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Actualizado às 12:11 PM, Aug 12, 2018

Manifesto

Pensado como uma instalação, este «Manifesto» chega agora às salas de cinema à boleia da sua estrela maior: Cate Blanchett. Interpretando 13 papéis distintos – uma professora primária, uma cantora punk, um sem-abrigo, etc. –, Blanchett dá voz a mais de meia centena de textos que incluem o manifesto comunista, passando pelas vanguardas – dadaísmo, futurismo, surrealismo, outros ismos – ou o Dogma 95. Todos estes excertos, laboriosamente reunidos por Julian Rosefeldt ao longo de vários anos, têm em comum o tom exclamativo, provocatório, impaciente, próprio do seu género.

Muito populares no século XX, os manifestos existem num limbo entre o texto e o acto, entre a busca da legitimação e o grito de revolta. Por definição circunscritos ao presente, a urgência de que se vestem pode parecer-nos à distância um tanto burlesca. Como uma “bomba desarmada”, o discurso inflamado do manifesto perde a sua força quando dissecado. Consciente disso mesmo, Rosefeldt opta por uma estratégia curiosa de total descontextualização. Assim, podemos ter uma mãe de família, muito conservadora, que à mesa recita I am for an Art... (1961), de Claes Oldenburg, no lugar de uma típica oração de graças. Uma apresentadora de telejornal que discute arte conceptual com uma repórter meteorológica no exterior (sim, Blanchett outra vez). Ou, no meu segmento preferido, uma viúva que lê um elogio fúnebre que tem por base a brilhante loucura de Tristan Tzara, Louis Aragon e de outros dadaístas.

Para lá do efeito cómico, a surpresa compele o espectador a prestar atenção a todos os pormenores: do cenário à iluminação, da caracterização aos enquadramentos. Em todos estes aspectos «Manifesto» revela-se um trabalho de grande virtuosismo, coroado, claro está, pela performance camaleónica de Blanchett. É graças ao talento e carisma da actriz que acompanhamos esta experiência do princípio ao fim. Uma experiência que tem na montagem a sua maior fragilidade. De facto, a lógica que preside à ordenação e às transições entre os 12 “episódios” é bastante ténue. Não fosse a energia cativante de Blanchett a servir de cola, corria-se o risco de nos perdermos. «Manifesto» será sempre um filme marginal, o que, ironicamente, acaba por o servir. A marginalidade continua a ser o triunfo e a derrota das obras mais radicais.

tres estrelas

 

 

Título Nacional: Manifesto Título Original: Manifesto Realização: Julian Rosefeldt Actores: Cate Blanchett Duração: 95’ Ano: 2017 Origem: Alemanha

Cate Blanchett x 13

Em 2015, na Nationalgalerie (Berlim), o artista alemão Julian Rosefeldt apresentou uma obra videográfica intitulada Manifesto. Nos ecrãs da instalação, uma mesma actriz, Cate Blanchett, lia extractos de alguns dos mais marcantes manifestos da história da política e das artes — Karl Marx, Tristan Tzara, Alexander Rodtschenko, Guy Debord, André Breton, etc.

Agora, Manifesto é o título de um filme montado, precisamente, a partir dos videos da instalação — com metódica exuberância, o trailer anuncia-nos uma Cate Blanchett repartida por nada mais nada menos que 13 personagens. A estreia ocorrerá no Festival de Sundance (19/29 Jan.).

manifesto

Cavaleiro de Copas

“Era uma vez um jovem príncipe cujo pai o enviou para o Egipto a fim de encontrar uma pérola. Quando o príncipe chegou, o povo serviu-lhe uma taça e, ao bebê-la, este esqueceu-se que era filho do rei, esqueceu-se da pérola e caiu num sono profundo.” É desta forma que Terrence Malick nos introduz «O Cavaleiro de Copas». A partir daqui, o filme é uma deambulação constante à procura da pérola, que não é mais do que a essência e a luz única de cada ser, adormecida por crenças que limitam, em vez de expandir. Através de imagens imaculadamente belas, e sob uma banda sonora etérea, o realizador leva-nos numa road trip atribulada pela falsidade, consumismo e beleza efémera da cidade, conseguindo depois resgatarnos para o conforto dos quatro elementos e da mãe de todos: a natureza. E nisso, é exímio. Oferece-nos o vento, a água, o fogo e a terra, de uma forma ímpar. Malick dá-se ao luxo de deixar o argumento disperso, como peças de um puzzle espalhadas. Perdido na sua existência, sabemos que Rick (Christian Bale) é um homem de sucesso; que casou com o amor da sua vida, mas precisou de algo mais; que o suicídio do irmão o transtornou e abriu um buraco na família; que o outro irmão é o seu maior fã mas, como todos os irmãos, amam-se e odeiam-se e são reflexo das ambições dos pais; adora mulheres, qual Cavaleiro de Copas, pois todas elas lhe trazem algo de novo; mas, no fim, é nas provações que está a dádiva da vida, é das trevas que nasce a luz, e estamos sempre a tempo de recomeçar. Não é um filme de fácil digestão. Obriga-nos a parar e a despojar de preconceitos para o podermos absorver. Não é gratuito, não é linear. É antes uma viagem pela procura da essência do ser, pela família, pelo amor e pela fé, à disposição de todos os que quiserem ler nas entrelinhas. 

quatro estrelas

Título Nacional Cavaleiro de Copas Título Original Terrence Malick Realizador Zack Snyder Actores Christian Bale, Cate Blanchett, Natalie Portman Origem Estados Unidos Duração 118’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº41)

Verdade

O mínimo que se pode dizer desta excelente estreia na realização de James Vanderbilt é que o “cinema liberal” de Hollywood está vivo — e bem vivo. “Liberal”, entenda-se, não designa aqui um espaço partidário, mas sim uma visão ética e estética através da qual os filmes arriscam questionar os fundamentos, e também o funcionamento, das instituições democráticas.

Esta é a história de um equívoco que abalou o espaço televisivo dos EUA, conduzindo mesmo ao afastamento da CBS de Dan Rather, símbolo universal do próprio jornalismo. Em termos esquemáticos, importa recordar que tudo passou por um logro em que Rather (Robert Redford) e a sua produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) se viram enredados quando, em 2004, no programa “60 Minutos”, utilizaram documentos — sobre o passado militar do Presidente George W. Bush — cuja veracidade veio a ser posta em causa...

Prolongando uma tradição que pode ser sinalizada por «Os Homens do Presidente» (1976), de Alan J. Pakula, sobre o escândalo Watergate e o afastamento do Presidente Richard Nixon (curiosamente, também com Redford num dos papéis principais), «Verdade» não é apenas um filme sobre a tensão entre verdade e mentira. Através da discussão da legitimidade dos documentos divulgados em “60 Minutos”, deparamos com as nuances do próprio efeito de verdade que a televisão produz, pode produzir ou mascarar.

O mais espantoso no filme de Vanderbilt — também responsável pelo respectivo argumento, escrito a partir do livro “Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power” (2005), de Mary Mapes — é a sua capacidade de nos fazer ver/sentir que a arquitectura da verdade pode envolver tanto de revelação como de ocultação. Deparamos, assim, com uma dinâmica colectiva em que a televisão oscila entre a condição de espelho social e as ambiguidades de um sistema (de ver e ouvir) que nunca se esgota naquilo que preenche os seus ecrãs.

Tendo em conta que um filme da mesma família ideológica — «O Caso Spotlight», de Tom McCarthy — foi o principal vencedor dos Oscars referentes a 2015, importa sublinhar que estamos perante uma tradição narrativa que não desiste de observar o mundo à sua volta, resistindo também a diluir-se nas rotinas de heróis, super-heróis e afins. Em boa verdade, só podemos lamentar que «Verdade» não tenha chegado, pelo menos, às nomeações da Academia de Hollywood. 

quatro estrelas

Título Nacional Verdade Título Original Truth Realizador James Vanderbilt Actores Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quaid Origem Estados Unidos/Austrália Duração 125’ Ano 2015

(Publicado originalmente na Metropolis nº37)

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