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Actualizado às 11:21 PM, Dec 4, 2019

Uma Pastelaria em Tóquio

Este é um daqueles filmes tocados por uma sensibilidade impossível de condensar em qualquer sinopse. Digamos que se trata do retrato de duas personagens unidas pela gastronomia: ele é Sentaro (Nagasi Masatoshi), proprietário de uma espécie de quiosque onde vende guloseimas típicas do Japão; ela é Tokue (Kiki Kirin), uma velha senhora que insiste em ser contratada por Sentaro, oferecendo-lhe a sua receita tradicional da pasta feijão (“an”) que serve de recheio aos clássicos “dorayakis”... A partir daí, Naomi Kawase («A Quietude da Água») constrói uma tocante odisseia, amarga e doce, sobre a aprendizagem, a solidariedade e também o pressentimento da morte.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Dheepan - Cannes 2015

O mais recente filme de Jacques Audiard Iida com o problema extremamente atual da imigração na Europa, contando a história de um homem do Sri Lanka, Dheepan (Jesuthasan Anthonythasan), que se refugia em França. É uma saga de uma falsa família, porque Dheepan foge da guerra no seu país acompanhado de uma mulher e de uma menina – os três simulam uma possibilidade de existência familiar. É um filme que observa a falência de diversidade, harmonia e solidariedade na sociedade francesa, expondo as condições dos mais fracos. Como sucede nos filmes de Audiard, as suas personagens estão feridas e encontram a redenção numa réstia de afeto. «Dheepan» não é o filme mais consistente de Audiard – basta citar os anteriores «Um Profeta», 2009 e «Ferrugem e Osso» de 2012 –, mas devido á sua temática acabou por ser oportunamente consagrado com a Palma de Ouro.

Tiago Alves em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

 

 

Amor Impossível

Ciclicamente, surgem reflexões mais ou menos desencantadas sobre o facto de o cinema português continuar a mostrar-se deficitário na relação com as histórias do próprio dia a dia do nosso país. É uma observação a que podemos reconhecer alguma pertinência, embora seja sempre arriscado favorecer o simplismo de algumas generalizações — de facto, um filme pode até funcionar num registo de fábula, distante e abstracto, e apesar disso tocar de forma muito subtil o nosso aqui e agora.

Seja como for, importa dizer que o primeiro mérito da nova realização de António-Pedro Vasconcelos decorre da sua capacidade de abordar um Portugal distante dos clichés da “grande cidade” (a acção decorre em Viseu), ao mesmo tempo resistindo a qualquer caracterização mais ou menos pitoresca e paternalista da “província”.

Inspirado em factos verídicos, o argumento assinado por Tiago R. Santos — que já trabalhara com António-Pedro Vasconcelos em «Call Girl» (2007), «A Bela e o Paparazzo» (2010) e «Os Gatos Não Têm Vertigens» (2014) — aposta numa dupla vertente: por um lado, trata-se de colocar em cena a paixão de Cristina (Victória Guerra) e Tiago (José Mata), assombrada pelo comportamento violento de Tiago; por outro lado, essa paixão está também assombrada, de modo obviamente distinto, pela ânsia de Cristina “reproduzir” os grandes amores românticos, aliás tendo O Monte dos Vendavais como referencia obsessiva.

Entre aquele par e outro, formado por dois polícias (Soraia Chaves e Ricardo Pereira), vai-se consolidando uma teia de factos e emoções que, no limite, irá conduzir a um impasse a definição de cada uma das personagens. António-Pedro Vasconcelos filma, assim, o modo como o fluxo amoroso é feito de enlaces e rupturas que, em última análise, questionam o lugar social de cada um dos seres envolvidos. Reforçando uma marca essencial do seu cinema, a direcção de actores constitui um trunfo decisivo, além do mais afastando a ficção de qualquer formatação de raiz telenovelesca.

tres estrelas

Título Original Amor Impossível Realizador António-Pedro Vasconcelos Actores Victória Guerra, Soraia Chaves, Ricardo Pereira Origem Portugal Duração 125’ Ano 2016

 

A Assassina

Depois de passar pela primeira edição da Festa do Cinema Chinês, que decorreu em Lisboa entre 10 e 30 de Setembro, «A Assassina» tem marcada a sua estreia nacional para o início do próximo ano, pela mão da Midas. Elogiado sobretudo pela beleza contemplativa que emana dos enquadramentos oblíquos, dos planos longos e paisagens maravilhosas, «A Assassina» – filme que valeu a Hou Hsiao-hsien o prémio de Melhor Realizador em Cannes 2015 – não se pode reduzir a um mero exercício de estilo. É verdade que a estrutura labiríntica do enredo, assente em intrincados laços familiares e/ou de dependência, assim como os diálogos esparsos e elípticos podem dificultar o trabalho do espectador que, alheado da história, facilmente se deixa seduzir por pormenores visuais, sem dúvida deslumbrantes, mas que a todo o momento ameaçam ofuscar o dilema moral pungente da protagonista. Vale por isso a pena ver pelo menos duas vezes.

Serve de palco a este filme o culminar do século IX, na China. Um momento bastante conturbado em termos políticos, que anuncia o fim da longa dinastia Tang (618-907), e durante o qual foram produzidos os contos tradicionais em que Hou Hsiao-hsien se inspirou para contar a história de Nie Yinniang (Shu Qui). Raptada quando tinha apenas 10 anos, Yinniang foi treinada por uma freira taoista para se tornar uma assassina implacável. Encontramo-la passados vários anos, depois de ter adquirido inigualável domínio técnico das artes marciais; a sua destreza física, a natureza precisa, quase determinística dos seus movimentos contrasta, porém, com a hesitação que revela quando recusa levar a cabo a sua missão sanguinária. Desapontada, a freira decide punir Yinniang ao enviá-la para matar o primo, Tian Ji’an (Chang Chen), actual dirigente da importante província militar de Weibo e a quem em tempos Yinniang esteve prometida em casamento. O imperativo do dever, por um lado, e a incapacidade de ignorar os seus próprios sentimentos, por outro, colocam a personagem numa posição delicada e perigosa.

A densidade psicológica do papel e a exigência e sofisticação das coreografias de luta colocam um peso extra sobre a actriz, que se mostra absolutamente à altura do desafio. Shu Qui, que já tinha colaborado com Hou em «Millennium Mambo» (2001) e «Três Tempos» (2005), mistura como ninguém na sua expressão impassível a graça e a misericórdia – atributos pouco habituais na caracterização de uma assassina. De resto, é importante notar que o título e a promoção deste filme pode conduzir ao engano aqueles que esperam encontrar o típico filme de artes marciais. Não é que em «A Assassina» não haja muita acção, mas a somar à distância cultural que nos separa do contexto social e político que o filme tenta retratar de forma bastante fiel, existe também, creio eu, uma distância rítmica. A mesma que nos impede de observar a olho nu o desabrochar de uma flor. Apesar de desajeitada, a metáfora florícola quer chamar a atenção para a experiência bastante peculiar que este filme oferece e à qual vale a pena emprestar os olhos.

quatro estrelas

Título Nacional
A Assassina
Título Original
Nie yin niang
REALIZADOR
Hou Hsiao-hsien
ACTORES
Shu Qi
Chang Chen
Sheu Fang-yi
ORIGEM
Taiwan, China, França
DURAÇÃO
105’
ANO
2015

 

O Clube

O verdadeiro choque positivo do festival veio do Chile com «El Club», de Pablo Larraín. Uma história sobre padres pedófilos que estão refugiados num pequeno povoado ao largo da costa chilena. Uma obra que já está a inflamar muita gente pela forma como tem coragem de ser explícito na sua denúncia de crimes sexuais perpetrados no ceio da Igreja Católica. «El Club» é uma descida muito negra aos infernos, nada manso com os católicos. O espetador sai da sala como se tivesse perdido um pouco a sua inocência. Depois de «Não», estreado em Portugal em 2013, Larraín confirma-se como um dos mais diabólicos e certeiros cineastas deste tempo. A dada altura, a sua mise en scéne explode com uma violência gráfica na ordem do teatral, neste caso saída de um teatro de horrores. É impressionante. Venceu o Urso de Prata e parece certo que ao longo deste ano vai provocar uma grande polémica com a comunidade católica...

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Rainha do Deserto

A vida de Gertrude Bell, a mulher que nos anos 20 teve um papel instrumental na forma como o Médio Oriente ficou dividido, não deu um bom filme. O argumento de Herzog explora a sua juventude e o primeiro desgosto amoroso, uma paixão proibida por um homem de baixa condição social. Mais tarde, Bell tornou-se escritora, arqueóloga e aventureira, tendo mantido com o povo beduíno uma relação privilegiada. Nicole Kidman, de cabelo dourado e sempre muito maquilhada, passeia-se de camelo pelo deserto em pose de diva mas nunca nos dá a conhecer a verdadeira alma de uma mulher que acabou por ser agente secreta da coroa britânica e amiga pessoal de T.E. Lawrence (interpretado sem genica alguma por Robert Pattinson), exatamente Lawrence da Arábia. Mas se é verdade que o cineasta alemão quis fazer a sua “versão feminina de Lawrence da Arábia”, também é verdade que a espessura épica de David Lean não é para aqui chamada. O que é infelizmente convocado é um academismo insuportável, próprio de uma lição de História decorativa. Todo o filme parece demasiado polido, carece da habitual excentricidade de Herzog, que aqui em Berlim referiu que este seu trabalho pode ser visto como um gesto feminista. Claro que não pode. Não basta filmar uma heroína a suar no deserto para ganhar um carimbo feminista...Também sem sal estão os homens do filme: Damian Lewis e o omnipresente James Franco, a interpretar os dois homens que Gertrude amou. A pior obra da carreira do grande cineasta alemão.

Queen of the Desert de Werner Herzog

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Love & Mercy

«Love & Mercy», já exibido no Festival de Toronto com notório sucesso, esta é uma crónica sobre a vida de Brian Wilson, dos Beach Boys. John Cusack e Paul Dano (a provar que é um dos grandes atores americanos do momento) interpretam o génio musical em duas fases diferentes da sua vida. O guião, do também cineasta Oren Moverman, não se distancia um milímetro das doenças mentais de Wilson nem do seu ego desmedido.

Um filme que chega ao coração da criação musical, em especial de sinfonias como God Only Knows e Good Vibrations. Facilmente consegue ser um dos melhores filmes biográficos de Hollywood dos últimos anos e vai a fundo no processo de criação musical da banda. «Love & Mercy» é sempre mais interessante quando aborda os primeiros tempos dos Beach Boys.

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Diário de Uma Criada de Quarto

«Diário de Uma Criada de Quarto», a partir de Mirbeau. Como fazer esta adaptação depois de Buñuel e Renoir? Para Jacquot, essa tentativa é o conceito em si. Uma tentativa com uma câmara irrequieta que recusa formalismos clássicos e que resvala sempre para os enfeites. Felizmente está lá Léa Seydoux, um rosto que num mesmo plano pode exalar luxúria e inocência. Destinada a dividir opiniões, foi uma das grandes desilusões da competição e um mau presságio para o próximo de Jacquot, a ser filmado em Portugal a partir da obra The Body Artist, do escritor norte-americano Don DeLillo.

Diário de Uma Criada de Quarto de Benoit Jacquot

Rui Pedro Tendinha em Berlim

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

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