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Actualizado às 10:22 PM, Nov 12, 2019

Greta Gerwig - A ‘Lady Bird’ finalmente ganhou asas

Sem ser uma estreante nas lides de realização e de argumento, Greta Gerwig vive por esta altura a melhor fase da sua carreira de 11 anos. A atriz, mais conhecida do cinema independente, é a primeira mulher entre os indicados a Melhor Realizador desde a vitória de Kathryn Bigelow, em 2009, e apenas a quinta da história dos Óscares. Mas a sua conquista não chega sem uma valente dose de ironia. 

Estávamos em 2014. «Foi Assim Que Aconteceu» [«How I Met Your Mother», no título original] chegava ao fim após nove temporadas e, embalados pelo sucesso desta série, os criadores e produtores apostaram no spin-off «How I Met Your Dad» [como conheci o teu pai, na tradução literal]. A protagonista seria a atriz Greta Gerwig, rosto conhecido do cinema independente, que, assim como Josh Radnor no original, iria contar aos filhos como tinha conhecido o outro progenitor. Após a reação nada consensual à ‘series finale’, que ainda hoje divide os fãs de «Foi Assim Que Aconteceu», o entusiasmo pelo spin-off parecia estar ameaçado, mas o principal problema foi outro...

Greta 1

Em entrevista ao «The Late Show with Stephen Colbert», Greta esclareceu, três anos depois, o maior travão no arranque da aposta: ela mesma. Tudo porque o piloto foi enviado para um ‘focus group’ que, segundo Greta, não engraçou muito com ela. Passamos a explicar: as pessoas tinham de assistir ao primeiro episódio, ainda por comprar, e ir avaliando aquilo com que se deparavam no ecrã. Para tal, receberam uma ‘maçaneta’, que funcionava de maneira bastante simples: se gostassem, deviam virá-la para a direita, e no sentido contrário caso não gostassem. Sempre que Greta aparecia no ecrã, o ‘júri’ era perentório e virava para a esquerda. «How I Met Your Dad» caiu por terra e Greta continuou no cinema.

Com participações regulares em argumento, Greta ocupou também a cadeira de realização, pela primeira vez a solo, no quase autobiográfico «Lady Bird: É Hora de Voar» (2017). No início da carreira, aliás, Greta planeava ser argumentista, mas, influenciada pelas colaborações com Joe Swanberg – com quem escreveu e realizou a sua outra longa-metragem, «Nights and Weekends» (2008) –, acabou por se envolver no cinema independente, e de baixo orçamento, como atriz. Fez parte do movimento Mumblecore [a geração do resmungo em português], tal como Lena Dunhan de «Girls», um grupo outsider que defendia a originalidade em tudo o que fazia, à margem dos grandes estúdios e das regras estabelecidas.

Greta 2

Não se tratando necessariamente de um regresso às origens, «Lady Bird: É Hora de Voar» (2017) representa um desapegar dos hábitos e, com a confiança reforçada por mais de 10 anos de carreira, o total controlo de Greta – e a respetiva presença, e ao mesmo tempo ausência, da cineasta na tela. Mas, como já foi referido, há muita ironia entre o sucesso estrondoso de «Lady Bird: É Hora de Voar» (2017). Este é o seu maior êxito, mas também o primeiro filme do currículo de Greta Gerwig onde ela não aparece: a cineasta assinou o argumento e realizou o filme mas, pela primeira vez, não ocupa qualquer função de representação. Como resultado, conseguiu figurar entre os nomeados a Melhor Argumento Original, cujo Óscar deverá cair para «Três Cartazes à Beira da Estrada», e a Melhor Realizador (o filme concorre a cinco estatuetas).

Como não podia deixar de ser, a ironia também tem batido à porta na caminhada do filme pelas cerimónias: Greta subiu ao palco dos Globos de Ouro para o discurso da vitória, mas pela categoria de Melhor Filme (Comédia ou Musical), sendo que o seu nome não figurava entre os produtores. Esquecida em muitas das cerimónias na categoria de Realizador, muito por ‘culpa’ de Steven Spielberg e do seu «The Post», Greta alcançou um feito invejável nos Óscares e deixou o lendário realizador de fora. Atendendo à ‘veia’ política da cerimónia, pode até considerar-se que o facto de ser a única mulher na corrida à estatueta, e a primeira em nove anos, pode jogar a seu favor. Kathryn Bigelow foi a única mulher a vencer na Realização, depois das indicações de Lina Wertmüller (1977), Jane Campion (1994) e Sofia Coppola (2004). Mas, independentemente de vencedores e vencidos, a questão é histórica. Segundo dados estatísticos, só cerca de sete por cento dos 250 filmes mais lucrativos de 2016 foram realizados por mulheres.

  • Publicado em Feature

Mulheres do Século XX

É um facto: ainda não é desta que Annette Benning vai ganhar um Oscar. E como já disse o seu marido, Warren Beatty, ela é uma das maiores actrizes contemporâneas (e não foi por mera simpatia conjugal...). Apesar da sua notável composição em «Mulheres do Século XX», Bening ficou fora das nomeações, surgindo o filme citado apenas na categoria de argumento original, da responsabilidade do próprio realizador, Mike Mills.

Sublinhe-se, a esse propósito, que Mills — autor de «Beginners – Assim É o Amor» (2010), o filme que valeu um Oscar de actor secundário a Christopher Plummer — é, antes do mais, um brilhante narrador. Como se prova em «Mulheres do Século XX», ele conhece os valores eminentemente clássicos da narrativa, sabendo revelar-nos as convulsões internas de um contexto muito preciso, preservando sempre a dimensão mais irredutível, seja ela intelectual ou emocional, de cada personagem.

O título do filme envolve uma calculada ironia. Não se trata, de facto, de propor um qualquer balanço global das mulheres de todo um século, antes de escolher um período muito particular em que, por assim dizer, ecoam os temas, impasses e sucessos da evolução da própria condição feminina. Deparamos, assim, com a saga amarga e doce de um mãe (Benning) que, em finais dos anos 70, em cenários do sul da Califórnia, tenta transmitir ao seu filho (interpretado por Lucas Jade Zumann, espantoso e precoce talento) um sistema de valores capaz de integrar as ideias libertadoras da década anterior, em qualquer caso sem alimentar ilusões libertárias que o possam conduzir a um esvaziamento da própria identidade.

Dizer que estamos perante um herdeiro tardio de «Os Amigos de Alex» (1983), de Lawrence Kasdan, poderá ser sugestivo, embora «Mulheres do Século XX» dispense qualquer caução ou mecanismo de cópia. Ainda assim, sublinhe-se uma componente dramática que persiste. A saber: a sensação de um espírito de tribo que tem tanto de factor aglutinador das personagens, como de desafio às suas muitas e, por vezes, drásticas diferenças — sem efeitos especiais gratuitos, apenas por amor da complexidade dos seres humanos.

quatro estrelas

Título Nacional Mulheres do Século XX Título Original 20th Century Women Realizador Mike Mills Actores Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig Origem Estados Unidos Duração 119’ Ano 2016

Maggie Tem Um Plano

Nova Iorque é o cenário predileto em dezenas de séries e centenas de películas. Porém, quando pensamos em filmes “nova-iorquinos” há claramente um nome que se destaca: Woody Allen. Mas desta vez é Rebbeca Miller quem requisita a cidade para palco da sua quinta obra cinematográfica: «Maggie’s Plan».

Como o próprio título anuncia, Maggie (Greta Gerwig) tem um plano, ou melhor, vários planos. A protagonista está decidida a controlar todos os aspetos da sua vida, e, logo nos primeiros momentos do filme, ficamos a saber de um dos mais importantes: tornar-se mãe. Como não pode esperar até que o destino lhe apresente um companheiro fiável, Maggie opta por procurar um doador de esperma compatível, que encontra em Guy (Travis Fimmel), um pacato produtor de pickles artesanais. Porém, o destino gosta de pregar partidas e coloca-lhe no caminho John (Ethan Hawke), um charmoso professor temporário com aspirações a escritor, que vive um casamento sufocante por causa da sua dominante e bem-sucedida esposa Georgette (Julianne Moore). Inevitavelmente, Maggie e John envolvem-se e constroem uma nova família. Maggie tem finalmente a sua tão desejada filha. No entanto, passados alguns anos, Maggie percebe que a cada momento que passa a sua paixão por John desvanece e que a sua relação foi definitivamente um erro. Por isso formula um plano: devolver John a Georgette. É nesta reviravolta que está o passo de magia, a surpresa deste filme.

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«Maggie’s Plan» é um filme equilibrado e bem construído, revelando ser uma comédia com uma boa dose de reflexão. Ou seja, Rebecca Miller não ornamenta a realidade para ser mais risível, não necessita. Nós rimo-nos das imperfeições de cada personagem, das suas falhas e fantasias. O filme faz-nos pensar até que ponto são estas personagens caricaturas. Mas, para além disso, divertimo-nos a cruzar referências: Georgette lembra-nos Maude Lebowski – «O Grande Lebowski» (1998) –, John é um Jesse ainda a viver em Nova Iorque e com problemas conjugais – «Antes do Anoitecer» (2004) –, Maggie é o oposto de Frances – «Frances Ha» (2012).

Esta comédia funciona não só por causa da narrativa, mas também pela prestação dos atores; a excentricidade tanto de Maggie como de Georgette não seria a mesma sem a representação de Greta Gerwig e Julianne Moore, comprovando-se que esta última também se move bastante bem no registo cómico. Mas Miller consegue também construir imagens de grande beleza ao captar e aliar momentos cómicos a momentos delicados ou sensuais, como, por exemplo, quando John vai desabotoando lenta e luxuriosamente a antiquada camisa de noite de Maggie, botão a botão, dos joelhos ao peito.

Rebecca Miller filma as ruas nova-iorquinas, o ambiente intelectual da cidade, as frustrações pessoais, os labirintos amorosos, tudo isto nos encaminha para o imaginário woodyliano. Porém, há uma grande diferença: o filme está centrado numa mulher. Não é o professor na sua crise de meia idade que faz a história avançar, mas sim Maggie com as suas decisões. É a vida de uma mulher que luta para ser feliz, mesmo que os seus planos não resultem.

No filme aparece o nome do filósofo Slovoj Zizek, talvez por questões da narrativa, ou talvez para lembrar que o controlo é sempre uma ilusão e que o desejo é perverso, pois o que se deseja nem sempre é o que se precisa e vice-versa. 

tres estrelas

Título Nacional Maggie Tem Um Plano Título Original Maggie’s Plan Realizadora Rebecca Miller Actores Greta Gerwig, Ethan Hawke, Julianne Moore Origem Estados Unidos Duração 98’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

Greta Gerwig Ethan Hawke Julianne Moore

 

Greta Gerwig - Perfil

Nasceu a 4 de Agosto de 1983, em Sacramento (Califórnia), e recorda-se de procurar desde muito cedo um público imaginário: “Quando era criança, fazia os meus trabalhos de casa na sala de estar, onde existia uma janela em forma de quadro. Tinha a esperança de alguém passar e ver-me a parecer muito estudiosa”. Apesar do interesse em Dança, licenciou-se na Universidade de Barnard em Inglês (o mesmo de Noah Baumbach) e Filosofia, com a intensão de seguir carreira enquanto dramaturga, mas acabou por ganhar proeminência graças a colaborações com vários cineastas do sub-movimento do cinema independente chamado “mumblecore”, cujos filmes se distinguem pelo naturalismo dos diálogos, a predominância de actores amadores e orçamentos extremamente baixos. O seu primeiro filme como actriz foi LOL (2006), realizado por Joe Swanberg, com quem trabalhará em vários projectos, nomeadamente em “Nights and Weekends” (2008), onde a descobrimos já como co-argumentista e co-realizadora.

Como uma carreira exclusivamente feita destes filmes “improvisados”, Baumbach fez-lhe muitos testes - ela diria mais tarde: “Era um pouco ‘ Sabes o que estás a fazer? Consegues fazer isto de forma controlada ou és apenas uma pessoa estranha sem vergonha nenhuma?’” - antes de a contratar para “Greenberg”, filmado em 2009 e estreado um ano mais tarde. O realizador descobriu que Gerwig tinha as mesmas capacidades das actrizes do velho sistema de estúdios de Hollywood, que sabiam fazer de tudo um pouco. A sua personagem, Florence, predisponha-se a isso e algumas ideias da actriz acabaram por ser incorporadas no argumento final do filme, que lhe valeu vários nomeações para prémios.

Posteriormente, encontrou dois dos heróis de Noah Baumbach, Whit Stillman em “Damsels in Distress” (2011), onde o seu trabalho foi novamente notado por várias associações de críticos, e Woody Allen em “Para Roma com Amor” (2012), ao mesmo tempo que entrava no cinema dito comercial com “Sexo Sem Compromisso” (2011), de Ivan Reitman, ao lado de Natalie Portman e Ashton Kutcher, e “Arthur” (2011), de Jason Winer e com Russell Brand e Helen Mirren. Também dá voz a uma das personagens da animação “China, IL”,que vai conhecer uma segunda temporada.

Uma troca de ideias por mail com Baumbach deu início a uma nova colaboração com Baumbach, de que resultou “Frances Ha” (2012), e uma relação pessoal desde o final de 2011.

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº12)

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