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Actualizado às 2:03 PM, Nov 16, 2019

«Os Mortos não Morrem» - crítica

Há muito que um trailer não prejudicava tanto um filme. Quem viu o trailer de «The Dead Don´t Die» viu quase o filme todo, apanhou as melhores cenas de humor e ficou sem o chamado efeito surpresa.

Ainda assim, é injusto trucidar esta comédia de zombies que erradamente foi lançada em competição. O seu conceito de humor político para falar da América de Trump, injuriar os “hipsters” e pura e simplesmente brincar com a ideia de ver Iggy Pop a comer tripas e Selena Gomez esventrada acaba por funcionar. Funciona, mas, claro, não explode.

Tal como em «Só os Amantes Sobrevivem», o desencanto, a “malaise” da câmara de Jarmuch está lá, ainda o que salte mais à vista seja algum do “flow” orgânico que tanto atraía em «Ghost Dog- O Método do Samurai». Pena é mesmo a homenagem ao cinema de mortos-vivos ser sempre preguiçosa.

*crítica publicada na Metropolis nº 69

Amor e Amizade

O mínimo que se pode dizer de «Amor e Amizade» é que se trata de um objecto desconcertante, serenamente fora de moda: assistimos à saga social e familiar de Lady Susan Vernon (Kate Beckinsale), em finais do século XVIII, tentando arranjar vários casamentos (incluindo o seu...), num registo que, até certo ponto, faz lembrar os melodramas “históricos” da idade de ouro de Hollywood.

Até certo ponto, de facto... Isto porque este é um filme que oscila entre os compromissos da chamada “reconstituição” e uma pose de assumida ironia que, aliás, se anuncia logo na entrada, com a apresentação das personagens principais como se fossem vinhetas de uma publicação literária ou, eventualmente, de uma performance teatral.

A ironia duplica-se se não nos esquecermos que estamos perante um genuíno labor gerado pelo espírito mais independente (mais tradicionalmente independente, apetece dizer) da produção americana — neste caso associada a vários países europeus. O argumentista e realizador Whit Stillman (n. 1952) continua a ser um exemplo modelar de uma atitude criativa que escapa, ponto por ponto, a qualquer tendência industrial do momento.

No começo da sua carreira, Stillman assinou dois títulos que ficaram como símbolos dessas singularidades independentes: «Metropolitan» (1990), sobre uma certa juventude abastada de Manhattan, e «Barcelona» (1994), centrado nas relações de um grupo de americanos envolvidos em vários negócios na capital da Catalunha. Agora, em «Amor e Amizade», adapta um dos primeiros, e menos conhecidos, escritos de Jane Austen: a novela “Lady Susan”. Os resultados reflectem uma independência de espírito — e de produção — que continua a ser um elemento importante de algumas zonas da produção dos EUA. De facto, os filmes minoritários não são estes — são os “blockbusters”.

tres estrelas

Título Nacional Amor & Amizade Título Original Love & Friendship Realizador Whit Stillman Actores Kate Beckinsale, Chloë Sevigny, Xavier Samuel Origem França/Estados Unidos Duração 92’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

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