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Actualizado às 11:37 PM, Nov 4, 2019

Black Mirror: o melhor da TV continua a mostrar o pior de nós

A quarta temporada de «Black Mirror» chega à Netflix na sexta-feira, 29, bem a tempo de estragar as contas das melhores séries do ano. Com argumentos sólidos e pungentes, a série, que até já esteve condenada ao cancelamento no passado, regressa mais forte do que nunca. A METROPOLIS teve acesso à nova temporada em primeira mão e traz o kit de sobrevivência para mais uma aventura hipertecnológica.

“E a tecnologia?”. Esta pergunta ecoa, persistentemente, a cada nova incursão no universo de «Black Mirror», cujos episódios, independentes entre si, são unidos pela tecnologia, qual omnipresença invisível, e pela inevitabilidade de esta assumir novas formas (e perigos) no futuro. A tecnologia, sempre ela, mesmo quando o espectador não a alcança imediatamente à vista desarmada; mas será sempre ela a vilã desta história? Longe disso. Nada em «Black Mirror» escapa ao futuro – utópico mas perigosamente próximo –, que mascara com a sua espectacularidade o que de menos agradável há no ser humano.

Este futuro, distante mas próximo o suficiente para nos deixar assustados, volta em força com seis mini-filmes que têm como protagonista a tecnologia e, sobretudo, as suas potencialidades. Neste sem-fim de histórias assombradas pelo ser humano, e pelo que ele é capaz de fazer para sobreviver, há uma presença constante das dicotomias do certo e errado, ainda que nem sempre seja fácil, para o espectador, colocar uma ação numa ou noutra categoria. Assim como aconteceu com os episódios “The Entire History of You” ou “San Junipero”, por exemplo, a empatia não é uma relação literal e é particularmente difícil encaixar as decisões das diferentes personagens, de forma pacífica, na forma como percebemos a realidade.

blackmirror crocodile

Continua a existir uma preocupação do argumento, fortalecida ou desafiada pela realização, em tornar a narrativa exequível no tempo presente. Só assim esta relação conflituosa entre o espectador e os acontecimentos do pequeno ecrã é possível: embora haja uma perceção plena de que aquela tecnologia ainda está longe de ser global e banalizada, a verdade é que a conseguimos enquadrar na sociedade atual. Veja-se a mãe que instala uma vigilância constante na filha em “Arkangel”, ou a persistência em filmes com a temática da inteligência humana artificial, como é o caso de “Black Museum”. E até eventos menos prováveis, pelo menos a curto prazo, como “Metalhead” trazem consigo o fantasma da possibilidade, pois não deixam de ser uma ameaça do futuro.

«Black Mirror» não é apenas uma série, mas sim uma experiência. Perante a tecnologia fornecida às personagens deste imaginário tecnológico, o espectador acaba a indagar o que faria caso aquela tecnologia fosse atual. Embora se trate de ficção científica, a série da Netflix acaba a ser discutida quase como um documentário, na medida em que espelha as debilidades da instrumentalização do quotidiano, mas também o papel que o ser humano tem no decorrer da ação. Não estamos na presença de um elemento passivo, e a quarta temporada é sublime neste aspeto: coloca o homem e a mulher na sua zona de conforto para, desafiando esta aparente normalidade, deixar o espectador desconfortável.

blackmirror blackmuseum

A sobrevivência da individualidade numa era de massas

“Arkangel” vai dar que falar, e que terá, provavelmente, entrada direta para o top de melhores episódios de «Black Mirror». Realizado por Jodie Foster e com história da responsabilidade do criador Charlie Brooker, “Arkangel” instala-se numa sociedade familiar, sem grandes truques tecnológicos, e coloca uma mãe aparentemente banal (Rosemarie DeWitt) no centro da ação. Depois de perder momentaneamente a filha, deixa-se controlar pelo medo e instala um serviço permanente de vigilância e localização na criança, a fim de se proteger de novo susto. Como seria de esperar, esta história não tem um final feliz.

Mais uma vez, esta história é tecnológica à superfície, mas é essencialmente humana. A preocupação individual (e familiar) da personagem de DeWitt toca um tema muito sensível aos pais, a segurança dos filhos, pelo que é fácil encontrar lógica e justificações para as suas motivações. Além disso, e atendendo ao foco de «Black Mirror», continua a ser importante perceber de que forma o individual choca com as outras individualidades, bem como a tecnologia pode ser uma forma de controlo e manipulação, mesmo que não exista essa permissão clara. Há uma leitura diferente desta relação entre o indivíduo e o interesse geral em “Crocodile”, um episódio mais frio – não apenas categoricamente mas também porque se passa na Islândia.

Novamente com argumento de Brooker, o episódio toma outras liberdades no universo que já antes inspirou “The Entire History of You”, na primeira temporada, nomeadamente a possibilidade de revisitar memórias de forma clara. Um thriller improvável e que se torna cada vez mais complexo, “Crocodile” é um twist e desafio permanente às interpretações que vamos fazendo às personagens e acontecimentos. Algo que atinge um nível ainda mais assertivo em “USS Callister”, uma homenagem fora do comum ao legado deixado por «Star Trek», pela lente de um realizador acostumado a «Doctor Who». A combinação ganha forças nas palavras de Brooker e William Bridges, que repetem a dupla de “Shut Up and Dance”, de 2016, e que voltam a explorar os limites da individualidade. E nem o espectador se livra de alinhar nesta viagem.

blackmirror arkangel

O homem e a máquina: a efemeridade do ‘eu’

Se “Arkangel” se destaca pela proximidade ao presente, “Black Museum” evidencia-se pela capacidade de explorar aspetos totalmente ficcionais, ainda que esta suposta distância seja uma ilusão – atenuada pela construção da narrativa num ambiente próximo. Tem diversos ingredientes, desde uma partilha demasiado viciante a uma existência artificial que se torna exigente, mas assenta na interação banal entre o dono de um museu (Douglas Hodge) e uma visita que tem de gastar tempo (Letitia Wright). Esta relação quase rotineira serve de fio condutor à viagem pela tecnologia e, em último caso, pela sua efemeridade – que é também a efemeridade de quem a cria.

A série da Netflix encurta, por diversas vezes, a barreira de separação entre o indivíduo e a tecnologia, e este episódio não é exceção. Esta linha é ainda mais reduzida em “Hang the DJ”, onde, ao jeito de um Tinder do futuro, uma máquina de inteligência artificial reúne um conjunto de indivíduos num resort, sendo o objetivo final que estes encontrem a sua alma gémea. O conceito é algo confuso, de forma intencional e fortalecida pelo argumento de Brooker, colocando a decisão maquinal à frente da individual. Desta forma, há um jogo constante entre aquilo que é a tecnologia super avançada, por um lado, e a incapacidade de voltar ao básico do relacionamento humano, por outro. Ironicamente, dá vontade de pedir uma TARDIS para o presente a fim de resolver o conflito inerente à ação, que é bastante simples.

Por sua vez, e ainda com «Stranger Things» bem presente na memória, uma vez que a segunda temporada foi lançada recentemente, “Metalhead” lembra o drama da outra série da Netflix. Os personagens humanos são perseguidos por máquinas, numa realidade futurista e pós-apolítica, a preto e branco, naquela que é uma luta literal entre a tecnologia e a homem. Realizado por David Slade («American Gods» e «Hannibal»), este episódio sombrio destoa da restante temporada a vários níveis, levando ao extremo o entendimento usualmente subjectivo daquilo que é o confronto entre a personagem e a tecnologia em que esta vive mergulhada.

  • Publicado em TV

"MONEY MONSTER" OU A POLÍTICA DAS APARÊNCIAS

E se o dinheiro circulasse como uma espécie de monstro publicitário, não exactamente no espaço social, mas nos ecrãs de televisão? E essa a questão fulcral do brilhante «Money Monster», realizado por Jodie Foster, com George Clooney, Julia Roberts e Jack O'Connell.

Por esta altura, mesmo quem não viu, já conhece o ponto de partida: o estúdio de um programa televisivo sobre o movimento das acções é literalmente ocupado por um jovem armado que quer alguma reparação pelo facto de ter seguido as sugestões do apresentador, desse modo perdendo todas as suas economias...

Eis um filme que, a partir de um dispositivo clássico de thriller, nos expõe todo um jogo de aparências que faz mover (ou paralisar...) o mundo contemporâneo. Afinal de contas, os grandes filmes políticos podem ser apenas aqueles que nos levam a questionar a ordem (económica, simbólica, etc.) da nossa existência -- este é um desses filmes.

Título Nacional Money Monster Título Original Money Monster Realizador Jodie Foster Actores George Clooney, Julia Roberts, Jack O'Connell Origem Estados Unidos Duração 98’ Ano 2016

MONEY MONSTER na Selecção Oficial do Festival de Cinema de Cannes

Há muito tempo que Jodie Foster procura realizar este projeto. A oportunidade de trabalhar, pela primeira vez, com Julia Roberts e George Clooney, que também produz o filme, foi para a cineasta “um pouco [como concretizar] um sonho”. O último filme de Foster, «O Castor» (2011), esteve longe de ser um sucesso entre a crítica ou de bilheteira, mas a atriz continua a apostar neste lado e refere que este intenso thriller fala de muito mais do que apenas injustiça económica: “Este filme não é polémico. Trata-se da irmandade que se forma entre estes dois homens que pensavam que estavam em lados opostos, que se odiavam, até perceberem que estão a lutar pela mesma coisa”.

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HISTÓRIA
Lee Gates (George Clooney) tem um programa sobre investimentos financeiros e é uma figura televisiva muito conhecida e apreciada até que promove um stock de alta tecnologia que entra em crash e Kyle Budwell (Jack O’Connell), um investidor furioso, faz reféns Gates, a sua equipa e a produtora, Patty Fenn (Julia Roberts), durante a emissão em direto do programa.

Realizadora:
Jodie Foster
(«O Castor», 2011)

Elenco:
George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell, Caitriona Balfe

Data de estreia:
12 de maio

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