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Actualizado às 11:08 AM, Oct 16, 2019

Hell or High Water – Custe o que Custar

Um chapéu de cowboy não define um western, mas a dignidade de quem o usa pode ter essa força. Ainda que hoje em dia os lampejos deste género cinematográfico sejam raros (ou simplesmente medíocres), ele resiste, de algum modo, na postura de certos atores. No caso, Jeff Bridges é o homem de quem estamos a falar. Tinha apenas 22 anos quando apanhou o autocarro para a tropa na paisagem despovoada de Archer City, em «A Última Sessão» (1971), e agora em «Hell or High Water – Custe o que Custar» é um ranger do Texas que persegue dois assaltantes de bancos, a partir da mesma região do filme de Bogdanovich. Rimas do destino. O chapéu, esse cai-lhe que nem ginjas, porque faz todo o sentido, para além de combinar com a voz de tabaco de mascar, e, finalmente, ilustrar a rara possibilidade do western acontecer.

«Hell or High Water» é a nona longa-metragem do escocês David Mackenzie, e apesar da nacionalidade – ou talvez pela justa distância que esta lhe permite –, o seu olhar sobre a identidade regional do Texas tem espírito de detalhe. Centrado na dinâmica da perseguição estudada, que se presta mais à imagem do modo lento de viver naquele lugar do que a uma ação autossuficiente, o filme tem essa qualidade da idiossincrasia local, que já os irmãos Coen tinham espelhado em «Este País Não é Para Velhos» (2007).

Concretizando, Toby e Tanner, respetivamente, Chris Pine e Ben Foster, são dois irmãos que se unem no crime para recuperar a sua propriedade familiar, penhorada pelo banco. Filial a filial, vão somando roubos até ao derradeiro, em que o polícia Marcus Hamilton (Bridges) e o seu parceiro Alberto (Gil Birmingham) se preparam para o tiro final da caça ao homem.

Nesta simples trajetória narrativa, com duas duplas masculinas de cada lado, «Hell or High Water» atinge o equilíbrio sobretudo no contraste de ritmos: à pacatez texana de Bridges corresponde a violência impulsiva de um dos irmãos. Mas há momentos de verdadeira paz no filme de Mackenzie, como aquele captado na luz suave do entardecer (a lente do diretor de fotografia Giles Nuttgens), em que as sombras dançantes dos irmãos agraciam o cenário malickiano. A beleza é particularmente notória nessa solidão fraterna dos justiceiros. De resto, Nick Cave e Warren Ellis encarregam-se do séquito musical, a sublinhar, como o chapéu de Bridges, a possibilidade do western.

tres estrelas

Título Nacional Hell or High Water – Custe o que Custar Título Original Hell or High Water Realizador David Mackenzie Actores Jeff Bridges, Ben Foster, Chris Pine Origem Estados Unidos Duração 102’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº29)

 

 

«Vencer a Qualquer Preço» - A saga de Lance Armstrong

A ascensão e queda do ciclista Lance Armstrong são revisitadas num notável filme de Stephen Frears — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Julho), com o título 'Os sete pecados mortais de Lance Armstrong'.

A saga do ciclista americano Lance Armstrong envolve uma das mais dramáticas histórias modernas de ascensão e queda, glória e decadência. O cinema já a tinha contado no documentário A Mentira de Armstrong (2013), de Alex Gibney. Agora, podemos descobrir Vencer a Qualquer Preço, uma realização do inglês Stephen Frears, estreada há cerca de um ano no Festival de Toronto. O filme baseia-se no trabalho do jornalista irlandês David Walsh que, como repórter de The Sunday Times, investigou e denunciou as práticas de doping de Armstrong e da sua equipa (U.S. Postal Service Cycling Team).

A investigação de Walsh (interpretado no filme por Chris O’Dowd) acabou por dar origem ao livro Seven Deadly Sins: My Pursuit of Lance Armstrong, publicado em 2012. A ironia do título, referindo os “sete pecados mortais” de Armstrong é clara: foi também em 2012 que lhe foram retirados os seus sete triunfos no “Tour de France”, sendo, além disso, banido para a vida de qualquer actividade no mundo do ciclismo.

Escusado será dizer que Armstrong está longe de ser uma personagem simples de retratar. E se é verdade que a sua célebre admissão de culpa no programa de Oprah Winfrey (Janeiro 2013) condensa o essencial da sua imagem pública, não é menos verdade que o filme de Frears procura expor tudo aquilo que, mesmo num invulgar momento confessional como esse, não cabe na vertigem do mundo mediático.

Do ponto de vista desportivo, o esquema montado por Armstrong, com a cumplicidade do médico italiano Michele Ferrari (Guillaume Canet), decorria, afinal, de um contexto em que, como também se veio a provar, o uso de substâncias ilícitas era uma prática corrente da maioria dos ciclistas que participavam na prova máxima do ciclismo mundial. Escusado será dizer que nada disso esbate a impostura que Armstrong protagonizou, envolvendo um programa (é esse, aliás, o título original do filme: The Program) que incluía, entre outros aspectos, a manipulação de amostras sanguíneas e análises de urina. Em todo o caso, muito mais do que um mero relatório “factual”, Vencer a Qualquer Preço é um filme sobre a tensão cruel, potencialmente trágica, entre o delírio individual do sucesso e as expectativas de um contexto social e simbólico sempre apostado em endeusar novos heróis.

A personagem de Armstrong adquire uma dimensão ainda mais perturbante decorrente do facto de os seus momentos de apoteose no “Tour” terem sido precedidos de uma desesperada batalha contra o cancro —a experiência levou-o, aliás, à criação de uma fundação com o seu nome (hoje, Livestrong Foundation), vocacionada para o acompanhamento de pessoas afectadas por doenças cancerígenas. Há nele, afinal, a dimensão visceralmente trágica de um ser que testou os limites das proezas humanas a par da convivência com os sinais da morte.

Fiel à sensibilidade realista em que se formou, Frears faz um filme em que a acumulação da mais detalhada informação sobre a cadeia de acções que sustentava (e ocultava) o doping vai a par da construção de uma personagem que, de facto, à boa maneira das tragédias clássicas, é “maior que a vida”. Nesse processo, o trabalho do actor americano Ben Foster revela-se absolutamente essencial. Acima de tudo, ele consegue interpretar Armstrong como protagonista de uma aventura em que as fronteiras entre a regra e a excepção parecem diluir-se na fruição sem limites das vitórias. Num mundo ideal, Foster teria sido um sério candidato a uma nomeação para o Oscar de melhor actor... Mas, como Armstrong nos ensina, não há mundos ideais.

  • Publicado em Feature

Vencer a Qualquer Preço

Em «Vencer a Qualquer Preço» existe, para além da vontade de vencer, a vontade de enganar e de corromper. «The Program» (utilizando o título original) é um heist movie que fala sobre um desportista desonesto e sobre o desejo diabólico de ganhar a todo custo naquele que é o maior e mais doloroso evento desportivo do mundo: o Tour de France. A tramoia foi tão bem realizada que Lance Armstrong (Ben Foster), o ciclista/batoteiro, iludiu por sete vezes o Tour, os fãs e a esmagadora maioria da imprensa. Aqueles que se atreveram a levantar suspeitas sobre a hipótese de doping por parte de Armstrong foram sistematicamente marginalizados. Este filme baseia-se no relato de um destes jornalistas, David Walsh (Chris O'Dowd), ele que investigou e publicou essas acusações no The Sunday Times e no livro Seven Deadly Sins que serviu de base para o argumento adaptado por John Hodge.
Realizado por Stephen Frears como se tratasse de um “grand tour”, temos várias etapas na trama que envolvem os principais momentos do golpe, os personagens entram em cena, actuam e desaparecem para deixar entrar outros protagonistas criando assim uma panorâmica completa da ascensão e queda de um ídolo.

Lance Armstrong foi interpretado por Ben Foster num desempenho bem executado e extremamente complicado por estar tão próximo dos acontecimentos (1993-2012). Houve transformação física e a performance emocional que revela a psicologia de um mentiroso. Prevalece no filme o lado de bully e sociopata que sempre disse aquilo que as pessoas queriam ouvir, uma figura real que pode ter inspirado milhões na luta contra o cancro assente em princípios que provaram ser uma grande falácia. É um relato que confirma que vivemos num mundo corrompido onde a ganância e a ambição ultrapassam todos os outros valores.

É visível que Stephen Frears despreza justamente o comportamento de Armstrong e que tem pouco interesse pelo ciclismo, embora as sequências na estrada e a direcção de fotografia estejam fantásticas. A verdadeira motivação do realizador britânico foi registar e desconstruir o mito, sem olhar a outro tipo de facetas que pudessem justificar o impossível. Esta é a história maligna e irreal de uma figura maldita. A qualidade de Stephen Frears como contador de histórias aliada à performance maníaca de Ben Foster resultam num filme vencedor.

tres estrelas

Título Nacional Vencer a Qualquer Preço Título Original The Program Realizador Stephen Frears Actores Ben Foster, Chris O'Dowd, Guillaume Canet Origem Reino Unido/França Duração 103’ Ano 2016

 

Hell or High Water

Dois irmãos herdam uma fazenda e não têm rendimentos para amortizar o valor da hipoteca junto do banco. Chris Pine interpreta o mais correto dos dois, um homem divorciado mas com noção de família, enquanto Ben Foster desempenha um indivíduo com cadastro em liberdade condicional. Os dois decidem assaltar as delegações da instituição bancária que lhes emprestou o dinheiro e reembolsar o banco pagando a dívida com o dinheiro roubado. «Hell or High Water», que pode ser traduzido por “contra ventos e marés”, é um western contemporâneo engenhoso sobre um país mergulhado numa crise e onde o desespero impõe medidas extremas. Divertido e empolgante, lembra «Este País Não É Para Velhos» – também acontece no Texas e há um polícia prestes a reformar-se, interpretado por Jeff Bridges, que persegue os vilões – mas aguenta a comparação.

Título Original Hell or High Water Realizador David Mackenzie Actores Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges Origem Estados Unidos Duração 102’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

 

Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos - crítica

Traços de «Krull» (1983), de Peter Yates, e de «Excalibur» (1981), de John Boorman, fazem-se notar em «Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos», como se este jogo em tamanho GG fizesse ninho sobre a linhagem de fantasia do cinema britânico, numa evocação legítima de um certo passado cinéfilo. Como nessas duas referências, nós estamos diante de heróis apequenados por tragédias pessoais, mas próximos de um ideal de Realeza menos aristocrática e mais popular. É quase como se a Coroa Inglesa se misturasse com a plebe em busca de uma harmonia vindoura, mais social. O inimigo não vem de dentro: são as invasões bárbaras, que adulteram o mapa demográfico de uma nação soberana com novas práticas civilizacionais guiadas pela força. Isso fica transparente no argumento, fortalecendo o que poderia ser um mero punhado de batalhas, por estarmos diante de um realizador de identidade autoral incandescente.

Diretor-autor de «Moon»(2009), uma ficção científica psicanalítica e niilista demais para o gosto médio da indústria pop, o inglês Duncan Jones parece capaz de preencher os requisitos esperados de um realizador talhado a dirigir uma superprodução de US$ 160 milhões, baseada em videojogos, como é «Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos». Não há nele o desprendimento (ético e estético) para ser apenas um artesão de aluguer num projeto talhado para fazer da Blizzard Entertainment (empresa líder na seara dos games) um player significativo no tabuleiro de Hollywood. E é esta negativa – este não preenchimento de exigências mercantis – o que dá às cenas geradas por Jones, a partir de premissa oriunda de jogos electrónicos, uma centelha de vida e de legitimidade artística, capaz de incandescer o grande ecrã com uma certa aura de “cinema antigo”, de tradição do filão capa & espada. Ou seja: Warcraft contamina o lúdico inerente às narrativas fantásticas com uma certa amargura, com algo de adulto. É, portanto, uma exceção entre as adaptações de jogos – como foi nos anos 1990 o seminal «Mortal Kombat», de Paul W. S. Anderson – alimentando a lavoura dramatúrgica do épico com um formato de saga, bem próximo do que George Lucas fez em 1977, com o Episódio IV da saga Star Wars.

Assim como «Guerra nas Estrelas» dos anos 1970, Warcraft se estrutura não como uma narrativa de “começo, meio e fim” em si, mas como sendo um episódio inicial de uma narrativa maior, de um épico sobre colisão de culturas. É uma opção ousada para uma grife que, embora bem-sucedida entre gamers, é pouco familiar ao cinema. E, mais do que isso, ao longo desde filme de “apresentação” (de mundos, personagens e de um ethos quase medieval), Jones várias vezes ludibria nossa percepção, levando à sensação de um fim prematuro (e fracassado para os heróis), deixando caminho aberto para surpresas futuras. E são muitas no meio de um caminho onde o primeiro aspecto que salta ao olhos é o cuidado de a direção de arte humanizar as expressões e gestos das criaturas monstruosas – os orcs – enchendo seus olhos de pesar e de incerteza. É essa a síntese do herói orc Durotan, voz de Toby Kebbell.

O cerne da trama é o embate entre homens e orcs quando estes encontram um caminho para invadir o reino dos humanos, liderado pelo rei Llane Wrynn (Dominic Cooper, mal escalado), e colonizar a região, usando as almas de seus escravos para alimentar o poder da chamada Vileza (o Lado Negro da Força, no vocabulário da Blizzard). Este é dominado pelo orc mago Gul’Dan (um grande vilão) e também, ao longo do enredo, pelo feiticeiro Medivh (Ben Foster, roubando todas as cenas para si). O expansionismo dos orcs se dá por vias tortas, a da magia negra, o que irrita Durotan, fazendo dele um traidor político, a se aliar ao único cavaleiro da facção humana com dotes bélicos à altura de enfrentar os exércitos de Gul’Dan: Lothar, interpretado com viço por Travis Fimmel, da série «Vikings».

Este argumento já deixa evidente a potência política do filme, que se lança como uma espécie de narrativa de estratégia, como é bem comum aos games e até aos RPGs dos anos 1980 e 90, vide AD&D. Há pactos a serem travados e traições a serem armadas, o que favorece, no argumento, a existência de uma massa substancial (e sólida) de diálogos, dando um aspecto “palavroso” à longa-metragem. Espera-se de uma aventura com machados em riste algo menos “falado”, mais luta do que conversas. Mas aqui, não. Isso torna o projeto adequado ao formato narrativo celebrizado na TV «A Guerra dos Tronos», onde saliva e sangue se equilibram.

A diferença aqui é a ausência do snobismo característico «A Guerra dos Tronos», no qual o abuso do sexo, da questão LGBT, de manifestos feministas e de muita “conversinha” de calabouço é usado para fazer da série um anti-Senhor dos Anéis, ou seja, algo menos lírico e mais... “adulto”. Aqui, não. Duncan Jones é transgressor de mais para se render a esse tipo de facilitismos. Faz uma fantasia pura, com todos os elementos do género, mas mostra que o mundo metafísico onde a magia sublima perdas, também pode ser triste e amargo. Com isso, seu Warcraft dura na nossa retina para além de suas sequências de luta, executadas com uma clareza e com um teor de adrenalina superior a 90% do cinema de ação contemporâneo. E mais, a tecnologia de efeitos especiais da Blizzard, oriunda de experiências sensoriais nos games, é menos rançosa do que a dos efeitos padrões hollywoodianos dos últimos anos e parece apontar um novo caminho para a representação do que existe de mágico no imaginário da ficção. 

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