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Actualizado às 11:21 PM, Dec 4, 2019

«La Vérité» com Catherine Deneuve e Juliette Binoche - crítica

No seu primeiro filme dirigido fora do Japão, o cineasta Kore-eda Hirokazu viajou para Paris onde teve o privilégio de dirigir as duas atrizes mais relevantes do cinema francês num drama repleto de tensões familiares. Catherine Deneuve e Juliette Binoche contracenam como mãe e filha com um frágil relacionamento marcado por questões mal resolvidas no passado. Deneuve interpreta uma famosa atriz francesa que publica o seu primeiro livro de memórias onde descreve episódios que reabrem feridas emocionais na sua filha que é desempenhada por Juliette Binoche. É um drama familiar que também reflete sobre questões do cinema e a forma como se representa a verdade do ponto de vista artístico e como se assume a verdade num plano mais pessoal. Kore-eda é conhecido pelo seu trabalho focado na família, incluindo o aclamado «Shoplifters – Uma Família de Pequenos Ladrões», que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes no ano passado. Deneuve interpreta uma atriz egocêntrica que se recusa a pedir desculpas pelos seus erros. É um papel que fala de muitas questões relacionadas com a vida de uma atriz de cinema e basta-lhe assumir as diversas situações. Binoche é uma argumentista de cinema, uma personagem menos colada ao seu percurso cinematográfico. As duas atrizes contracenam pela primeira vez e é uma prazer vê-las em conjunto. Esse é um dos trunfos do filme de Kore-eda que não perdeu elegância, humor e subtileza ao filmar na Europa ou numa língua estranha.

[texto publicado na revista Metropolis nº71]

«High Life» - crítica

«High Life» tem uma premissa invulgar e chamativa, mas acaba por não acertar por completo na sua concretização. A história passa-se num futuro distópico, nos confins do Espaço, já bastante além do nosso sistema solar, em que Monte e a sua pequena filha Willow lutam por sobreviver numa nave espacial, em total isolamento. O tempo começa a escassear, fazendo com que pai e filha se aproximem a passos largos do seu derradeiro destino, o buraco negro onde o tempo e o espaço deixam de existir, no final de uma missão que procurava encontrar energias alternativas para a Terra.

A cineasta francesa Claire Denis assina o argumento e a realização da obra, evidenciando-se mais pela criação e desenvolvimento da história do que pela direção, que se revela pouco cativante e certeira no objetivo de agarrar o espectador à narrativa. Embora com alguns momentos mais marcantes, a trama desenrola-se com pouca garra e nem a banda-sonora - que, num filme como este, poderia ter um papel particularmente relevante - se evidencia, tendo uma presença meramente superficial.

A dupla Robert Pattinson e Juliette Binoche destaca-se largamente no elenco. Enquanto ela é já uma das atrizes francesas com mais provas dadas no Cinema e com reconhecimento pelos pares, Pattinson tem aqui uma bela oportunidade para mostrar que é muito mais do que Twilight e não desperdiça. Com uma interpretação segura e magnetizante, o ator é a alma do filme, acrescentando-lhe mais camadas dramáticas.

Sem muitos efeitos especiais ou floridos, «High Life» foca-se em paradoxos constantes: nas emoções (ou na falta delas); na esperança de um pai mas em que o próprio também parece sobreviver a si mesmo; nas muitas alusões ao corpo e à sexualidade, mas sem se abordar propriamente o sexo.

«High Life» baseia-se numa ótima ideia, mas mostra alguns sinais de confusão narrativa. O primeiro e o terceiro atos são os mais bem-conseguidos, enquanto o segundo denota alguma falta de ritmo e capacidade de criar ligação entre os vários momentos da história. Este não é um filme de ficção científica comum, o que acaba por ser refrescante em relação a outras obras do género, mas falta-lhe algo mais para se tornar verdadeiramente marcante.

tres estrelas

«High Life» com Robert Pattinson

Nos confins do espaço, muito além do nosso sistema solar, Monte (Robert Pattinson) e Willow, a sua filha pequena, vivem juntos a bordo de uma nave espacial, em isolamento total.

Monte, um homem solitário cuja severa autodisciplina é uma proteção contra o desejo – o seu e o de outros, – tornou-se pai contra a sua vontade. O seu esperma foi usado para inseminar Boyse (Mia Goth), uma jovem que deu à luz Willow. Ambos eram membros de uma tripulação de prisioneiros: encarcerados espaciais, condenados à pena de morte. Usados como cobaias pela perversa Dra. Dibs (Juliette Binoche) são enviados numa missão ao buraco negro mais próximo da Terra.

Agora, somente Monte e Willow permanecem. Mas Monte não é o mesmo. Através da filha, e pela primeira vez, experimenta o nascimento de um amor avassalador. Pela sua parte, Willow cresce, tornando-se numa menina e depois numa jovem mulher. Juntos e sozinhos, pai e filha aproximam-se do seu destino final – o buraco negro onde o tempo e o espaço deixam de existir.

A Espera - entrevista Piero Messina

Depois de ter colaborado com Paolo Sorrentino na rodagem de «A Grande Beleza» (2013), Piero Messina, cineasta siciliano, estreia-se em Portugal com a longa-metragem «A Espera» (2015) protagonizada por Juliette Binoche. Conversamos, de forma breve, com ele durante a recente edição da Festa do Cinema italiano onde se falou da origem do filme, do casting, da apresentação em Veneza e da belíssima banda sonora que combina Leonardo Cohen e os XX com Arvo Part.

Bom dia Piero, é a primeira vez que visita Lisboa?
Não já cá tinha estado há cerca de 20 anos atrás. É uma cidade muito bonita.

O que o levou a escrever este argumento?
Não sei bem. Não decidi um dia que queria escrever esta história. Ela veio ter comigo Quando tomo a decisão de escrever sobre algo é porque fico obcecado com isso e preciso de escrever. Fiquei obcecado com esta história durante muito tempo, durante alguns anos e escolhi escrever sobre isso. No caso deste filme, o que aconteceu foi o seguinte: um amigo, há 7 anos atrás contou-me uma história, uma história real sobre um amigo seu que perdera um filho e que durante o funeral se recusava a falar sobre isso, até que se começou a convencer que o filho não tinha morrido.

É incrível! É uma história real?
Sim, é uma história real.

E foi a partir desse momento que começou todo o processo que deu origem ao filme?
Sim, exatamente.

Em relação ao elenco, Juliette Binoche e Lou de Laage foram as escolhas iniciais para os papéis principais?
Sim, no caso da Juliette foi. Em relação à Lou, passei 6 meses em França a fazer casting e a Lou foi a última atriz que vimos no casting e escolhia-a imediatamente. Passei, de fato, um período muito longo a observar atrizes e apenas no final conseguimos encontrar a pessoa certa.

A Lou é muito parecida com Adele do filme «A Vida de Adele» (2013)
Sim, também nos encontramos com a Adele antes de termos escolhido a Lou. Elas são representadas pela mesma agência.

Ah, ok!
Foi o agente da Adele que me disse que tinha outra atriz, muito boa que ainda não era famosa e surgiu a Lou.

L attesa 4

Pode falar-nos sobre a experiência de dirigir a Juliette Binoche? Como é que correu?
Foi fantástico!

Difícil?
Sim, claro. O processo de dirigir um ator é exigente e trabalhar com uma atriz como ela foi um desafio. Encontrámos o nosso método de trabalho e fizemos vários takes . Sem ela o filme não seria o que é! Desde o princípio deste projeto que pensei: ou consigo fazer este filme com a Juliette ou não o faço mesmo.

Ela foi muito importante para o filme?
Mais do que importante, foi vital, foi essencial para este filme!

A banda sonora que é excelente, diga-se, vai de Leonard Cohen aos XX. Como foi o processo de construção da banda sonora do filme: foi você que escolheu as músicas?
Sim, sim! Escolho as músicas ...

...Para ilustrar determinadas cenas?
Sim, eu queria fazer grandes contrastes com a banda sonora: entre a música clássica e a música pop. Existem vários géneros diferentes de música no filme: tens desde a música pop com os XX até a música clássica com o Arvo Part (música sacra). Trabalho desta forma para estabelecer fortes contrastes entre estes diferentes géneros musicais porém, julgo que cada uma das músicas que escolhi para o filme tem o mesmo sentimento. Para mim, existe esta espécie de emoção que atravessa o filme ...

Melancolia?
Sim, isso mesmo! Por isso, apesar de serem temas musicais distintos, no aspeto formal, estão imbuídos desse sentimento comum, dessa mesma emoção.

Esta é a sua primeira longa-metragem. O filme foi escolhido para a seleção oficial do Festival de Veneza? Como correu tudo: o fato de ter sido escolhido, a sua reação à escolha?
Para mim, Veneza representou um período estranho na minha vida porque nessa altura nasceu o meu segundo filho, no mesmo dia em que o filme foi apresentado.

No mesmo dia?
Corrijo, foi no dia a seguir. E correu bem! Foi bom, estava muito calmo porque tinha coisas mais importantes em que pensar. Lembro-me que na primeira apresentação do filme houve uma grande satisfação da minha parte e da Juliette pois tivemos um longo aplauso no final da projeção. E portanto guardo-o como um momento especial que tive no festival! Mas, depois disso, no dia seguinte, quando li as críticas tive uma grande desilusão com os críticos italianos.

L attesa

O filme já estreou em Itália ...
...Sim, logo a seguir a Veneza.

Como foi a reação do público?
Foi Boa!

Claro que num lançamento exclusivo em salas de arte e ensaio?
Sim, claro que sim! Foi exatamente aquilo que esperávamos, mas, ao mesmo tempo houve um estranho paradoxo: em Itália as pessoas que gostaram mais do filme não eram as mais cinéfilas, as mais cultas, mas sim as menos informadas sobre cinema. De fato, é uma coisa muito estranha.

Interessante! Novos projetos? Já está a trabalhar nalgum novo?
Sim, estou a escrever. Mas agora tenho que fazer uma escolha agora pois o meu produtor deu-me um argumento e ou filmo este ou aposto naquele que estou a escrever.

Tem algum conselho a dar aos novos realizadores? Que estão a começar agora?
Julgo que os conselhos não servem nem ajudam ninguém, mas para mim a única coisa que é importante é que eles sigam o seu próprio caminho. Terem uma ideia, pô-la , também, em discussão, mas permanecer fiel a ela até ao fim. Desde os meus 16 anos que sabia que queria ser realizador e nunca questionei essa ambição, esse sonho. As pessoas que querem fazer filmes devem fazer isso mesmo.

Finalmente, como foi a reação do público da Festa do Cinema Italiano?
Ontem a sessão correu bem! A sala estava cheia. Gosto de sentir o feedback das pessoas em relação aos meus filmes. Observar as reações a determinadas cenas. Se choram, ou se sorriem! E quando vi que as pessoas choraram numa determinada cena na qual as personagens também choram, para mim foi a melhor coisa que podia ter acontecido. Foi um momento muito feliz!

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº37)

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