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Actualizado às 9:31 PM, Aug 22, 2019

«Vingadores: Endgame» - Crítica

Ser ou não ser herói, na tragédia arrebatadora da Marvel

É impossível encarar a sequência em que Tony Stark (Robert Downey Jr., em estado de graça) desabafa sua sensação de fracasso para a máscara desfeita do Homem de Ferro sem pensar em Hamlet e sua conversa com o crânio de Yorick: é ali, no início, carregado de energias shakespearianas, que «Vingadores: Endgame» deixa evidente a sua dimensão existencialista. Há algo de corrupto no reino da Marvel, representado na figura de um titã destruidor de mundos que faz do extermínio uma forma de encarar a paz. Thanos é um Macbeth, que sujou suas mãos de pó de pessoas atomizadas, movido pela sua milady, a Morte, e, agora, coroado o soberano do vazio, reflete sobre o horror de seus atos procurando o seu equilíbrio interno. A longa-metragem anterior da franquia, o magnífico “Guerra infinita” (2018), era dele... era o seu «Trono de Sangue» (1957), bem parecido com o de Akira Kurosawa. Mas neste novo e (por enquanto) derradeiro tomo de uma saga que redefiniu a história do entretenimento nos grandes ecrãs, de 2008 para cá, percebe-se, já nos primeiros minutos, que o buraco é mais fundo, é o da náusea diante do ser ou não ser herói num mundo que perdeu o leme. Por isso, só um vigilante demasiadamente humano como Stark – um ególatra alcoólatra, incapaz de relativizar as suas noções de Bem e o Mal – pode ser o Príncipe da Dinamarca nesta tragédia anunciada sobre a reconquista da esperança. Stark é o cordeiro do deus Stan Lee (1922-2018): a imolação de sua arrogância é o dízimo a ser pago em prol da crença do altruísmo como argamassa de uma civilização de tolerância. Thor, numa interpretação memorável de Chris Hemsworth, será o bobo da corte deste espetáculo de som e de fúria, fazendo o público rir para assinalar a medida do desespero de um gladiador sem arena. Thanos destruiu o Coliseu com a sua estratégia niilista: não existe mais nenhuma batalha a ser lutada, no início deste inventário de cicatrizes dirigido na raia da excelência épica pelos irmãos Joe e Anthony Russo, porque não existem mais guerreiros. O Darth Vader dos comics apagou um punhado significativo de almas da Terra... e de todo o Universo... a fim de higienizar o Cosmos das pragas afetivas, das prepotências. Cabe ao Hefeso dos quadrinhos, Stark, o forjador, dar um sentido à falta de propósito ético que se instaurou em sua realidade com o desmantelo das diferenças e das imperfeições. Cabe a Stark forjar o caos. Daí a matéria do tocante «Avengers: Endgame» ser o Tempo. É na confluência do vetor intangível... a perenidade do existir... que o irreversível se torna reversível. O filme dos Russo não é uma trama de vingança. É a odisseia temporal de pessoas que perderam o senso de relevância para mexer numa pintura com as tintas mórbidas da plenitude e da quietude, enchendo o quadro de humanidades. Stark é o retocador. Cabe ao Capitão América, num desempenho surpreendente de Chris Evans, ser o seu artista final: preenchendo lacunas e completando pontilhados. São amigos para a vida. E é a amizade que serve de leme a uma narrativa que fecha um ciclo histórico de sucesso na Estética do audiovisual, aberto com «Homem de Ferro» (2008), de Jon Favreau, no qual Downey Jr. fez a sua carreira reencontrar os trilhos. Ao assumir como personagem central (confiado a um ator de múltiplas virtudes), a figura de um nobre assombrado pelo espectro da perda, a Marvel deixa claro a sua reta de maturidade em busca de uma trama menos calcada em onomatopeias (Soc! Pow! Pum!) e mais interessadas em verticalizar conflitos psicológicos. O seu reinado no cinema começou, silencioso, há 21 anos, quando Wesley Snipes juntou tostões para filmar «Blade – O Caçador de Vampiros», de 1998. Ali pavimentou-se o caminho para a fauna de mascarados de Stan Lee ganhar corpo e alma no cinema. Mas, desde o seminal «Logan» (2017), a Casa das Ideias (apelido da Marvel) abriu a deixa para discutir temas mais cortantes e urgentes do que o maniqueísmo. «Pantera Negra», com sua veia racial festiva, foi o ápice da transformação do estúdio na trilha do amadurecimento, seguido pelo debate acerca do empoderamento de «Capitão Marvel», com uma heroína que regressa aqui ainda mais gloriosa. Agora, com o novo “Vingadores”, temos um réquiem – sem cenas ao fim dos créditos – para um projeto de epicização fantástica das relações afetivas. Thanos, na inteligente composição de Josh Brolin, deixa de ser o Prometeu acorrentado da longa de 2018 e é repaginado como um cruel brutalista. A sua maldade assegura a verve espetacular de que o filme precisa para agradar os fãs e deixar o Homem de Ferro nos guiar pelos erros da condição humana. Filme de uma beleza singular.

cinco estrelas

«Capitão Marvel» - crítica

Uma vez ou outra, a Marvel volta-se para o espaço para se oxigenar e fugir das convenções e das lutas entre superpoderosos. Mesmo prejudicado com um nó de argumento no primeiro terço, quando a fotografia de Ben Davis procura encontrar a luz precisa, «Capitão Marvel» impõe-se como uma vigorosa jornada de formação para a mais poderosa super-heroína da Disney e como um estandarte político para a batalha em prol do empoderamento feminino. Vencedora do Oscar por «Quarto», em 2016, Brianne Sidonie Desaulniers, ou apenas Brie Larson, usa todo o arsenal gestual que tem para injetar humor, luta e poesia a uma mulher cuja memória foi triturada por via de uma abdução pela raça alienígena Kree. Com uma figura tridimensional nas suas mãos, a cineasta Anna Boden (de «É Uma Espécie de... Comédia») e seu codiretor Ryan Kenneth Fleck (do filmaço «Half Nelson: Encurralados») investem num formato de aventura estelar semelhante à estética pop usada nos quadrinhos marvetes dos anos 1970. A direção segue os moldes de que o genial Roy Thomas, o pai da protagonista, idealizou, por exemplo, em “Warlock” e outras bandas-desenhadas de batalhas de super-heróis com ETs, nos confins da galáxia. É um momento fundamental da edificação da cultura pop, em que a indústria de comics criou a centelha narrativa lisérgica do que viria a ser “Star Wars” e outras franquias. Mas há um tempero mediático a mais na direção: como a trama se ambienta na década de 1990, e tem elementos de espionagem, com a participação fundamental da agência de inteligência Shield, Anna e Fleck travaram um diálogo com toda a linhagem de filmes teen de espiões daqueles anos. E houve muita trama nesse modo de 1992 a 1996 - tipo «Hackers», de Ian Softley, e «Heróis Por Acaso», de Phil Alden Robinson – que servem de referência à luta da Capitão Carol Denvers (Brie) para entender por que motivos foi parar entre as estrelas, para ser treinada pelo Kree Yon-Rogg (Jude Law, impecável na criação de um guerreiro dúbio) a fim de combater a raça de transmorfos chamada Skurlls. Quem lê a Marvel desde criança, odeia os Skrull sobre todas as coisas. Mas algo de novo acontece com esse povo neste filme, assente no carisma de Samuel L. Jackson (em estado de graça na pele do jovem Nick Fury, futuro líder da Shield) e da revelação Lashana Lynch, que vive a aviadora Maria Rambeau, amiga da Capitão. A atuação de Lashana por vezes ofusca Brie.

tres estrelas

crítica publicada na Revista Metropolis nº 67

Capitão Marvel - antevisão

O Universo Cinematográfico Marvel tem já 20 filmes mas, pela primeira vez, terá uma protagonista feminina a liderar uma história. E não poderia ser com maior estrondo. A obra apresenta Capitão Marvel, uma nova heroína que é também uma das maiores poderosas da banda-desenhada e, potencialmente, também um dos trunfos para derrotar finalmente Thanos em «Avengers: Endgame». «Capitão Marvel» é, de resto, a última paragem antes do combate final dos Vingadores e são muitas as expectativas.

Uma grande personagem exige uma grande atriz e a escolhida para interpretar Carol Danvers foi Brie Larson, vencedora do Óscar de Melhor Atriz por «Quarto» (2015) e uma assumida feminista. Embora confesse que tenha demorado algum tempo até aceitar o desafio, a atriz considera que “o facto de a personagem ser ela própria e não poder ser contida é fantástico. Significa que ela é selvagem e isso é algo que adoro”. A heroína esbanja bravura e força, com poderes sobre-humanos e capacidade de voar, sendo mesmo considerada a mais poderosa personagem da Marvel.

captain marvel 3

Contudo, não estará sozinha. Estão também de regresso os rejuvenescidos digitalmente Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Agente Coulson (Clark Gregg), mas também os vilões de «Guardiões da Galáxia» (2014), Ronan (Lee Pace) e Korath (Djimon Hounsou). Do elenco de luxo faz ainda parte Jude Law, que se estreia neste Universo Cinematográfico e arrisca num filme de super-heróis com um personagem de contornos misteriosos. Além da protagonista, também a equipa por detrás do filme tem assinatura feminina, começando logo na realização, com Anna Boden a dividir a tarefa com Ryan Fleck. Boden é, inclusive, a primeira realizadora a assinar um filme Marvel. Algo é certo: definitivamente, a Marvel assumiu por completo o Girl Power.

HISTÓRIA
A narrativa passa-se em 1995, acompanhando Carol Danvers (Brie Larson), uma piloto da Força Aérea dos EUA que ganha poderes extraordinários após um acidente. Sem memórias do seu passado, Carol regressa à Terra para travar uma invasão alienígena, ao mesmo tempo que se torna numa das heroínas mais poderosas do Universo, ganhando o nome de Capitão Marvel.

Realizadores: Anna Boden e Ryan Fleck
(«Sugar», 2008; «A Febre do Mississípi», 2015)
Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Jude Law, Clark Gregg, Lee Pace
Data de estreia: 7 de março

  • Publicado em Feature

"Captain Marvel (Capitão Marvel)" - Novo Trailer

Passado nos anos 90, CAPTAIN MARVEL (CAPITÃO MARVEL), da Marvel Studios é uma nova aventura de um período nunca visto na história do Universo Cinematográfico Marvel, que segue a jornada de Carol Danvers, enquanto se torna num das heroínas mais poderosas do universo. Quando uma guerra galáctica entre duas raças alienígenas atinge a Terra, Danvers dá por si juntamente com um pequeno grupo de aliados, no centro do acontecimento.

O filme é protagonizado por Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Djimon Hounsou, Lee Pace, Lashana Lynch, Gemma Chan, Rune Temte, Algenis Pérez Soto, Mckenna Grace, com Annette Bening, Clark Gregg e Jude Law.

CAPTAIN MARVEL (CAPITÃO MARVEL), da Marvel Studios, é produzido por Kevin Feige e realizado por Anna Boden e Ryan Fleck. Louis D'Esposito, Victoria Alonso, Jonathan Schwartz, Patricia Whitcher e Stan Lee são os produtores executivos.

  • Publicado em Videos

Kong: Ilha da Caveira

Ao que parece, entrámos numa nova idade de King Kong (cujo lendário original, convém lembrar, data de 1933). No caso de Kong: A Ilha da Caveira, de Jordan Vogt-Roberts, com uma transferência insólita e sugestiva para um contexto traumático em que está a terminar a guerra do Vietname — as personagens de alguns militares americanos procuram mesmo algo como uma redenção metafísica numa missão para desvendar os mistérios de uma ilha desconhecida no pacífico.

Lá encontram o império do macaco gigante, Kong, com as marcas (e os monstros) de um tempo pré-histórico, alheio a todas as civilizações. O argumento mais parece um esboço que alguém se esqueceu de concluir, desbaratando personagens e multiplicando clímaxes. Em todo o caso, o filme consegue conservar um certo espírito de “série B”, fantasioso e divertido, capaz de suscitar a nossa cumplicidade.

Tom Hiddleston e Samuel L. Jackson em «Kong: Skull Island»

«Kong: Skull Island» tem estreia mundial marcada para Março de 2017. A Warner revelou este sábado (23) na Comic-Con International em San Diego o primeiro trailer de novo filme de "King-Kong", intitulado "Kong: Skull Island".

Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John Goodman e John C. Reilly estão no elenco.

  • Publicado em Videos

Descarrilada

Rir a bom rir: é isto que pode esperar de "Descarrilada", uma aposta bem conseguida de Judd Apatow. A história centra-se em Amy Townsend (Amy Schumer), uma jornalista independente e confiante para quem a monogamia é um mito, ideia para a qual muito contribuiu o seu pai. Amy tem fobia de relacionamentos e vai saltando de um relacionamento para o outro sem qualquer ligação emocional. Todavia, tudo poderá mudar quando tem de entrevistar o médico Aaron Cooners (Bill Hader), que tem a persistência como uma grande aliada.

Amy Schumer é a comediante do momento nos EUA, tendo agora a sua estreia no grande ecrã. O filme é escrito por ela e tem a sua marca notória um pouco por toda a narrativa. Os dois primeiros atos são os mais interessantes, pejados de momentos divertidos, surpreendentes e politicamente incorretos. Contudo, o tom começa a “descarrilar” para a simples comédia romântica e, aos poucos, a piada começa a diminuir.

Não obstante, Amy Schumer é a rainha da obra e só por ela muitos dos gags acabam, efetivamente, por funcionar. Contudo, não está sozinha, tendo um elenco seguro que enriquece o filme e que complementa na perfeição o trabalho da protagonista. Bill Hader e Vanessa Bayer, duas presenças habituais em "Saturday Night Live", estão irrepreensíveis, bem como a fantástica Tilda Swinton, que tem uma participação deliciosa. Acrescentam-se, ainda, o esforçado John Cena e o surpreendente LeBron James, que consegue mesmo roubar a cena em muitos momentos.

Apesar de aspetos menos bem conseguidos, não poderemos descartar esta tentativa de criação de uma comédia diferente. Além disso, tem uma mulher como protagonista, algo que ainda não ocorrera em filmes realizados por Apatow e que esta obra prova que pode ser um caminho profícuo a seguir no género.

"Descarrilada" é uma comédia em estado puro que acaba por deixar-se levar por outro rumo, encaixando mais na comédia romântica. A obra perde um pouco da sua essência e ousadia mas não deixará de fornecer algo que sempre se pretende de uma comédia: entretenimento e muitas gargalhadas.

quatro estrelas

Título Nacional Descarrilada  Título Original Trainwreck Realizador Judd Apatow Actores Amy Schumer, Bill Hader, Brie Larson Origem Estados Unidos/Japão Duração 125’ Ano 2015

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