar directamente com os acontecimentos. Stone consegue transportar para o ecrã essa mesma atmosfera de choque após o impacto, através do olhar das pessoas face a devastação.

«World Trade Center» cinge sempre o seu ponto de vista à visão dos protagonistas: não temos uma perspectiva do que ocorre no exterior dos edifícios, só o estrondo do colapso, até ao ponto de impacto atingir Will e John. Após o ruído da queda, Stone concentra-se no silêncio perturbador, e eleva a sua câmara, mostrando ao espectador que o impacto atingiu não só o WTC, Nova Iorque ou mesmo os Estados Unidos: quando a câmara pára, mostra uma imagem de satélite da Terra. Após os acontecimentos descritos no solo, o mundo que não será o mesmo.

O cuidado em não cair no falso dramatismo está sempre presente. As interpretações são os pólos narrativos em WTC: de um lado os homens (Cage/Peña) soterrados nos escombros do WTC, do outro lado, igualmente "soterradas" pelo peso da incerteza e da perda de alguém próximo, estão as suas mulheres (Gyllenhaal/Bello). Nicolas Cage é forçado pelo argumento a representar um americano de classe média, um indivíduo perfeitamente normal, uma pessoa com sentido de dever que responde ao chamamento para auxiliar as vítimas do atentado. Não existem os traços que marcam a carreira de Cage, é esta a simplicidade que constrói um personagem marcante e que incita o espectador a não desviar a atenção às suas palavras. Por seu lado, Peña confirma em «WTC» o que em «Crash» anunciou: a descoberta de um excelente actor. Maria Bello, a par de Gyllenhaal, transportam o filme com a sua dor e ansiedade.

Uma nota dominante no filme é a insistência na esperança de um futuro melhor. É no amor e na fé que os personagens vão ganhar forças para se manterem vivos. Algumas pessoas poderão insurgir-se contra a suposta mudança de rumo da carreira de Oliver Stone, mas um facto é indiscutível:« WTC», apesar de aparentemente incaracterístico na sua carreira, é um dos filmes mais marcantes da mesma. «WTC» é uma justa homenagem a todos que sofreram com os acontecimentos do ataque às Torres Gémeas que ninguém deve deixar de visionar.

cinco estrelas

Título Nacional World Trade Center Título Original World Trade Center Realizador Oliver Stone Actores Nicolas Cage, Michael Peña, Maria Bello Origem Estados Unidos Duração 129’ Ano 2006

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