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Actualizado às 11:37 PM, Nov 4, 2019

A Tale of Love and Darkness

Embora tenha trabalhado com alguns dos mais influentes diretores autorais dos EUA, como Woody Allen, Tim Burton, Terrence Malick e (ok! até) George Lucas, Natalie Portman deixou-se influenciar mais pelo diretor número 1 do cinema israelense, Amos Gitai, em seu primeiro longa-metragem de ficção como realizadora. Natalie trabalhou com Gitai em «Free Zone» (2005) e usou o que aprendeu com o mestre para adaptar as memórias de um outro Amos, o escritor Amos Oz, para as telas, num drama dilacerante, capaz de expor seus atributos mais sólidos no comando de uma câmera ligada. Embora politicamente ingênuo, aferroado a uma crença política incapaz de alcançar a transcendência, esta reconstituição histórica dos primeiros anos de Jerusalém como coração do Estado de Israel acerta na maneira como valoriza os dramas individuais de seus habitantes. São pequenos microcosmos inflamados não por questões de governo mas sim por traumas pessoais. E aí que Natalie mostra seu domínio nato da arte de atuar no papel da mãe de Oz.

Rodrigo Fonseca em Cannes

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº29)

The Assassin

Há filmes (ainda há filmes...) que resistem a inscrever-se em qualquer modelo conhecido, por assim dizer inventando a sua própria estética. Este é um desses filmes. O relato das aventuras de uma jovem educada nas artes marciais, na China do séc. IX, evolui como uma fábula sobre as razões da fidelidade, já que a vocação justiceira da protagonista impõe que mate o seu primo... Dir-se-ia um objecto tão delicado como um melodrama intimista, tão grandioso como um espectáculo de ópera — em qualquer caso, uma fascinante experiência sensorial.

João Lopes em Cannes

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº29)

Amy

O documentário «Amy» foi exibido fora da competição e tornou-se num dos objetos de culto do festival. É filme íntimo, apaixonado, envolvente e até chocante sobre o percurso familiar e artístico da cantora que morreu no auge da carreira, com 27 anos. O realizador britânico Asif Kapadia reuniu fotografias e vídeos pessoais, as letras das canções manuscritas pela cantora, e uma série de depoimentos esclarecedores de amigos, músicos e familiares de Amy, incluindo alguns que resistiram a falar durante dois anos. “Amy” revela que a cantora não estava preparada para lidar com tamanho sucesso e de certa forma foi uma vítima da excessiva exposição mediática a que estava sujeita. É um filme justo para com a cantora que não é prejudicada pelas piores revelações.

Tiago Alves em Cannes

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº29)

Youth

Depois de ter ganho o Óscar de melhor filme estrangeiro com «A Grande Beleza», o realizador Paolo Sorrentino alargou os seus horizontes. «Youth», a sua mais recente entrada na competição do Festival de Cannes, é falado em inglês e tem um elenco com os veteranos Michael Caine, Harvey Keitel e Jane Fonda, ao lado de Rachel Weisz e Paul Dano. O filme é uma fábula sobre o comportamento humano, concretamente focado na questão do envelhecimento/rejuvenescimento e na passagem do tempo. Mas também na identidade artística, algo que está presente nos papéis de maestro, realizador e atriz desempenhados por Caine, Keitel e Fonda. O grande formalismo visual que é usual nos filmes de Sorrentino está mais atenuado, o que valoriza a doce humanidade deste filme.

Tiago Alves em Cannes

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº29)

Em Terra Estranha - DVD

A obra de estreia de Kim Farrant é um drama perturbador desenrolado na vastidão do deserto australiano onde a beleza e a crueldade do meio natural se confrontam com a fragilidade da natureza humana. Uma família em convulsão muda-se para uma cidade no meio do nada e os dois filhos desaparecem, literalmente, no meio da noite. Os pais iniciam uma busca e revelam-se as motivações que os levaram a este lugar. Nicole Kidman encabeça o elenco e tem uma interpretação de corpo inteiro como já não a víamos fazer há muito tempo. A actriz regressa à terra natal e sente-se que está a jogar em casa. Além do excelente papel que teve em mãos contracenou perfeitamente com Hugo Weaving, demonstrando uma empatia para além das palavras. O mesmo não se poderá dizer da relação em cena com Joseph Fiennes, no papel do marido. Um sólido trabalho de estreia de Kim Farrant que ambicionou mais a exploração da humanidade dos seus personagens do que propriamente o thriller na descoberta de alguém desaparecido. Relevo para o belíssimo trabalho de fotografia de P.J. Dillon na forma como transforma a paisagem num elemento belo e inquietante.

Dheepan

Depois de «Um Profeta» (2009) e «Ferrugem e Osso» (2012), Jacques Audiard volta a pegar num assunto difícil. «Dheepan» (galardoado com a Palma de Ouro) conta-nos a história de um homem que foge à guerra civil no Sri Lanka, um guerreiro dos “Tigres do Tâmil” que agora procura asilo político em França. Porém, para o conseguir ele tem de ter uma família, para isso inventa uma. Dheepan (Jesuthasan Antonythasan), Yalini (Kalieaswari Srinivasan) e Illayaal (Claudine Vinasithamby) são totalmente desconhecidos, procuraram-se no meio de um campo de refugiados para garantirem um passaporte para uma nova vida. Todos eles são de alguma forma órfãos, todos perderam alguém e conviveram demasiado perto com a morte, também por esta razão se agarram tanto à mentira de serem uma família. Todas estas cenas no início do filme são breves, mas marcantes, dando-nos um relance das origens das personagens.
Grande parte da película passa-se, portanto, em França, primeiro nas ruas de Paris, depois num bairro periférico, no qual a família ‘faz de conta’ é recolocada. No entanto, também neste bairro Dheepan vai enfrentar várias dificuldades, como a pobreza, a exclusão social, o tráfico de droga e a violência, algo que despertará, não só nele, como também emYalini e Illayaal, ecos da guerra, fazendo emergir velhos medos e impulsos violentos. Isto porque, numa outra escala, o bairro social é também um campo de batalha, onde os seus habitantes tentam a cada dia sobreviver.

Ao longo de «Dheepan» vamos testemunhando a convivência entre três estranhos que tentam integrar-se na vida social do bairro francês ao mesmo tempo que se vão conhecendo e estabelecendo laços. Todo este processo é difícil, a estranheza está entranhada, há feridas abertas. As interpretações dos protagonistas são individualmente tocantes e fortes, sentimos a solidão e a dor de Dheepan, a rebeldia de Yalini; mas são pouco convincentes quando interagem. Sente-se uma artificialidade nesta aproximação entre as personagens. Para além disso, as elipses na narrativa, que tão bem funcionaram em «Ferrugem e Osso», nesta película criam uma barreira invisível entre as personagens e entre o público e a história de sentimentos dos três. Mas estas questões são resolvidas num final demasiado condensado e repentino, deixando-nos com a sensação que uma parte da história foi cortada. Porém, há imagens que sobressaem, que nos conquistam pela sua simplicidade e força. Como, por exemplo, logo no início do filme vemos o jogo de luzes e sentidos que saem da noite escura, as emoções contidas de Dheepan que surgem em sonhos e em bebedeiras ou a sensualidade de Yalini enquanto entra na penumbra do quarto. São quadros que acrescentam uma outra dimensão a este testemunho.

O realizador cria, então, um filme com diferentes geografias e histórias. Não é apenas uma história de refugiados a quem se dá uma identidade, mas também é uma reflexão sobre os profundos problemas da sociedade francesa. Mais uma vez Jacques Audiard volta às histórias dos que vivem ou são postos à margem, tentando mostrar o seu lado da realidade, ainda que com cortes.

Estrelas: 4

Título Nacional
Dheepan
Título ORIGINAL
Dheepan
REALIZADOR
Jacques Audiard
ACTORES
Jesuthasan Antonythasan
Kalieaswari Srinivasan
Claudine Vinasithamby
ORIGEM
França
DURAÇÃO
109’
ANO
2015

Cinzento e Negro

Em «Cinzento e Negro», o novo filme de Luís Filipe Rocha, David (Miguel Borges) refugia-se numa casinha, pousada no topo de uma montanha, no Pico. Fazem-lhe companhia creio que quatro vacas, uma viola e um livro. É pelo menos este o inventário que ele faz à sua amante, Marina (Monica Calle), a sereia que na ilha vizinha acolhe o viajante sempre que ele dá à costa. Mas este é o primeiro de vários equívocos, o menos grave. Isto é, David não é um verdadeiro viajante, ele tem medo de andar de barco e nunca leu um livro. É por isso bastante irónico que tenha escolhido os Açores para se esconder e a Odisseia como primeira leitura. Teria feito melhor se tivesse optado pela Ilíada pois sobre ele não tardará a cair a cólera do implacável Aquiles, ferido no calcanhar e no coração, vestido [mais uma vez] de mulher.

O pathos literário combina muito bem com este filme, recheado de influências. Além de Homero encontramos Raul Brandão, referência clara desde logo no título, «Cinzento e Negro», mas também Cesare Pavese, Herman Melville, entre muitos outros. Os actores, em especial Joana Bárcia, que oferece uma interpretação magnífica de Maria (o tal Aquiles de saias), incorporam essa poesia como sua. Quando falam é como se fosse sempre a primeira vez. As paisagens, sejam elas o quarto descaracterizado de uma pensão barata ou os montes verdejantes do Pico, deixam-se contaminar pela breve história humana. É aliás notável como esses lugares, e até certos objectos, como o arpão, são muito mais do que testemunhas, são mediadores entre o passado e o futuro. Funcionam como uma espécie de constante que lembra e comenta a nossa ligação ao mundo.

Luís Filipe Rocha trabalha todos estes elementos como um verdadeiro alquimista. O resultado final é um filme fascinante e extremamente difícil de classificar. Formalmente, «Cinzento e Negro» aproxima-se de um thriller – temos um crime, um polícia torturado (Filipe Duarte) e alguém que procura vingar-se –, mas a ancoragem moral da história e o tipo de protagonistas que encontramos remete-nos necessariamente para o western, o género que, dizia J. L. Borges, tomou no séc. XX o lugar da epopeia. O casamento entre essa pretensão épica, que existe, e o retrato da situação insular das personagens dá-se numa mistura enigmática pontoada por momentos sublimes e outros de um humor muito terreno, muito peculiar.

«Cinzento e Negro» esteve em competição no Festival Caminhos do Cinema Português 2015 de onde, injustamente, saiu vencedor apenas em duas categorias: Melhor Actor, para Filipe Duarte, e Melhor Banda Sonora Original, Mário Laginha. Não estando em causa o talento da laureada, Beatriz Batarda («Yvone Kane», Melhor Longa-Metragem), desta vez o prémio de Melhor Actriz cabia indubitavelmente a Joana Bárcia. Depois de ver o filme vai-me dar razão.

quatro estrelas

Título Original Cinzento e Negro Realizador Luís Filipe Rocha Actores Joana Bárcia, Filipe Duarte, Miguel Borges Origem Portugal Duração 126’ Ano 2015

Coração de Cão

Na verdade, respeitando o mais possível o título original, «Heart of a Dog», o filme de Laurie Anderson deveria chamar-se «Coração de um Cão». Porquê? Porque esta não é a história de uma ideia abstracta de “cão”, mas sim o retrato muito particular do cão Lolabelle (aliás uma cadela) da própria Laurie Anderson — Lolabelle morreu e a autora envolve-se num processo de reorganização de memórias que, de facto, não reconhece limites factuais, geográficos ou simbólicos.

Não há muitos filmes assim, convém sublinhar. Em boa verdade, podemos dizer que há muito tempo não recebíamos a dádiva de um exercício cinematográfico ao mesmo tempo tão íntimo e particular, tão abrangente e universal — se é preciso alguma referência modelar, sugiro que recuemos até ao admirável «JLG por JLG» (1997), a que Jean-Luc Godard deu o subtítulo de “auto-retrato de Dezembro”.

Laurie Anderson começa por evocar a vida e a morte de Lolabelle através dos sonhos e daquilo que, sonhando, consegue consumar (ou não) como proeza sobre-humana. Muito para além da imagem de “animal de companhia”, Lolabelle surge como uma entidade eminentemente criativa (inclusive na criação musical...), gerando laços narrativos que vão desde as atribulações da vida na grande metrópole até aos sinais inapagáveis da herança artística e pessoal do marido da realizadora, Lou Reed (1942-2013).

Daí que «Heart of a Dog» seja um filme em que podemos viajar da descoberta da natureza na companhia de Lolabelle para a evocação dos atentados do 11 de Setembro, passando pela reflexão sobre o facto de, hoje em dia, tanta gente se exprimir publicamente “sem ter nada para dizer”. Estamos perante um exemplo admirável de superação de qualquer fronteira documentário/ficção. Dito de outro modo: Laurie Anderson domina com sofisticada mestria a arte da narrativa e, na sua singeleza de “home movie”, este é também um dos objectos mais radicais e fascinantes do ano cinematográfico de 2015.

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